ANALU
A imagem dele, de pé no corredor do aeroporto, o rosto marcado por lágrimas e uma dor tão brutal que quase me fez desistir de tudo, era a única coisa que eu via, mesmo com os olhos fechados. O avião subia, a pressão mudava, e uma dor surda se instalava no meu peito, como se algo vital tivesse ficado para trás, no chão frio daquele saguão.
Eu estava indo embora.
Realmente indo.
A decisão, tomada com uma frieza que eu mesma não sabia ser capaz de produzir, agora se materializava no rugido dos motores e no vácuo que se formava entre meu coração e meu país de origem.
Eu ia para o Canadá.
Iria estudar, me formar, me tornar a filha exemplar que meus pais sempre sonharam. A patricinha que deixou para trás uma fase rebelde, um deslize de caráter, um amor impossível por um motoboy qualquer.
Ao meu lado, Humberto apertou minha mão. Seu toque era suave, seguro, estável. Tudo que Cayo não era. Ele não disse nada, e eu apenas permiti que as lágrimas que eu finalmente libertava silenciosamente escorressem pelo meu rosto. Quando a primeira caiu no meu queixo, ele a enxugou com o polegar, um gesto de possessividade doce que deveria me confortar, mas que só me fez sentir como um objeto precioso sendo polido após um arranhão.
— Deixa para trás, Analu. — ele sussurrou, sua voz um contraponto calmo ao turbilhão dentro de mim. — Eu vou te fazer esquecer esse cara. Vou te mostrar o que é um homem de verdade.
Eu fechei os olhos, fingindo uma exaustão que não era totalmente fingida.
"Homem de verdade".
A frase ecoou na minha mente.
Humberto era tudo que um "homem de verdade" deveria ser, segundo o dicionário dos meus pais: rico, educado, com futuro garantido na empresa do pai, centrado. Ele não tinha segredos obscuros, não tinha um filho de cinco anos, não tinha as mãos calejadas e uma história que incluía grades.
Mas ele também não me incendiava. Não me fazia sentir viva, perigosamente e gloriosamente viva, com um simples olhar.
Toronto me recebeu com um frio cortante que parecia ter saído diretamente da minha própria alma.
Tudo era novo, imenso, e assustadoramente limpo. Nos primeiros dias, a saudade foi uma entidade física, um peso constante no estômago que tornava a comida sem gosto e as noites intermináveis. Eu sentia falta do calor, do caos, do cheiro da gasolina misturado com o dele... parei esse pensamento antes que ele me levasse a um lugar perigoso.
Humberto foi meu porto seguro.
Ele, que já estava familiarizado com o lugar, me guiava pela universidade, me apresentava às pessoas certas, escolhia os restaurantes certos. Era como viver dentro de um catálogo de vida perfeita. E eu me afundei naquele papel. Me acomodei na personagem da estudante internacional aplicada, da futura esposa do Humberto, a futura nora que a família dele já tratava como parte do clã.
Mas nas horas sozinhas, no silêncio do meu quarto alugado, eu abria o celular. E lá estavam elas.
As mensagens dele.
Elas começaram no dia em que meu avião decolou.
📲 Cayo: Cheguei em casa. O meu coração tá vazio. Tudo me lembra você.
Eu não respondi.
No dia seguinte...
📲 Cayo: Consegui um bico extra na oficina do Seu Roberto. Vou juntar dinheiro. Não sei pra quê ainda. Só sei que preciso me mover ou vou enlouquecer.
E no outro...
📲 Cayo: Zyon perguntou por você de novo. Disse que a moça bonita sumiu. Expliquei que você foi estudar longe. Ele me perguntou se quando você voltar, a gente pode levar ele no parque. Eu disse que sim.
Um nó se formou na minha garganta.
Zyon.
O menino de olhos iguais aos do pai, que me olhava com uma pureza que seu pai havia perdido há muito tempo.
As mensagens continuaram.
Diárias.
Nunca exigindo uma resposta. Nunca pressionando. Eram apenas... registros. Fragmentos da vida dele que ele insistia em me enviar, como se eu ainda fosse parte dela.
📲 Cayo: Minha mãe tá me enchendo o saco pra eu fazer um curso técnico. Ela disse que se eu quiser esperar alguém, preciso ter algo a oferecer. Ela tem razão.
📲 Cayo: Hoje passei na frente daquele motel. A gente lembra de cada lugar, né? Cada esquina dessa cidade tem seu rosto.
📲 Cayo: Tô lendo um livro. Parece idiotice, eu sei. É sobre gramática. Você sempre falava que eu falava errado. Quero falar certo. Por você. Impressionar seus pais...
Eu lia cada uma delas.
