Capítulo 3

1174 Words
Outra coisa que não demorou pra acontecer foi a mudança no relacionamento da Kendra. Ela queria estudar e o Tataco não gostava, tinha ciúmes dela na escola. Ele nunca a proibiu de nada, mas a castigava pelas ações. As agressões verbais eram frequentes e sempre na frente de outras pessoas. Ela participou da formatura do oitavo ano e ele não pôde ir. Por causa da sua posição no tráfico, nunca saía da quebrada, ainda mais pra coisas que não eram de seu interesse. Na época, Treze estava começando a ficar de rolo com a Kyssila, prima da Kendra. Kyssila tinha quinze pra dezesseis an0s. Diferente de sua prima, não tinha corpão, era muito magra, baixinha e branca. Seus cabelos eram cacheados, volumosos e castanhos. Tudo nela era motivo de piada para sua prima invejosa. A mãe de Kyssila era geniosa e muito amorosa, era tipo "amiga", mas gostava das coisas certas. Não a prendia porque não precisava, a menina sempre preferiu ficar lendo e assistindo, não ia pra baile. Morando lá, dificilmente as meninas namorariam bons homens. Na primeira vez que Treze viu ela, foi no aniversário da Kendra, na quadra. Ela estava incomodada porque foi obrigada a ir e ainda teve que servir o pessoal. A maioria dos meninos estava chapado, curtindo. Um dos últimos a chegar foi o Treze. Estava virado do avesso porque teve problemas na boca, arrebentou a mão batendo em dois caras e ainda se deu ao trabalho de ir se arrumar pra curtir a noite. Kyssila estava mexendo com as bebidas, colocando mais gelo. Ele pegou duas cervejas ao lado dela e logo ouviu, ao dar as costas: — Oooo, cara! Eii, tô falando com você, crlh! Daquele jeito nada amigável, ele voltou invocado: — E aí, qual foi, p0rra? Tem que pagar essa merda agora? Ela se aproximou séria, colocou na mão dele uma sacolinha com gelo dentro. — Sua mão tá toda fu.dida! Põe um gelo aí. Há muito tempo ninguém era tão gentil espontaneamente. Foi inesperado como um tapa na cara. Ela saiu andando e foi sentar. Observou ele bebendo, fumando, olhando pra ela a noite toda. Quando ela estava indo embora, ele saiu correndo atrás, foi à caça. — Oooo, vai pá onde? Tá cedo ainda. Qual foi, pô? Num vai me dar uma moral? Ela continuou andando, ignorando. Encontrou um rapaz. Com deboche, Treze continuou indo atrás, foi cumprimentar o cara. — Alaaaaa, tem namorado! Pooo, cara, fiquei bolado, a mina andando sozinha. E aí, beleza? Ela saiu andando emputecida. — Ele é meu irmão seu o****o! Aquilo foi mais agradável de se ouvir que as batidas do pancadão que estava estralando. Os dois começaram a rir, resenhando. Educadamente, ele se apresentou. — Suave, cunhado? Quer uma breja? Ela foi indo sozinha, sem olhar pra trás. O irmão dela disse que precisava acompanhar. Cheio de segundas intenções, o Treze os acompanhou. Estava armado, como sempre, disse que ia escoltar a princesa. Ela falou ao chegar na porta de casa: — Cara, por que tá andando atrás de mim? Vai devolver a porr4 do gelo? Ele riu debochado. — Não, pô, derreteu tudo. Vim agradecer, na moral, valeu. Fica sussa, escolta particular, ainda reclama, que isso. Ingrata! Ela entrou sem dizer nada. Ele nem voltou pra festa, foi dormir pensando nela. No dia seguinte, a festa continuou. Ele estava na ativa vigiando a boca. Quando a Kyssila estava indo, ouviu de cima da escadaria: — Oooo, esquisita, traz uma quentinha pra mim aí, vai, cê num tá fazendo p0rra nenhuma mesmo. Alaaaa, mó comédia, cê é louco, num é muda não, né? — Tô cheio de fome. Todos ficaram rindo dele. Ela só olhou feio e foi pra festa. Meia hora depois, subiu o procurando. Os meninos começaram a tirar sarro, falando que não tinham visto ele. A cada pergunta, as risadas aumentavam. Quando ela se irritou, ele falou, sentado em uma laje, de onde estava observando ela o tempo todo: — Tá na caçada, princesa? Tô aqui te esperando pô. Ela só mostrou as sacolas com aquele mesmo olhar sério invocado. Um dos meninos se aproximou. — Bora lá, vou te mostrar por onde sobe. Ela foi seguindo ele. Ao chegar na laje, recebeu ajuda no final da escada, ele falou a segurando pela mão. — Oi, cê veio memo... Foram sentar na beirada. Ela foi abrindo os potes de sorvete cheios de comida: churrasco, arroz, feijão, maionese. — Não, eu tô lá, é uma miragem, você tá delirando de fome. Toma, come aí logo. Ele ficou olhando, rindo. Tinham duas marmitas, lata de cerveja, de refrigerante, talheres. Almoçaram juntos sem conversar. Ela foi juntando tudo, se preparando pra descer. Ele interrompeu, pegando as sacolas. — Não precisa ir, bora trocar uma ideia? Na moral, senta aí. Vai, Kyssi. Ela sentou, revirando os olhos. — É Kyssila! E você? Quer conversar sobre o quê? Tráfico? F1? Ah, os cu azul? Ele riu debochado, sentando ao lado dela. — Não, né, pô, acha que eu não sei trocar ideia? Sabe, eu gosto de colar aqui à noite, por causa das estrelas. Qualquer dia, se pá, cê pode subir comigo, né não? Ela disse tranquila: — Não. Ele continuou falando sobre os seus lugares preferidos por lá, a fez rir falando m*l da Kendra, imitando. Conversaram por horas. Ela riu muito e o convidou para a formatura. Teve que explicar como eram as aulas e notou que ele era diferente dos outros, porque realmente ouvia tudo e prestava atenção. A Kendra só soube que estavam conversando um dia antes da formatura. Não gostou e ficou pior, porque teve que ir sozinha, sem o namorado e sabendo que ia ter problemas quando voltasse, por causa do ciúmes dele. Treze era do tipo que conversava com todos, quando queria. A família toda delas estava conversando com ele. Na formatura, ele recebeu o inesperado convite pra ser padrinho da Kyssila. Estava bem arrumado, animado, levou flores e uma pulseira de ouro pra ela. Deram o primeiro beijinho no ônibus, voltando embora. Ela tinha muita vergonha, foi um selinho demorado. Ele não estava nem aí pra nada, achou o máximo e em momento algum quis forçar qualquer situação. Ainda gritou para a sogra fechar os olhos. A Kendra passou a formatura toda de cara feia. Quando chegaram na comunidade, pararam no pagode. Ela foi abraçar e beijar o Tataco, ele virou o rosto indiferente. — Demorou mó cota, hein? Achei que nem ia voltar. Vai tirar essa roupa de merda, tá parecendo a p**a da minha mãe. Ela insistiu, próxima. — Esse vestido é novo, não fala assim, mô. Com um sorriso sádico, ele derrubou o copo todo de bebida na cabeça dela, molhando tudo. — Vai tirar essa merda, sua p**a! Tá feia pra kct. Eles estavam no canto, encostados na mesa de bilhar. Perto, o Treze e a Kyssila estavam abraçados, trocando carinho. Deram o primeiro beijo de verdade e tomaram um susto com uma bola de bilhar que quase acertou os dois e quebrou uma janela.
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