Capitulo 2
Melina Narrando
Dois anos se passaram.
Depois da morte trágica da minha mãe eu tentava sobreviver como dava. Trabalho o dia inteiro na padaria da esquina e estudo à noite. Volto pra casa e encontro o mesmo inferno de sempre: meu irmão se acabando nas drogas e meu padrasto arrastando o resto da dignidade da família para o buraco n***o.
O barraco parecia menor a cada dia, e o silêncio, mais pesado.
O tempo não trouxe paz. Trouxe dívidas.
Meu irmão começou a dever no morro. Depois, meu padrasto. Primeiro era fiado de pó, depois de pedra, depois de favor. Quando Gino soube, mandou recado: ou paga, ou alguém paga com a vida.
tentei correr atrás, juntar o pouco que ganhava. Mas o dinheiro de uma menina da padaria nunca seria o bastante. Uma noite, eu voltava do trabalho, encontrei Gino encostado no beco, cigarro no canto da boca, olhar de quem não precisava levantar a voz pra ser ouvido.
— Melina, né? — ele perguntou, soprando a fumaça devagar.
— Sou eu... — respondi, com a voz trêmula.
— Tua família tá devendo. E aqui no morro, tu sabe, dívida não some.
— Eu sei... mas eu não tenho dinheiro, seu Gino.
Ele sorriu de canto, mas o sorriso não tinha humor.
— O chefe tá lá dentro faz tempo. E as vontades dele anda muito cara. As meninas que vão visitar ele saem com o bolso cheio.
Ele fez uma pausa, olhando pra ela de cima a baixo. — Tu entende onde quero chegar, né?
Seu irmão tá na dívida junto com seu padrasto, o chefe quer carne nova, e você é a bola da vez, se não arrumar pelo menos a metade da dívida deles em duas semanas, no fim do mês você vai fazer a visita íntima do patrão.
Senti o chão sumir.
Gino não precisou dizer mais nada. A proposta estava feita — ou melhor, a ordem.
Nos dias seguintes, andei muda. Não dormia, não comia direito, só pensava no que me esperava. Não era o tipo de vida que sonhei, mas no Fubá, ninguém escolhe o próprio destino. Às vezes, ele chega pela mão de um homem armado.
Chegou o fim do mês, eu não arrumei nem a metade da metade do que meu irmão e meu padrasto devem.
Chegou a ordem de Gino através de um vapor.
No sábado se prepara, vão passar aqui pra te pegar e levar para o patrão.
Fiquei parada no portão, o vento gelado batendo no rosto, o coração quase saindo pela boca. Eu sabia o que aquilo queria dizer. No morro, quando o recado vem de Gino, ninguém pergunta nada — só obedece. Mas eu sabia o motivo, e era o pior possível.
A visita íntima não era escolha. Era dívida.
Dívida de droga que meu irmão e meu padrasto fizeram com o dinheiro que não tinham, apostando no vício, vendendo o pouco que restava em casa. Agora, quem ia pagar era eu.
E o pior? A dívida era com Jimi Bravo, o dono de tudo, o homem que mandava até de dentro da cadeia. O mesmo homem que foi preso na noite em que minha mãe morreu — baleada no fogo cruzado. Eu lembro como se fosse agora: os tiros, os gritos, o sangue dela escorrendo pela sala . E eu ali, parada, sem conseguir mover um músculo. Depois daquele dia, minha vida virou pó.
Dois anos se passaram desde que ele foi preso, e ainda assim o nome dele ecoava em todo canto do morro. Tinha gente que dizia que ele era monstro. Outros juravam que era justo, que só fazia o que precisava. Eu não sabia o que pensar. Só sabia que agora o meu destino tava nas mãos dele.
Entrei pro barraco com o corpo tremendo. Fechei a porta, me escorei na parede e deslizei até o chão. Chorei baixinho, mordendo os lábios pra ninguém ouvir. A raiva e o medo brigavam dentro de mim. Raiva deles — do meu padrasto e do meu irmão — por me colocarem nessa situação. E medo do que me esperava no sábado.
Olhei em volta e vi o barraco simples, as paredes descascadas, o cheiro de feijão de ontem ainda no ar. Tudo parecia apertado demais. Eu me sentia presa antes mesmo de pisar na cadeia.