De noite, antes de dormir, era meu ritual secreto, meu momento de fraqueza. E com o passar das semanas, algo começou a mudar no tom delas. A desesperança inicial dava lugar a uma determinação crua. Ele não estava apenas sofrendo. Ele estava agindo.
Humberto notou minha distração.
— É ele de novo, não é, Luísa? — perguntou uma noite, durante o jantar.
Sua voz era calma, mas seus olhos, normalmente serenos, estavam escuros.
— É só... ele manda mensagens. Eu não respondo.
— Você deveria bloquear... É tortura para os dois. Você precisa virar a página. Nós estamos construindo algo aqui. Ou pelo menos tentando...
Ele estava certo.
Era a coisa lógica, sensata a se fazer.
Bloquear Cayo.
Apagar o último elo.
Mas eu não conseguia.
Aquelas mensagens eram como um fio de vida me conectando à pessoa que eu era antes – uma pessoa mais corajosa, mais impulsiva, mais viva.
Um mês se passou.
Dois.
O inverno canadense chegou com tudo, cobrindo o mundo de um branco imaculado que me lembrava a fachada perfeita da minha nova vida. Eu me tornei mais independente. Aprendi a cozinhar, a lidar com as burocracias, a andar sozinha pela cidade sem medo.
Amadureci.
As cicatrizes do que vivi com Cayo estavam lá, mas já não doíam tanto. Tinham se tornado uma parte de mim, um lembrete silencioso de que eu era mais forte do que imaginava.
Eu e o Humberto era algo complicado, morar junto, as investidas constantes. Sim, estávamos juntos, mas era estranho e limitado.
E então, uma mensagem em particular me fez parar tudo o que eu estava fazendo.
📲 Cayo: Me matriculei no curso técnico de Mecânica Automotiva. Começa na segunda. A oficina do Seu Roberto vai me ceder às horas da manhã. À noite eu estudo. Vai ser puxado, mas tô feliz. Pela primeira vez em muito tempo, tô olhando pra frente e não só pra trás, pra onde você tá.
Ele não estava mais apenas se arrastando. Ele estava construindo. Um futuro. Um futuro que, pelas entrelinhas, ainda me incluía.
Humberto me encontrou sentada na cama, o celular na mão, as lágrimas silenciosas escorrendo novamente. Desta vez, não eram de saudade ou de dor. Eram de... orgulho? De uma emoção complexa que eu não sabia nomear.
— De novo, Ana Luísa? — ele perguntou, e a paciência na voz dele soava fina.
— Desta vez é diferente, Humberto. Ele... ele está tentando. De verdade. Iniciou um curso técnico.
— Tentando o quê? Ser menos que uma decepção? Analu, pelo amor de Deus. O cara mentiu, escondeu um filho, uma passagem pela prisão! Nada disso muda! Um curso técnico não apaga o passado dele.
— Eu sei! — eu disse, minha voz mais alta do que eu pretendia. — Eu sei que não apaga. Mas mostra que ele não está parado. Mostra que ele está lutando.
— Lutando pelo quê? Por você? Você está aqui! Comigo! Construindo um futuro que ele nunca poderia te dar! — Humberto se levantou, sua compostura rachando. — Eu te trato como uma rainha. Te dou estabilidade, segurança, um amor que não vem acompanhado de caos e drama. E ainda assim, você fica aí, chorando por mensagens de um... um ninguém!
A palavra ecoou no quarto. "Um ninguém". Era assim que eles viam Cayo. Sempre viram. E por um tempo, eu também acreditei nisso.
Mas olhando para aquelas mensagens, para a tenacidade crua e teimosa daquelas palavras, eu não via um ninguém. Eu via um homem. Um homem imperfeito, cheio de erros e um passado pesado, mas que estava se erguendo, se rearrumando, pedaço por pedaço, com uma força de vontade que vinha das entranhas.
E eu me perguntei, não pela primeira vez, mas com uma clareza assustadora: o amor seguro e previsível de Humberto seria suficiente para uma mulher que tinha conhecido o fogo? Seria suficiente para apagar a memória de um homem que, mesmo no fundo do poço, estava cavando com as próprias mãos para sair dele, em parte, por minha causa?
Eu não respondi à mensagem de Cayo. O medo de ser fraca, de ceder e ser sugada de volta para o turbilhão, ainda era maior do que a esperança.
Mas naquela noite, quando desliguei a luz, não foi o rosto de Humberto que vi.
Foi o de Cayo.
Não o homem destroçado do aeroporto, mas o homem dos olhos determinados que surgia entre as linhas das suas mensagens. E pela primeira vez desde que eu tinha ido embora, um minúsculo, quase imperceptível fio de esperança começou a se enredar em volta do meu coração cauteloso.
O passado não estava apagado. E talvez, só talvez, o futuro ainda pudesse ser reescrito.