O Banco de Trás

1406 Words
Olívia O espelho do meu quarto estava manchado nas bordas, mas o reflexo que ele devolvia parecia pertencer a outra pessoa. A seda azul-noturno deslizava pela minha pele como água, abraçando minhas curvas de um jeito que eu nunca tinha visto antes. Eu nunca havia usado nada que custasse mais do que o meu aluguel. Na verdade, nunca usei nada que cheguesse ao menos perto disso. Não havia dinheiro para salão de beleza já que o primeiro pagamento ainda não tinha ocorrida e de certa forma já estava todo comprometido, então fiz o que pude com o que tinha. Soltei o cabelo que estava preso em um coque firme desde que saí do escritório; os fios caíram pelos meus ombros em ondas naturais e volumosas. Na pele, apliquei o básico: corretivo para disfarçar as noites m*l dormidas, base, pó, um pouco de rímel para destacar os olhos e um batom rosado, quase da cor da minha boca. Eu estava simples, mas, pela primeira vez na vida, me senti bonita. Quase poderosa. Lembrei da mensagem de Ethan no meu celular: “O motorista estará na sua porta às sete em ponto. Não o faça esperar.” Às seis e cinquenta, eu já estava descendo as escadas do meu prédio antigo. No segundo em que coloquei os pés na calçada esburacada, um carro preto, monumental e com vidros totalmente escuros, parou suavemente na minha frente. Meu estômago despencou. Eu esperava um táxi executivo ou um sedã comum, mas aquilo parecia um tanque de guerra blindado e luxuoso. Antes que eu pudesse respirar, a porta traseira se abriu automaticamente com um ruído elétrico quase imperceptível. Meus olhos se arregalaram. Lá dentro, acomodados no couro escuro da cabine executiva onde os bancos ficavam de frente um para o outro, estavam os irmãos King. Ambos vestiam smokings pretos impecáveis. Eles pareciam dois reis entediados em seu trono de metal, até que seus olhos se fixaram em mim. — Suba, Olívia — a voz de Ethan ditou, vinda da penumbra do carro. Fria. Cortante. Engoli em seco, segurei a barra do vestido azul para não tropeçar e entrei. A porta se fechou atrás de mim com um baque surdo, isolando instantaneamente todo o barulho da rua. O silêncio lá dentro era sufocante. Sentei-me no banco oposto ao deles, cruzando as pernas e apertando minhas mãos no colo. Nenhum dos dois desviava o olhar. Christian estava com um braço estendido sobre o encosto do banco, os olhos escuros brilhando de uma forma que fez meu sangue esquentar. Ethan estava com as mãos cruzadas sobre o joelho, a postura rígida de um general, me analisando centímetro por centrimetro. A insegurança tentou me esmagar. Eu estava sem maquiagem cara, em um carro que valia milhões, sendo julgada por dois tiranos. Mas eu me recusei a encolher os ombros. Ergui o queixo e sustentei os olhares. — Boa noite, senhores — disse, quebrando o silêncio. — Não sabia que os donos da empresa faziam o trabalho de transporte da assessoria. Christian soltou uma risada rouca, inclinando-se para a frente, diminuindo a distância entre nós no espaço confinado do carro. — Nós não fazemos, pequena Olívia. Mas abrimos uma exceção para o nosso novo... investimento. E devo dizer, o azul superou todas as minhas expectativas. Você está absolutamente deslumbrante. — Obrigada, senhor Christian — respondi, mantendo a voz firme, apesar do meu coração martelar contra as costelas. — Fiquei surpresa que tenham adivinhado meu tamanho. Queria só alertá-los de que mais cedo haviam me dito que tinha três opções. Acho que o estilista se esqueceu de enviar as outras duas. Desta vez, foi Ethan quem falou, sua voz rígida preenchendo o espaço. — O estilista não se esqueceu, Olívia. Eu ordenei que ele trouxesse apenas o azul. Sei exatamente o que funciona para a imagem da minha empresa. E sei o que funciona em você. — Então o senhor gosta de controlar até o que seus funcionários vestem? — disparei, a audácia vencendo o medo por um segundo. — Isso não estava no resumo das minhas tarefas diárias. Ethan estreitou os olhos cinzentos. Havia uma dureza nele que nunca vacilava, mas notei um lampejo de puro interesse quando respondi à