CAYO
O cheiro de graxa e gasolina já não era só o cheiro do meu suor, era o cheiro do meu esforço. Da minha conquista. A "Ogro Mecânica", o nome que ela teria achado uma idiotice, mas que eu sabia que a faria sorrir daquele jeito, com o canto dos olhos apertando. A oficina era pequena, só dois boxes, mas era minha. Tinha saído da casa da minha mãe, pegado um empréstimo que me deixará com o nome sujo por uns bons anos, e botado pra funcionar.
O trabalho era o meu refúgio. De dia, metia a mão no motor de moto alheia, consertava o que podia, trocava o que não dava mais. No fim da tarde, — na semana de ficar com meu moleque — pegava o Zyon na escolinha, levava pra minha casa, fazia o jantar, botava ele pra dormir. A rotina era um remédio amargo contra a saudade. Enquanto eu estava me movendo, não pensava nela. Mas aí a noite chegava, o Zyon dormia, e o silêncio da casa vazia era um barulho ensurdecedor.
Era quando eu pegava o celular.
O ritual do i****a — como meus amigos diziam.
📲Eu: Consegui abrir a oficina. Chamei de Ogro Mecânica. Você ia rir. O primeiro mês foi difícil, mas tô me virando. Zyon veio me visitar, falou que já é o dono. Acho que ele tem razão.
📲Eu: Passei na frente do seu condomínio hoje. Lembrei da primeira vez que te deixei lá, você toda nervosa. Parece que foi ontem.
📲 Eu: Tô vendo uns vídeos na internet pra aprender inglês. É uma merda, não entendo nada. Mas você tá aí, né? Num lugar que fala isso.
Mensagem atrás de mensagem.
Lançadas no vácuo, como garrafas ao mar sem esperança de resposta. Um diário digital de um louco para uma mulher que provavelmente tinha bloqueado meu número.
Os caras, meus amigos de sempre, já tinham superado as patricinhas amigas dela.
— Cai dentro, Cayo! Tem um monte de mina por aí! — o Léo sempre falava, mostrando foto de alguma no aplicativo de namoro.
Eu dava uma risada seca e balançava a cabeça. Eles não entendiam. Analu não era uma "mina".
Ela era o padrão.
Ela tinha redefinido o que era uma mulher pra mim. E depois dela, o resto era só sombra.
Até as amigas dela tinham sumido depois que terminaram os rolos com meus amigos. O mundo dela e o meu tinham se separado de vez, como dois continentes depois de um terremoto. Eu era uma lembrança r**m, um capítulo que ela tinha fechado com força, lá no outro lado do continente.
A frustração era um bicho roendo minha entranha. A falta de notícias, a ausência total dela nas redes sociais – ela tinha sumido, de verdade – me deixavam um misto de raiva e desespero. Será que ela tinha mudado tanto? Tanto a ponto de eu não significar mais absolutamente nada? Nem mesmo a lembrança de um erro?
Eu não passava um dia sem pensar nela. No jeito que ela me olhava quando a gente fazia amor, como se eu fosse o homem mais importante do universo. No som da risada dela, abafada no meu pescoço. No modo como ela encarava o mundo com uma coragem que eu admirava, mesmo fingindo que não.
A cabeça dizia pra eu desistir.
Seguir em frente.
Ser o homem novo que eu estava me esforçando para ser, mas para mim mesmo. O coração, aquele filho da p**a teimoso, não largava o osso.
Ela era minha.
Eu sentia isso nas entranhas, com uma certeza primitiva que não se abalava com lógica ou silêncio.
Foi numa dessas noites, vasculhando as redes sociais do Humberto – uma punição que eu mesmo me impunha – que eu vi.
Uma foto.
Ele, de braço dado com ela, num restaurante chique da Zona Sul.
Ela estava sorrindo.
Um sorriso lindo, mas que não chegava aos olhos. Ou era isso que eu queria acreditar.
