Olívia
O cansaço físico e psicológico de carregar o peso dos olhares de Ethan e Christian por horas estava começando a me sufocar. Minha cabeça latejava e eu precisava de cinco minutos longe daquela eletricidade dupla.
— Senhores, preciso ir ao banheiro — avisei, ajeitando a alça do vestido azul.
Ethan, que estava no meio de uma conversa silenciosa e atenta com um investidor que acabara de se afastar, virou o rosto na minha direção. Seus olhos cinzentos se estreitaram imediatamente em uma linha rígida de desaprovação.
— Você fica aqui, Olívia. O jantar está quase terminando e não quero você andando sozinha por este lugar. — Disse para que somente eu e Christian ouvissem.
Uma onda de puro orgulho e petulância subiu pelo meu peito. Eu podia ser inexperiente, mas não era uma prisioneira. Olhei fixo para a fachada de mármore que era o rosto de Ethan e sustentei o queixo erguido.
— Com todo o respeito, senhor King, eu sou sua assistente, não sua propriedade. E não vou esperar por uma permissão corporativa somente para usar o banheiro.
Christian, que estava levando o copo de uísque aos lábios, parou o gesto no meio do caminho. Um brilho de pura diversão — misturado com um vislumbre perigoso — cruzou seus olhos escuros.
Antes que Ethan pudesse ditar uma resposta gélida, dei as costas com determinação. O movimento fez a seda azul do vestido rodopiar nos meus calcanhares. Deixei os dois tiranos para trás, parados feito estátuas com seus copos de bebida nas mãos, digerindo a minha audácia. É claro que eu sabia que era a única que podia sair perdendo com esses afronto, mas regular minha ida ao banheiro já era demais.
O banheiro feminino da área VIP era um luxo à parte, mas m*l notei o mármore. Lavei as mãos, joguei um pouco de água fria no pescoço para acalmar os nervos e encarei meu reflexo. Você foi corajosa, pensei, sentindo um frio no estômago. Mas amanhã o Ethan vai arrancar a sua cabeça. Cerca de cinco minutos depois sabia que precisava sair.
Ao empurrar as portas pesadas para sair do corredor reservado e voltar ao salão principal, estava tão imersa nos meus pensamentos que não vi o obstáculo à frente. Bati direto contra um peito firme.
— Opa! Calma lá, linda. Não precisa de pressa — uma voz masculina e desconhecida ecoou acima de mim.
Ajustei os olhos e vi um homem jovem, vestindo um terno caro. Ele era inegavelmente bonito, com cabelos alinhados e um sorriso galanteador. Mas meu cérebro, de forma totalmente involuntária, fez uma comparação instantânea: aquele cara nem sequer chegava perto dos dois trogloditas imponentes que eram os meus chefes. Ele parecia um garoto comum perto do poder bruto de Ethan e Christian.
— Peço desculpas, não o vi — respondi, polida e seca, tentando desviar dele.
Mas ele deu um passo lateral, bloqueando meu caminho. Seu olhar desceu pelo decote do meu vestido azul de um jeito que me deixou desconfortável.
— Eu também não vi uma joia como você circulando pela festa hoje. Está acompanhada? Qual é o seu nome?
— Tenho que voltar para a minha mesa, com licença — desconversei no mesmo instante, sentindo meu estômago revirar com a insistência.
Dei um passo para o lado para ignorá-lo, mas, antes que eu pudesse me afastar, a mão do homem disparou e segurou meu braço esquerdo com firmeza.
— Ei, não precisa ser antipática. É só uma conversa...
O choque do toque dele me travou por meio segundo. Abri a boca para mandar ele me largar, mas a fala morreu na minha garganta.
Uma sombra massiva e aterrorizante se projetou sobre nós.
Antes que o homem pudesse entender o que estava acontecendo, Christian King surgiu do nada. A velocidade e a fúria com que ele avançou foram assustadoras. Ele não gritou, não fez alarde, apenas segurou o pulso do homem com uma força que fez os ossos do sujeito estalarem audivelmente.
— Tire a p***a da mão dela. Agora — a voz de Christian não era charmosa ou rouca como de costume. Era o rosnado de um animal predatório defendendo seu território. Seu olhar estava tão sombrio que parecia capaz de arrancar um pedaço do homem vivo.
O desconhecido empalideceu no mesmo segundo, soltando meu braço como se tivesse queimado os dedos.
— C-Christian... eu não sabia que ela estava com você...
— Suma da minha frente antes que eu garanta que a empresa do seu pai seja varrida do mercado até o amanhecer — Christian sibilou, os dentes trincados.
O homem não esperou uma segunda advertência. Ele se virou e praticamente correu em direção à saída do baile.
Meu coração parecia querer quebrar minhas costelas. Fiquei assustada com a violência silenciosa de Christian, mas logo engoli o susto e recuperei a minha postura, massageando de leve o lugar onde o homem havia me segurado.
Christian se virou para mim. A rigidez em seus ombros era assustadora, e o maxilar dele estava tão travado que a pele parecia esticada sobre o osso. Ele me olhou de cima a baixo, procurando algum sinal de machucado, antes de fixar os olhos escuros nos meus.
Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância a zero, e se inclinou.
— Isso é o que acontece quando você resolve desobedecer, pequena Olívia — ele sussurrou, a voz tão baixa e densa que só eu pude ouvir. — Você achou que estava sendo petulante apenas com o Ethan, mas deixou dois homens possessivos e com os nervos à flor da pele vigiando você de longe.
Ele segurou meu queixo com os dedos quentes, forçando-me a olhar para ele. Havia uma obsessão perigosa queimando nas suas pupilas.
— O Ethan vai saber disso. E garanto que ele está consideravelmente menos paciente do que eu esta noite.
Engoli em seco, o calafrio descendo pela minha espinha. Por que toda essa obsessão?
O resto da festa passou como um borrão cinzento. Fui escoltada de volta por Christian e, quando Ethan nos viu chegar, não disse uma única palavra, mas o brilho cinza e tempestuoso em seus olhos ao olhar para o meu braço me disse que ele já havia entendido tudo.
Quando o final do baile finalmente chegou, a tensão entre nós três era quase palpável, uma corda esticada prestes a arrebentar. Caminhamos em silêncio absoluto em direção à saída.
O tapete vermelho, os fotógrafos, o luxo do hotel... nada disso mais importava. Minha mente estava focada apenas no tanque de guerra preto que nos esperava na calçada. Entramos no carro um após o outro, a porta se fechou isolando o mundo exterior, e eu me vi novamente trancada naquele espaço confinado de couro escuro, de frente para os dois homens que pareciam prontos para me devorar.