O ABISMO ENTRE O JALECO E O ASFALTO: O VENENO DE MARCOS O barulho do baile era um monstro vivo, uma criatura de mil vozes e um grave que batia nas minhas costelas como se quisesse estraçalhar o que restava do meu coração. Ali, no meio daquela contenção barulhenta, cercada pelo cheiro de pólvora, suor e uísque barato, eu me sentia em outro planeta. O asfalto da Muralha parecia feito de brasas, e cada passo que eu dava naquele salto agulha vermelho era um tropeço na minha própria dignidade. Eu estava de pé, equilibrando a bandeja de prata que pesava nos meus braços já sem força. O microvestido preto subia a cada movimento, me deixando exposta diante daqueles homens que me olhavam com uma fome que me dava náuseas. A coleira de ouro apertava meu pescoço, um lembrete gelado e pesado de que eu

