O Retorno

1289 Words
ANALU A aeronave era uma cápsula de pressão e expectativas. Ao meu lado, Humberto segurava minha mão com uma firmeza que deveria ser tranquilizadora, mas que só me fazia sentir como um objeto precioso sendo transportado para seu destino final. — Finalmente nós vamos noivar, estou tão ansioso, querida — ele disse, seu sorriso perfeito iluminando o rosto simétrico. Eu retribuí o sorriso, um movimento automático e bem ensaiado, antes de desviar o olhar para a janela. Lá embaixo, nuvens de algodão escondiam o oceano, um vazio branco que espelhava o que eu sentia por dentro. É isso mesmo que você quer, Ana Luísa? Se casar com o Humberto, ter uma vida pacata, previsível, sem surpresas? Uma vida sem... A imagem dele surgiu na minha mente sem pedir licença. Cabelos castanhos bagunçados, olhos que misturavam desafio e vulnerabilidade, mãos calejadas que sabiam marcar a minha pele de um jeito que eu nunca consegui esquecer. Uma pontada aguda, uma saudade tão física que foi como um soco no estômago. Levei a mão à cabeça, massageando as têmporas. — Tá com dor de cabeça novamente, amor? — a voz de Humberto era carregada de uma preocupação genuína que me fazia sentir ainda pior. — Você tem que ir num médico no Rio. Isso está ficando frequente. Frequente. Sim. Toda vez que ele tentava se aproximar, que seus lábios procuravam os meus no escuro do quarto, uma "enxaqueca" súbita me salvava. Ou eu simplesmente fingia um sono profundo. Algumas noites, chegava a tomar um analgésico só para dar veracidade à farsa. Meu corpo, que já ardeu por outro, agora se fechava, traiçoeiro, recusando o toque do homem que a sociedade, a família, a lógica, diziam ser o correto. O avião pousou. O Rio nos recebeu com seu calor opressivo e sua beleza brutal. A mansão dos meus pais, a "Mansão Bernardes", era imponente, um monumento ao sucesso do meu pai. Fomos recebidos com abraços efusivos. Minha mãe, sempre impecável, me apertou como se eu tivesse voltado de uma guerra. Meu pai, com seu sorriso largo, já estourava uma garrafa de champanhe. — Este sábado será um dia muito feliz — ele anunciou, erguendo a taça —, mas desde já quero brindar a esse noivado que vai unir nossas famílias! Os cristais se tocaram. Um tinido fino e vazio. Bebi. O líquido borbulhante desceu pela minha garganta, mas não consegui sentir o sabor. Humberto apertou minha mão, seu olhar brilhando de antecipação. Eu era a peça central de um espetáculo que não tinha escrito, apenas aceitado representar. Naquela mesma noite, Humberto me levou para jantar em um restaurante francês na Lagoa, um lugar com toalhas de linho, talheres que pesavam na mão e um silêncio reverente. — Eu estava com uma saudade dessa comida que você nem imagina — ele disse, segurando minha mão por cima da mesa. Mas eu imaginava, sim. Porque ele não parara de falar sobre o prato preferido dele desse lugar durante nossos últimos meses no Canadá. Eu não disse nada. Apenas sorri. Era o que eu tinha feito nos últimos tempos. Sorrir e acenar. Deixar a vida me levar pela correnteza mansa e sem graça de um rio que não tinha mais corredeiras. Nada daquela adrenalina perigosa e viciante que Cayo transmitia com um simples olhar. Na quinta-feira, depois de uma visita cerimonial aos pais de Humberto — outra fortaleza de bons modos e planos de futuro — eu finalmente estava sozinha na mansão. O lugar, que já foi o meu lar, parecia um cenário estranho. Os móveis caros, as obras de arte, os tapetes persas... tudo parecia me observar, me lembrar que eu não pertencia mais àquela realidade. Ou talvez nunca tivesse pertencido. Desci até a cozinha, buscando algo, nem sabia o quê. Um gole de água, talvez. Um resquício da minha