DOIS ANOS SE PASSARAM

1398 Words
Capitulo 2 Melina Narrando Dois anos se passaram. Depois da morte trágica da minha mãe eu tentava sobreviver como dava. Trabalho o dia inteiro na padaria da esquina e estudo à noite. Volto pra casa e encontro o mesmo inferno de sempre: meu irmão se acabando nas drogas e meu padrasto arrastando o resto da dignidade da família para o buraco n***o. O barraco parecia menor a cada dia, e o silêncio, mais pesado. O tempo não trouxe paz. Trouxe dívidas. Meu irmão começou a dever no morro. Depois, meu padrasto. Primeiro era fiado de pó, depois de pedra, depois de favor. Quando Gino soube, mandou recado: ou paga, ou alguém paga com a vida. tentei correr atrás, juntar o pouco que ganhava. Mas o dinheiro de uma menina da padaria nunca seria o bastante. Uma noite, eu voltava do trabalho, encontrei Gino encostado no beco, cigarro no canto da boca, olhar de quem não precisava levantar a voz pra ser ouvido. — Melina, né? — ele perguntou, soprando a fumaça devagar. — Sou eu... — respondi, com a voz trêmula. — Tua família tá devendo. E aqui no morro, tu sabe, dívida não some. — Eu sei... mas eu não tenho dinheiro, seu Gino. Ele sorriu de canto, mas o sorriso não tinha humor. — O chefe tá lá dentro faz tempo. E as vontades dele anda muito cara. As meninas que vão visitar ele saem com o bolso cheio. Ele fez uma pausa, olhando pra ela de cima a baixo. — Tu entende onde quero chegar, né? Seu irmão tá na dívida junto com seu padrasto, o chefe quer carne nova, e você é a bola da vez, se não arrumar pelo menos a metade da dívida deles em duas semanas, no fim do mês você vai fazer a visita íntima do patrão. Senti o chão sumir. Gino não precisou dizer mais nada. A proposta estava feita — ou melhor, a ordem. Nos dias seguintes, andei muda. Não dormia, não comia direito, só pensava no que me esperava. Não era o tipo de vida que sonhei, mas no Fubá, ninguém escolhe o próprio destino. Às vezes, ele chega pela mão de um homem armado. Chegou o fim do mês, eu não arrumei nem a metade da metade do que meu irmão e meu padrasto devem. Chegou a ordem de Gino através de um vapor. No sábado se prepara, vão passar aqui pra te pegar e levar para o patrão. Fiquei parada no portão, o vento gelado batendo no rosto, o coração quase saindo pela boca. Eu sabia o que aquilo queria dizer. No morro, quando o recado vem de Gino, ninguém pergunta nada — só obedece. Mas eu sabia o motivo, e era o pior possível. A visita íntima não era escolha. Era dívida. Dívida de droga que meu irmão e meu padrasto fizeram com o dinheiro que não tinham, apostando no vício, vendendo o pouco que restava em casa. Agora, quem ia pagar era eu. E o pior? A dívida era com Jimi Bravo, o dono de tudo, o homem que mandava até de dentro da cadeia. O mesmo homem que foi preso na noite em que minha mãe morreu — baleada no fogo cruzado. Eu lembro como se fosse agora: os tiros, os gritos, o sangue dela escorrendo pela sala . E eu ali, parada, sem conseguir mover um músculo. Depois daquele dia, minha vida virou pó. Dois anos se passaram desde que ele foi preso, e ainda assim o nome dele ecoava em todo canto do morro. Tinha gente que dizia que ele era monstro. Outros juravam que era justo, que só fazia o que precisava. Eu não sabia o que pensar. Só sabia que agora o meu destino tava nas mãos dele. Entrei pro barraco com o corpo tremendo. Fechei a porta, me escorei na parede e deslizei até o chão. Chorei baixinho, mordendo os lábios pra ninguém ouvir. A raiva e o medo brigavam dentro de mim. Raiva deles — do meu padrasto e do meu irmão — por me colocarem nessa situação. E medo do que me esperava no sábado. Olhei em volta e vi o barraco simples, as paredes descascadas, o cheiro de feijão de ontem ainda no ar. Tudo parecia