As chaves da minha vida

894 Words
Olívia Abri o documento encadernado em couro preto, e meus olhos foram direto para a folha de especificações financeiras. Quando vi o número impresso na linha de remuneração mensal, meu coração errou uma batida. Não eram apenas três vezes mais do que o mercado pagava. Era o suficiente para quitar minhas dívidas em dois meses, pagar o aluguel atrasado e, pela primeira vez na vida, não ter que escolher entre comprar comida ou pagar a conta de luz. O valor era tão absurdo que parecia uma miragem. Diante daqueles dígitos, as páginas seguintes cheias de termos jurídicos complexos e cláusulas miúdas se tornaram apenas borrões. Eu não passei da terceira página. Se eles me pagassem aquilo, o que eu teria que fazer no dia a dia era o de menos. Eu buscaria café na Lua se eles exigissem. Peguei a caneta tinteiro pesada que Ethan estendia na minha direção e destampei-a, pronta para assinar. — Você não vai ler o restante das cláusulas, senhorita Olívia? — a voz de Ethan soou como um aviso, fria e pausada. Ergui os olhos e o encontrei me encarando com uma sobrancelha arqueada. O olhar dele estava fixo na minha mão, que pairava sobre a linha de assinatura. — Há termos de confidencialidade punitivos e condições rígidas de disponibilidade de horários nas últimas páginas — Ethan continuou, a rigidez corporativa emanando de cada palavra. — Tem certeza de que quer colocar seu nome em um documento legal sem saber exatamente quais são todas as nossas condições? Hesitei por um milésimo de segundo, a caneta firme entre meus dedos. Condições. O que eles poderiam exigir de mim que fosse pior do que o que eu já havia vivido? Eles não sabiam de nada sobre mim. Não sabiam que eu estava completamente sozinha no mundo. Não sabiam que o túmulo da minha mãe era a única coisa que me ligava ao passado e que meu pai, no segundo em que completei dezoito anos, jogou minhas roupas em sacos de lixo e me mandou para fora de casa sem olhar para trás. Eu não tinha uma rede de segurança. Não tinha para quem ligar se passasse fome, não tinha uma casa de infância para onde voltar. Minha única opção era seguir em frente. E vencer. A solidão me deu uma coragem desesperada. Aqueles dois homens de terno sob medida podiam ser impiedosos, mas o mundo lá fora era muito mais c***l com uma garota sem dinheiro. Não importava quantos papeis eu teria que preencher, quantos cafés eu teria que servir, ou quantas viagens precisasse suportar. Nada é pior do que as condições que tenho hoje. — Tenho certeza absoluta, senhor King — respondi, forçando um sorriso profissional e firme, sem deixar transparecer o fantasma das minhas lembranças. — Confio que o valor proposto é proporcional às exigências de vocês. Sem dar espaço para mais perguntas, ou ponderações apoiei o papel na mesa e assinei meu nome com firmeza na última linha. Repeti o processo nas outras vias. Eu não podia dar a chance deles desistirem de me contratar. Estava com uma oportunidade bem nas mãos, eu não podia e não iria arriscar sair daqui para voltar ao completo nada. À minha direita, Christian soltou uma risada baixa, um som rouco e arrastado que pareceu vibrar no ar. Ele pegou o documento assinado das minhas mãos, as pontas de seus dedos roçando nas minhas por um instante, enviando um sobressalto pelo meu braço. — Uma garota de decisões rápidas — Christian comentou, fechando a pasta com um estalo e olhando para o irmão com um brilho cúmplice nos olhos escuros. — Eu disse que ela tinha fogo. Ethan recolheu a caneta, sua expressão voltando àquela neutralidade de mármore impenetrável. Ele ajustou os óculos de leitura no rosto e voltou a focar na tela do computador, como se a minha presença ali já estivesse encerrada. — Seja bem-vinda à King Holdings, Olívia. Seu horário começa amanhã, impreterivelmente às sete e meia da manhã. A recepção terá seu crachá de acesso. Não atrase. — Não atrasarei. Obrigada, senhores. Levantei-me, segurando minha bolsa junto ao corpo, e caminhei em direção às portas duplas. Sentia os olhos de ambos queimando nas minhas costas a cada passo, mas não olhei para trás. Só quando as portas do elevador panorâmico se fecharam e o quadragésimo andar desapareceu de vista é que me permiti expirar o ar que parecia preso nos meus pulmões. O elevador despencou em direção ao térreo, e a sensação de tontura combinava perfeitamente com o turbilhão na minha mente. Cruzei o saguão monumental em passos rápidos, quase correndo, e empurrei as portas giratórias de vidro da entrada principal. No momento em que meus pés tocaram a calçada da avenida movimentada, o ar quente e barulhento da rua me atingiu. Respirei fundo, enchendo o peito, sentindo o peso esmagador daquele edifício finalmente se descolar dos meus ombros. O céu acima de mim parecia um pouco menos cinzento. Olhei para o topo do arranha-céu espelhado, tão alto que quase tocava as nuvens. Eu tinha conseguido o emprego. Minhas contas seriam pagas. Mas, no fundo do meu estômago, um pressentimento incômodo me dizia que, ao assinar aquele papel sem ler, eu tinha acabado de entregar as chaves da minha vida para Ethan e Christian King. E eles não pareciam homens que gostavam de devolver o que era deles.
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