antiga vida. Foi quando o interfone tocou. — Deixa que eu atendo, Clara! — gritei para a empregada, que cantarolava enquanto limpava a sala. — Obrigada, minha filha! — ela respondeu, alheia. Caminhei até o painel, a câmera não estava funcionado. Um pressentimento absurdo, um frio na espinha. Apertei o botão. — Oi, quem é? — minha voz soou estranha para meus próprios ouvidos. Do outro lado, um silêncio. E então, a voz. Aquela voz rouca, que cortava como uma lâmina e acariciava como veludo. A voz que ecoava nos meus sonhos mais secretos. — Ana. Sou eu. O Cayo. O coração parou. O mundo desabou e se reconstruiu em um único segundo. Sem pensar, meu dedo tremeu sobre o botão para abrir o portão. Um zumbido. Eu tinha deixado ele entrar. Corri até a porta da frente, minhas pernas fracas. Quando a abri, ele estava lá. Diferente. O mesmo cabelo cobrindo parcialmente os olhos, a mesma barba por fazer que eu conhecia tão bem. Mas vestia um macacão de mecânico, manchado de graxa. As mãos estavam sujas, as unhas marcadas pelo trabalho. E seus olhos... seus olhos brilhavam com uma felicidade crua, uma esperança que me perfurou. Nós nos cumprimentamos com um sorriso tímido, frágil. Quando ele entrou, notei que Clara havia se evaporado da sala, sensível como só os que servem são. — Voltou?! — ele disse, a voz carregada de um assombro feliz. — Só uns dias... — respondi, meus próprios lábios tremendo. — Como sabia que eu estava aqui? Ele riu, um som baixo e familiar. Eu estava com tanta saudade desse riso, que por pouco não ri junto. — Eu vi no perfil do seu amigo engomadinho. Fiquei surpresa. Eu não tinha respondido uma única de suas inúmeras mensagens. Ele não sabia. Não sabia de nada. E eu teria que contar. O peso da verdade caiu sobre meus ombros como uma pedra. — Ele não é meu... amigo. — a frase saiu aos pedaços. Pausei ao ver o olhar dele mudar. A luz nos olhos castanhos se ofuscou por uma nuvem de dúvida. — Eu vim pro Rio pra noivar com o Humberto. Vi a lágrima antes mesmo de perceber que ela havia se formado. Um único filete que escorreu pela poeira do seu rosto, traçando um caminho de dor pura. A tristeza se transformou em incredulidade. — Você tá brincando, né? — a voz dele saiu rouca, quebrada. — Você não queria uma vida regrada, um casamento de aparência, uma vida sem emoção. Você me disse isso tantas vezes, Analu. Para de brincadeira. Ele se aproximou. O cheiro dele me atingiu como uma onda: gasolina, cigarro, suor. O cheiro do perigo. O cheiro do homem que é real. Antes que eu pudesse articular qualquer defesa, qualquer mentira sequer, sua mão suja de graxa agarrou minha cintura, me puxando contra ele. A outra mão se enterrou em meus cabelos loiros, na nuca. Seu corpo era um muro sólido e quente contra o meu. — Você me ama, Analu. Não n**a isso — ele sussurrou, sua testa encostando na minha, seus olhos vasculhando os meus em busca da verdade que eu tanto tentava esconder. — Eu... — tentei falar, tentar me lembrar do noivado, do Humberto, da vida pacata e segura que me esperava. Mas então ele calou minha boca com um beijo. E não foi um beijo de despedida, nem de saudade. Foi um beijo de posse. De verdade. Era áspero, desesperado, salgado de nossas lágrimas misturadas. E em meio aquele turbilhão, enquanto suas mãos sujas me marcavam e seu sabor familiar invadia meus sentidos, eu senti. A centelha. O frio na barriga. A adrenalina correr violentamente nas minhas veias. Era isso. Era sempre isso. O cheiro de gasolina, de cigarro e de perigo. Era a sensação de estar finalmente, completamente viva, mesmo que fosse só por aquele instante, mesmo que fosse para me levar de volta à ruína.
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