Capítulo 010: Inveja
O silêncio voltou a tomar conta da sala.
Davion cerrou os punhos. Uma sensação desconfortável continuava a atormentar sua mente.
"Avô, eu não posso simplesmente ficar parado", disse ele finalmente. "Se continuarmos esperando, perderemos nossa chance de controlar a situação."
Margrave levantou-se lentamente de sua cadeira.
"Eu não permitirei que isso aconteça."
Ele caminhou até a janela antes de voltar seu olhar para o neto.
"Lembre-se disso, Davion. Neste mundo, a vitória não pertence àqueles que se movem mais rápido, mas àqueles que escolhem o momento certo para agir."
Davion respirou profundamente. Ele entendia o que seu avô queria dizer, mas a inquietação em seu peito se recusava a desaparecer.
"Então precisamos garantir que estaremos sempre um passo à frente."
Margrave sorriu levemente.
"Nós já estamos."
"É apenas que, às vezes, a vitória exige paciência."
A manhã lentamente surgiu além da residência do Grão-Duque Margrave.
A forte chuva da noite anterior havia deixado uma névoa montanhosa suspensa no ar. A luz do sol gradualmente atravessava as nuvens, mas o frio ainda permanecia por todo o ambiente.
Davion estava diante de uma grande janela que observava as terras do leste, com os punhos firmemente cerrados.
Margrave permanecia sentado calmamente ao lado da lareira, girando distraidamente o anel de sinete em seu dedo — um hábito que sempre tinha quando estava profundamente concentrado em seus pensamentos.
"Você não está me ouvindo."
Davion quebrou o silêncio.
"Cada dia que passamos esperando apenas torna Cavero mais forte."
"Você espera que eu viva para sempre sob a sombra dele?"
Margrave ergueu o olhar.
"Eu sempre ouvi você."
"Mas você não age!"
Davion se virou, com o rosto ardendo de raiva.
"Eu já fui paciente por tempo demais."
"Cavero precisa ser derrubado antes que seja tarde demais."
Margrave permaneceu sereno.
"Você ainda não entende o verdadeiro significado da paciência."
Ele recostou-se.
"A política não é um campo de batalha."
"Aqui, a vitória é determinada pelo momento certo, não pela raiva."
Davion bateu a palma da mão contra a mesa.
"Isso não é apenas política!"
Sua voz ecoou por toda a sala.
"Isso é meu direito de nascimento!"
"Eu sou filho de Silvia."
"Seu neto."
"Aquele trono deveria ser meu."
"Mas agora Cavero tem tudo simplesmente porque nasceu primeiro."
Margrave olhou para ele sem a menor mudança em sua expressão.
"E é exatamente por isso que você ainda não é digno dele."
Davion ficou em silêncio.
"Sua raiva é sua fraqueza."
A voz de Margrave permaneceu equilibrada.
"Se quer derrotar Cavero, prove que é superior a ele — não apenas alguém mais furioso."
Davion soltou um longo suspiro e se afastou.
"Qual é exatamente o seu plano, Avô?"
Ele lentamente se virou novamente.
"Você realmente quer que eu vença..."
"...ou está apenas jogando seu próprio jogo?"
Margrave levantou-se e caminhou até ele.
"Você é o herdeiro que eu escolhi."
Ele colocou uma mão sobre o ombro de Davion.
"Passei anos preparando este caminho."
"Mas se você não consegue controlar a si mesmo, todos os meus esforços terão sido em vão."
Davion encarou o olhar de seu avô.
"Então tudo o que preciso fazer é esperar?"
"Sim."
"Por quanto tempo?"
Margrave sorriu levemente.
"Até Cavero cometer um erro."
Ele deu um leve tapinha no ombro do neto.
"Todo ser humano está destinado a cometer erros."
"Nossa única tarefa é garantir que, quando esse momento chegar..."
"...estejamos preparados para tirar vantagem dele."
Davion permaneceu em silêncio.
Ele ainda estava insatisfeito, mas não discutiu mais.
Margrave voltou para sua cadeira e pegou a taça de vinho que estava esperando ao lado da lareira.
"Mantenha a calma, Davion."
Ele ergueu lentamente a taça.
"Este jogo está longe de terminar."
"E no final..."
"...seremos nós que venceremos."
Davion olhou para seu avô por um momento antes de se virar e deixar a sala sem dizer mais uma palavra.
A porta fechou-se suavemente atrás dele.
Margrave soltou um longo suspiro enquanto olhava pela janela.
"Tempo..."
murmurou ele baixinho.