E o que me deixou paralisado, o sangue gelando nas veias e depois fervendo num segundo, foi a legenda:
"De volta às origens. Nada como estar em casa."
Casa.
Ela estava no Rio.
Ela estava aqui. E eu não sabia.
Ela não tinha me avisado.
Nada.
A raiva foi instantânea, um caldeirão transbordando. Ela estava aqui, respirando o mesmo ar que eu, andando pelas mesmas ruas, e não tinha me dado um sinal. Depois de tudo? Depois das centenas de mensagens, da minha tentativa desesperada de me refazer, de provar que eu era mais do que ela tinha conhecido?
Eu fechei a oficina na hora, mesmo com uma moto pela metade. Pegue a minha e saí queimando pneu.
Não tinha destino certo.
Só precisava me mover, senão eu explodia. Ela estava aqui. O mundo, que tinha ficado cinza e sem graça, de repente estava em cores vibrantes de novo, mas tingidas de fúria e uma esperança perigosa.
Fiquei a noite toda acordado, encarando o teto. Ela estava aqui. E se ela estava aqui, era minha chance.
A última.
A derradeira.
Não podia ser por mensagem.
Não depois de tanto tempo, de tanto silêncio. Ela poderia deletar, ignorar, bloquear. Eu precisava ver ela. Olhar nos olhos dela. Falar as coisas que eu tinha aprimorado na minha cabeça todos esses meses.
No dia seguinte, depois de deixar o Zyon na escola, eu me vi dirigindo para o condomínio dela. O coração batia tão forte que eu achava que ia sair pela boca. As mãos estavam suadas no guidão. Eu era um ogro, um cara bruto, acostumado a resolver as coisas na porrada ou na ignorância. E ali eu estava, tremendo como um garoto, indo enfrentar a minha maior batalha.
Parei a moto do outro lado da rua, olhando para aquelas paredes brancas e altas que sempre me lembraram a distância entre o nosso mundos. Lembrei da primeira vez que eu tinha ido lá buscar ela, o medo que eu tinha sentido, e a sensação de vitória quando ela tinha subido na minha moto, desafiando tudo e todos.
Agora era diferente.
Eu não estava mais buscando a patricinha para um encontro proibido. Eu estava indo atrás da mulher que eu amava, para tentar consertar o que eu tinha quebrado.
Respirei fundo, enchi o peito de um ar que cheirava a medo e determinação. E atravessei a rua.
Cada passo em direção ao portão era uma eternidade. Os seguranças me olharam com desconfiança. Eu devia parecer o que eu era: um intruso no mundo deles.
Parei na frente do interfone. Uma fileira de números e nomes. Encontrei o dela. "Familia Bernardes". O dedo ficou pairando sobre o botão. Um milhão de pensamentos passou pela minha cabeça. E se ela não quisesse me ver? E se o Humberto estivesse lá? E se ela olhasse para mim com aquele mesmo olhar de desprezo do aeroporto?
Aí eu lembrei dos olhos dela no nosso último beijo. Salgados de lágrimas, mas cheios de uma verdade que nenhuma mentira minha tinha conseguido apagar.
Não. Eu não ia desistir.
Apertei o botão.
O som do interfone ecoou como um tiro no silêncio da minha mente. E então, uma voz. A voz que eu ouvia nos meus sonhos, um pouco mais madura, mas inconfundível.
— Oi, quem é?
Fechei os olhos por um segundo, buscando forças. E então falei, minha voz saindo mais rouca do que eu gostaria.
— Ana. Sou eu. O Cayo.
O silêncio do outro lado foi a coisa mais assustadora que eu já vivi. E então, um clique. A porta do portão principal se abriu com um zumbido suave.
Meu coração disparou.
Ela tinha me deixado entrar.
Atravessei o portão, cada passo um misto de terror e esperança, sem saber o que vou encontrar do outro lado, mas sabendo que, finalmente, depois de tanto tempo, eu estava me movendo em direção a ela.