Livre, mas Não Leve

1222 Words
ANALU A rua tá estranhamente silenciosa quando eu abro a porta do apartamento novo. O coração ainda acelera toda vez que a chave gira na fechadura. Três meses. Já faz três meses desde que a Mari me tirou daquela clínica, desde que me joguei no colo do Cayo na frente da cadeia, desde que a gente começou a correr e não parou mais. E ainda assim, o silêncio me assusta. Tô acostumada com o barulho dos meus próprios nervos, com a sensação de que alguém vai aparecer a qualquer momento. O apartamento não é nada demais. Um quarto, uma sala que m*l cabe um sofá de dois lugares, cozinha americana minúscula e uma janela que dá de frente pra um posto de gasolina. À noite, a luz do letreiro ilumina o quarto de laranja. Mas é meu. Nosso. Comprei financiado, e vamos ter longas e altas parcelas pela frente, mas é nosso refúgio. Depois de tudo que a gente passou – a clínica, a cadeia, as mentiras dos meus pais, a perseguição – eu nem acredito que tô colocando uma sacola de mercado em cima da mesa de plástico sem medo de alguém me arrastar pelos cabelos ou me trancar num quarto branco. O Cayo tá atrás de mim com as duas últimas caixas, a camisa preta levantada na cintura, mostrando um pedaço da barriga definida – não ajuda nada na minha concentração, que já é pouca e r**m. — Última caixa — ele fala, jogando tudo no canto da sala com aquele jeito brutamontes que é só dele. — A gente conseguiu, patricinha. Eu dou uma risada, mas a verdade é que minhas mãos tremem. Ser livre dói. Dói porque agora eu penso em tudo que posso perder. Cada segundo de paz parece um empréstimo, não um direito. A gente tenta montar nossa vida naquele ritmo caótico de quem nunca teve paz de verdade. Cayo joga o colchão no chão do quarto – a cama nova só chega semana que vem – e eu fico tentando arrumar a cozinha, me irritando com o fato de que não cabe nada direito. Os copos ficam num armário, os pratos em outro, a geladeira é minúscula... — Vai devagar — a voz dele surge de repente, bem atrás de mim. Ele encosta o corpo no meu, envolve minha cintura com os braços e morde minha orelha de leve. — Tá parecendo que tão cronometrando tuas respirações, Ana. Para um pouco. Eu relaxo um instante, deixando o calor dele me acalmar. — Eu tô tentando esquecer… tudo. Tentando fazer parecer normal. Ele me vira, segura meu rosto com as duas mãos, os olhos escuros sérios. — A gente vai fazer dar certo. Só precisa de tempo. Ninguém vai te tirar daqui. Tô aqui. Mas tempo não é o problema. O problema é que Gabi e Humberto tão lá fora, em algum lugar, respirando o mesmo ar que a gente. E eles não esquecem a gente. Nem perdoam. A gente decide sair pra comprar uma panela decente. A que veio com o conjunto de panelas é uma porcaria que gruda tudo. É um passeio simples, bobo. Mas pra mim, é um ato de coragem. Andar na rua sem olhar pra trás a cada dois passos. Cayo segura minha mão o tempo todo, seus dedos entrelaçados nos meus. É nossa arma contra o mundo. No mercado, eu tô escolhendo entre uma panela antiaderente ou uma de pressão comum, e Cayo fica impaciente ao meu lado, fuçando os pacotes de arroz. — Pega as duas, mulher. Eu conserto umas motos a mais esse mês e a gente paga. Tô quase cedendo quando eu vejo. Um carro prata. Vidro fumê. Passando devagar demais no estacionamento, como se estivesse procurando alguém. O motor é um ronco baixo, quase um sussurro ameaçador. Na hora, eu sinto aquele arrepio terrível de déjà-vu. O estômago embrulha, a boca fica seca. Meu corpo inteiro fica tenso, pronto para correr ou lutar. Cayo percebe na hora. Ele aperta minha mão com mais força. — Relaxa. Aqui ninguém encosta mais em você. — A voz dele é firme, mas eu sinto a tensão no braço. Ele também viu. A gente não compra nada. Ele puxa meu braço e a gente sai, deixando o mercado pra trás. Caminhamos rápido, em silêncio, até o apartamento. A sensação de liberdade que eu sentia há uma hora evaporou. O ar pesa de novo. E quando a gente chega em casa, a confirmação está lá. Um papel dobrado, enfiado por baixo da porta. Branco, comum. Mas ele não deveria estar ali. Cayo amassa o bilhete na hora, com um rosnado de raiva, antes que eu possa ler tudo. — Não era nada — ele mente, jogando a bola de papel no lixo. Mas eu vi. A noite cai sobre o apartamento minúsculo como um cobertor pesado. A gente tenta fingir que tá tudo bem. Cayo faz um macarrão com atum – a única coisa que ele sabe fazer direito – e a gente come no colchão no chão, vendo um filme qualquer na TV que a Mari deu. Mas o clima tá pesado. Cada barulho na rua me faz saltar. Cada farol de carro que passa pela janela ilumina o quarto de laranja e minha ansiedade junto. Cayo me puxa pra debaixo do edredom, me encaixando contra o corpo dele como um quebra-cabeça. — Dorme, Ana. Tô aqui. Nada vai te acontecer. Eu finjo dormir. Fico ali, imóvel, escutando a respiração dele ficar mais lenta e profunda. O braço dele está jogado sobre minha cintura, pesado e protetor. É a única coisa que me prende à realidade, que me impede de surtar. Foi então que o celular dele vibra. Um zumbido baixo, sobre a mesinha de cabeceira improvisada com uma caixa de sapato. Eu me congelo. Quem mandaria mensagem pra ele nessa hora? Os amigos dele sabem que a gente tá se mudando, que ele tá exausto. Seria o Léo, marcando algum corre pra manhã? Com cuidado, para não acordá-lo, me viro e pego o celular. A tela ilumina meu rosto no escuro. É um número desconhecido. Não é salvo. Meu dedo hesita por um segundo antes de desbloquear. E a mensagem… Não é um texto. É uma foto. Minha foto. Tirada hoje. No estacionamento do mercado. Eu estou de costas, com aquele vestido florido que comprei na liquidação, minha bolsa de palha no ombro. Cayo está ao meu lado, de perfil, segurando minha mão. A imagem é um pouco tremida, tirada de longe, mas nítida o suficiente para não restar dúvidas. Eles acharam a gente. O chão some debaixo de mim. O ar sai dos meus pulmões num golpe seco. Eu solto o celular como se tivesse queimado. Ele cai no colchão com um baque surdo. Cayo se mexe ao meu lado. — Ana? — a voz dele é rouca de sono. — Que foi? Eu não consigo falar. Não consigo respirar. Só consigo olhar para a tela escura do celular, a imagem daquela foto gravada na minha retina como um fantasma. Eles sabem onde a gente mora. Sabem onde a gente compra pão. Sabem tudo. A liberdade… a tal liberdade que a gente lutou tanto para conquistar… ela nunca foi real. Era só um intervalo. E o intervalo acabou. ADICIONE NA BIBLIOTECA COMENTE VOTE NO BILHETE LUNAR INSTA: @crisfer_autora
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