apertado demais. Eu me sentia presa antes mesmo de pisar na cadeia. Tentei respirar fundo e me levantar. Tinha que começar a preparar a comida. Gino tinha sido claro no recado: “O patrão gosta de coisa bem feita. Não inventa de levar porcaria.”Ele passou no meu serviço e deu mil reais. Na cozinha, comecei a separar o que comprei. Feijão, arroz, farofa, umas carnes que eu comprei no açougue. Eu tremia tanto que quase deixei o prato cair. Enquanto picava o alho, o pensamento não parava: por que eu? Lavei o rosto pra tentar me acalmar, mas o reflexo no espelho da pia só me fez sentir pior. Meu cabelo preto batendo na b***a, a pele morena reluzindo no vapor quente da cozinha. Eu era baixinha, s***s médios, corpo que chamava atenção sem eu querer. A beleza que todo mundo elogiava agora parecia uma maldição. Era ela que me botava no caminho daquele homem. O som do feijão fervendo me fez voltar à realidade. O cheiro invadiu o barraco, mas não me deu fome. Fiz tudo do jeito que mandaram: arroz soltinho, farofa temperada, feijoada grossa. E ainda o doce de leite que aprendi com minha mãe . Enquanto mexia na panela, as lágrimas desciam. Cada movimento era uma lembrança dela, do jeito que ria, do jeito que me abraçava e dizia que eu merecia o mundo. Quando o sol começou a descer, o celular vibrou. Era Gino. “Não esquece da comida. E se arruma direito. O patrão quer você apresentável.” Meu estômago revirou. Quase vomitei. Eu sabia o que ele queria dizer com “apresentável”. Engoli o choro e limpei o rosto com as costas da mão. Coloquei a comida nas marmitas novas que comprei, embrulhei tudo num pano limpo e deixei em cima da mesa. A cozinha tava quente, abafada, o cheiro pesado no ar. Saí dali e fui pro quarto. Sentei na cama e fiquei olhando pro teto. Pensava na minha mãe, no que ela diria se visse isso. Ela sempre tentou me proteger, sempre se metia entre o meu padrasto e eu quando ele chegava bêbado e agressivo. Agora ela não tava mais aqui. E o mesmo homem que destruiu a vida dela foi quem empurrou a minha pra esse abismo. Lá fora, ouvi uns meninos soltando pipa e rindo. A vida deles seguia leve, sem saber que a minha tava acabando aos poucos. Deitei de lado, abraçando o travesseiro. O coração apertava, pesado, doendo. Fechei os olhos e pensei em Jimi Bravo. Nunca vi ele pessoalmente, só nas fotos antigas do jornal — homem grande, tatuado, olhar frio. Falam que ele ficou desse jeito depois que perdeu sua mãe e sua irmã mortas pelo seu padrasto. Dizem que o amor virou ódio, e o ódio virou poder. Mas por que eu? Por que eu tinha que pagar por erros que não cometi? Por que ele queria me ver? O tempo foi passando, e a noite caiu. O morro começou a silenciar. Só se ouvia o barulho distante de motos e o eco dos rádios dos soldados na viela. A lua entrava pela janela e iluminava meu rosto. Fiquei pensando no sábado. Na cadeia. No toque frio da revista. No portão se fechando atrás de mim. No olhar dele me medindo de cima a baixo. Só de imaginar, minhas mãos suavam. Levantei e fui até o espelho. — Coragem, Melina... — sussurrei pra mim mesma, com a voz embargada. — Você vai aguentar, como sempre aguentou. Mas no fundo eu sabia: nada me preparava pra isso. No sábado, quando o carro de Gino parasse na porta, eu deixaria de ser a menina que sobreviveu à bala perdida. Passaria a ser só mais uma que o morro engoliu. Encostei a testa no vidro da janela e fiquei olhando pro alto. Uma estrela solitária brilhava lá no céu, pequena, mas insistente. Era a única coisa bonita naquela noite. Fechei os olhos e deixei uma lágrima cair. Amanhã, o medo viria junto com o sol. E eu ainda nem sabia se, depois dessa visita, eu voltaria a ser a mesma.
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