"O tempo é a arma mais mortal."
O silêncio preencheu a sala novamente.
Do lado de fora da janela, a brisa das montanhas agitava suavemente as folhas que começavam a adquirir uma tonalidade amarelada.
Enquanto isso, dentro da sala, ambas as gerações da família compreendiam a mesma coisa.
O jogo finalmente começava a mudar de rumo.
Em outro lugar...
A chuva pesada golpeava as altas janelas do salão de reuniões dentro da residência do Grão-Duque Margrave.
A luz das velas tremeluzia pelas paredes de pedra, projetando sombras dançantes sobre uma longa mesa de carvalho, entalhada cuidadosamente com o brasão da família Margrave.
Apesar da grandiosidade do salão, a atmosfera em seu interior era mais fria do que a tempestade que rugia do lado de fora.
O Grão-Duque Margrave estava sentado calmamente na cabeceira da mesa.
Um manto n***o bordado com fios prateados cobria seus ombros, enquanto seus dedos giravam lentamente o anel de sinete em sua mão direita.
Seu olhar percorreu os três homens sentados diante dele.
O Conde Markus Hazen parecia inquieto.
O Conde Frendel Belatrix permanecia sentado de maneira ereta, com uma expressão solene.
Enquanto isso, o Conde Dalmar Yegev estava recostado confortavelmente, escondendo um leve sorriso cujo significado era impossível de compreender.
"Meu Senhor Grão-Duque", começou Markus cautelosamente.
"A nomeação oficial do Príncipe Cavero como Príncipe Herdeiro tornou nossa posição ainda mais difícil."
"Se o Rei falecesse agora, nada impediria Cavero de alcançar o trono."
Margrave ergueu sua taça de vinho sem tirar os olhos deles.
"Eu já sei."
Seu tom calmo foi suficiente para silenciar toda a sala.
"Um jogo não termina simplesmente porque uma peça alcançou o outro lado do tabuleiro."
Frendel inclinou-se para frente.
"Com todo respeito, Meu Senhor..."
"Cada dia que permitimos passar apenas fortalece a posição de Cavero."
"Não seria mais sábio tomarmos a iniciativa primeiro?"
Margrave recostou-se.
"O primeiro movimento só importa se ele encerra o jogo."
Ele fez uma breve pausa.
"Meus homens já estão dentro do palácio."
"Deixe Cavero sentir-se seguro."
"Quanto mais alto um homem se ergue..."
"...mais difícil será sua queda."
Dalmar sorriu.
"Nesse caso..."
"...e quanto à Rainha Silvia?"
"Ela é nosso maior trunfo."
Margrave respondeu sem hesitação.
"É hora de Sua Majestade agir abertamente?"
"Ainda não."
A resposta de Margrave foi curta.
"Silvia conhece seu papel."
"Não revelaremos todas as nossas cartas antes do momento adequado."
Dalmar fez um leve aceno.
"É claro, Meu Senhor."
Markus falou novamente, desta vez muito mais baixo.
"E..."
"...e se esse plano falhar?"
A sala ficou em silêncio.
Margrave colocou sua taça de vinho sobre a mesa.
O leve som do cristal tocando a madeira ecoou com uma clareza surpreendente.
"Markus."
Seu olhar tornou-se frio.
"O homem que duvida da vitória antes mesmo de o jogo começar..."
"...já perdeu."
Markus abaixou a cabeça, incapaz de responder.
Margrave olhou novamente para os três condes diante dele.
"Cavero parece forte."
"Mas uma força que se torna arrogante..."
"...é o tipo mais fácil de destruir."
Sua mão deslizou lentamente sobre a superfície da mesa.
"Não iremos derrubá-lo com espadas."
"Iremos derrubá-lo com o tempo."
Ninguém interrompeu.
Margrave levantou-se.
"Já chega."
"Executem todas as minhas ordens."
"E lembrem-se..."
Seu olhar passou de um conde para o outro.
"...neste jogo, um único pequeno erro pode destruir décadas de preparação."
Os três homens imediatamente se levantaram e fizeram uma reverência.
"Sim, Meu Senhor."
Um por um, eles deixaram o salão até que as enormes portas finalmente se fecharam atrás deles.
O silêncio retornou mais uma vez.
Margrave caminhou lentamente até o enorme mapa do Reino de Xipil pendurado na parede.
Seu dedo percorreu um território após outro antes de parar na capital.
Um leve sorriso surgiu no canto de seus lábios.
"O jogo..."
murmurou suavemente.
"...apenas começou."