altura. — Está na cláusula de representação de imagem, aquela que você assinou sem ler — Ethan rebateu, a voz desprovida de qualquer humor. — No meu mundo, as aparências são armas. Você está ao nosso lado esta noite, o que significa que cada detalhe em você reflete a King Holdings. Incluindo a sua maquiagem. Senti um nó na garganta. Olhei para Ethan com o peito subindo e descendo rápido. — Desculpa... Minha maquiagem está errada? É o que eu tenho, senhor King. Não tenho dinheiro para maquiadores profissionais. Christian soltou um estalo com a língua, chamando minha atenção. Ele olhou para os meus lábios rosados e depois para os meus olhos, sua expressão suavizando para algo perigosamente sedutor. — O Ethan é um homem de negócios, Olívia, ele só pensa em protocolo. Eu, por outro lado, acho que você fez mágica. Esse batom... — Christian umedeceu os próprios lábios, o olhar fixo na minha boca. — É quase a cor exata dos seus lábios. Deixa você com uma cara de inocente, mas esses olhos... esses olhos dizem que você quer lutar contra nós. E isso me deixa muito instigado. — Eu não quero lutar contra ninguém, senhor Christian — respondi, desviando os olhos dele e focando nas minhas próprias mãos, tentando controlar o arrepio que o comentário dele me causou. — Só quero fazer o meu trabalho e garantir que meu aluguel seja pago. — Você fala muito de dinheiro — Ethan observou, a voz dura, sem espaço para sentimentalismo. — O que me faz pensar que você é ambiciosa. Ou desesperada. E no mercado, o desespero é uma fraqueza que os competidores cheiram de longe. A palavra desesperada doeu. Ela atingiu em cheio a memória do aviso de despejo, da geladeira vazia, do fato de eu não ter uma mãe para me abraçar ou um pai que se importasse se eu estava viva. Meus olhos arderam por um segundo, mas engoli as lágrimas com raiva. Eu não seria patética na frente deles. Olhei direto para Ethan, os olhos faiscando com toda a garra que eu tinha dentro de mim. — O senhor pode chamar de desespero se quiser, senhor King. Eu chamo de necessidade e força de vontade. Eu não tive tudo de mão beijada como os senhores. Cada centavo que ganho é uma vitória. Se isso me torna fraca aos seus olhos, o problema é do seu conceito de fraqueza, não do meu. Um silêncio pesado caiu sobre o carro. Christian ergueu as sobrancelhas, claramente impressionado com a minha coragem de peitar o irmão mais velho. Ethan permaneceu imóvel, o rosto de pedra me encarando por longos segundos que pareceram horas. A tensão era tanta que o ar parecia rarefeito. Eu tinha certeza de que ele mandaria o motorista parar o carro e me jogar na sarjeta ali mesmo. Em vez disso, Ethan inclinou-se ligeiramente para a frente. O terno preto dele pareceu preencher meu campo de visão. — Você tem uma língua afiada para alguém que acabou de começar — Ethan murmurou, a voz mais baixa, mas carregada de uma rigidez sombria. — Mas você está certa em uma coisa. Eu não conheço a necessidade. Mas conheço a determinação. E a sua vai ser testada hoje. Você vai sorrir, vai ser impecável e vai andar entre nós dois sem vacilar um único passo. Entendido? — Entendido — respondi, sem desviar o olhar. Christian sorriu de canto, visivelmente satisfeito com o desenrolar do jogo. Ele se encostou novamente no banco de couro, observando-me com uma promessa silenciosa nos olhos. — Relaxe, pequena Olívia — Christian disse, sua voz rouca quebrando a rigidez que Ethan havia instalado. — O jantar é apenas o começo. Você vai descobrir que estar sob o nosso comando tem as suas... vantagens. O carro começou a desacelerar, indicando que estávamos chegando ao hotel de luxo onde o evento aconteceria. Olhei pela janela, vendo os flashes dos fotógrafos refletirem no vidro escuro. Minhas mãos estavam geladas, e meu coração parecia bater na garganta. Eu era apenas Olívia, a garota inexperiente e sozinha no mundo, prestes a caminhar no tapete vermelho entre os dois homens mais poderosos e possessivos da cidade. E eu sabia que, depois dessa noite, nada mais seria igual.
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