Tentei respirar fundo e me levantar. Tinha que começar a preparar a comida. Gino tinha sido claro no recado:
“O patrão gosta de coisa bem feita. Não inventa de levar porcaria.”Ele passou no meu serviço e deu mil reais.
Na cozinha, comecei a separar o que comprei. Feijão, arroz, farofa, umas carnes que eu comprei no açougue. Eu tremia tanto que quase deixei o prato cair. Enquanto picava o alho, o pensamento não parava: por que eu?
Lavei o rosto pra tentar me acalmar, mas o reflexo no espelho da pia só me fez sentir pior.
Meu cabelo preto batendo na b***a, a pele morena reluzindo no vapor quente da cozinha. Eu era baixinha, s***s médios, corpo que chamava atenção sem eu querer. A beleza que todo mundo elogiava agora parecia uma maldição. Era ela que me botava no caminho daquele homem.
O som do feijão fervendo me fez voltar à realidade. O cheiro invadiu o barraco, mas não me deu fome. Fiz tudo do jeito que mandaram: arroz soltinho, farofa temperada, feijoada grossa. E ainda o doce de leite que aprendi com minha mãe . Enquanto mexia na panela, as lágrimas desciam. Cada movimento era uma lembrança dela, do jeito que ria, do jeito que me abraçava e dizia que eu merecia o mundo.
Quando o sol começou a descer, o celular vibrou. Era Gino.
“Não esquece da comida. E se arruma direito. O patrão quer você apresentável.”
Meu estômago revirou. Quase vomitei. Eu sabia o que ele queria dizer com “apresentável”. Engoli o choro e limpei o rosto com as costas da mão.
Coloquei a comida nas marmitas novas que comprei, embrulhei tudo num pano limpo e deixei em cima da mesa. A cozinha tava quente, abafada, o cheiro pesado no ar. Saí dali e fui pro quarto.
Sentei na cama e fiquei olhando pro teto. Pensava na minha mãe, no que ela diria se visse isso. Ela sempre tentou me proteger, sempre se metia entre o meu padrasto e eu quando ele chegava bêbado e agressivo. Agora ela não tava mais aqui. E o mesmo homem que destruiu a vida dela foi quem empurrou a minha pra esse abismo.
Lá fora, ouvi uns meninos soltando pipa e rindo. A vida deles seguia leve, sem saber que a minha tava acabando aos poucos. Deitei de lado, abraçando o travesseiro. O coração apertava, pesado, doendo.
Fechei os olhos e pensei em Jimi Bravo. Nunca vi ele pessoalmente, só nas fotos antigas do jornal — homem grande, tatuado, olhar frio. Falam que ele ficou desse jeito depois que perdeu sua mãe e sua irmã mortas pelo seu padrasto. Dizem que o amor virou ódio, e o ódio virou poder.
Mas por que eu? Por que eu tinha que pagar por erros que não cometi? Por que ele queria me ver?
O tempo foi passando, e a noite caiu. O morro começou a silenciar. Só se ouvia o barulho distante de motos e o eco dos rádios dos soldados na viela. A lua entrava pela janela e iluminava meu rosto.
Fiquei pensando no sábado. Na cadeia. No toque frio da revista. No portão se fechando atrás de mim. No olhar dele me medindo de cima a baixo.
Só de imaginar, minhas mãos suavam.
Levantei e fui até o espelho.
— Coragem, Melina... — sussurrei pra mim mesma, com a voz embargada. — Você vai aguentar, como sempre aguentou.
Mas no fundo eu sabia: nada me preparava pra isso.
No sábado, quando o carro de Gino parasse na porta, eu deixaria de ser a menina que sobreviveu à bala perdida. Passaria a ser só mais uma que o morro engoliu.
Encostei a testa no vidro da janela e fiquei olhando pro alto. Uma estrela solitária brilhava lá no céu, pequena, mas insistente. Era a única coisa bonita naquela noite.
Fechei os olhos e deixei uma lágrima cair.
Amanhã, o medo viria junto com o sol.
E eu ainda nem sabia se, depois dessa visita, eu voltaria a ser a mesma.