MELINA VIRA ALVO

1230 Words
Capítulo 6 Narrativa de Melina   Ainda não estou entendendo o que aconteceu. Há três dias eu era uma moça trabalhando na padaria e estudando à noite. Hoje, eu sou uma mulher que visita bandido na cadeia pra ter i********e… e agora virei propriedade dele. Infelizmente, mataram meu irmão. Não sei por quê, mas não parecia que estavam invadindo o morro por retaliação, e sim por cobrança. Mas eu ainda vou descobrir o motivo da morte do meu irmão.   O Jimi tá pensando o quê? Que sou propriedade dele? Já paguei a dívida. Agora ele que se vire com as amantes dele. Amanhã de manhã vou sair pra procurar serviço. Não vou viver às custas de nenhum meliante. Ele é o dono do morro, tem a mulher que quiser. Ele não precisa de mim.   Nunca transei com ninguém na minha vida. Pensei que fosse odiar t*****r com o Jimi. Infelizmente… foi bom demais. Aquilo que senti não sai da minha cabeça. Ainda estou sentindo dor; minha “florzinha” tá ardendo muito. Desde o enterro do meu irmão, não vejo meu padrasto. Melhor assim. Pelo menos ele não tá por perto. Já vi o jeito que ele olha pra mim.   Vou dormir. Amanhã tenho que procurar serviço. Não quero saber o que o Gino vai dizer pro Jimi. Não tô nem aí. É brincadeira… ele já teve o que queria: a minha pureza. Agora vou seguir em frente. Não gostei nada do jeito que ele falou comigo, como se eu fosse propriedade dele. Eu não sou. Não gosto que mandem em mim. Já perdi tudo na vida… não vou perder minha dignidade. Isso nunca.   (…)   Uma semana se passou e Jimi não me procurou, não me ligou. Tudo bem pra mim. Tá ótimo. Fui procurar serviço. As pessoas nem esperavam eu terminar de falar e já fechavam a porta na minha cara. Aqui no morro sei que não vou arrumar nada. Vou pro asfalto ver se lá consigo alguma coisa.   Descendo o morro, senti que tinha alguém me olhando. Olhei pra todos os lados e não vi nada, só um garoto de uns quinze anos soltando pipa num lugar inusitado: no beco. Geralmente esses jovens soltam pipa em cima das lajes, mas tudo bem. Continuei procurando serviço.   Cheguei no asfalto. Várias lojas com placas de “precisa-se”. Entrei numa grande loja de marca. Perguntei se estavam precisando de ajudante. Um senhor e mais quatro meninas me atenderam. Ele sorriu e disse:   — Estamos sim. Quer fazer um teste?   Claro que aceitei na hora. Troquei de roupa por um uniforme usado e fui à luta. Começou a chegar freguês, e eu mostrando as roupas, pegando o que eles precisavam. As pessoas começaram a gostar do meu serviço. Vendi uns quatro conjuntos caríssimos e o dono se agradou de mim. Ele falou sério:   — Amanhã quero você aqui às oito da manhã abrindo a loja.   E jogou uma chave na minha mão.   Pensei: “Como assim? Tanta gente aqui e eu que vou abrir a loja? Ele nem me conhece…”   E ele completou:   — Senti que você é uma menina de confiança.   Quando eu estava saindo, um assalto aconteceu. Entraram na loja do seu Antônio e levaram todas as roupas, o dinheiro do caixa… fizeram uma limpa e saíram correndo, entrando num carro grande. Seu Antônio ficou assustado. Eu fiquei parada sem entender nada. Todos estavam deitados no chão. Eu fiquei estatelada na porta. Eles me derrubaram na saída. Levantei e olhei pro seu Antônio:   — O que aconteceu? Que que foi isso?   Ele respondeu:   — Um assalto… isso nunca aconteceu aqui. Minha loja nunca foi assaltada. Meu Deus… sinto muito, menina. Não vou poder mais te contratar. Olha o prejuízo. Vou ter que fechar por uma semana pra repor todo o estoque. Levaram todo o dinheiro. Ainda tem cheques… sei que eles não vão descontar, mas não importa. Infelizmente, não vou poder te contratar.   Fiquei triste. Saí dali de cabeça baixa, sentei na praça, comprei um pacote de pipoca e fiquei ali comendo e pensando: “Por que isso acontece comigo?”   De repente, o Gino sentou ao meu lado e disse:   — Você tá pensando que o chefe tá brincando contigo? Não tá. Ele não tá brincando. Ele disse pra você não procurar serviço, e você tá procurando. Dessa vez foi só um assalto. Da próxima, alguém vai morrer. Só tô te avisando. Sóbe pro morro agora.   Olhei pra ele sem acreditar no que tava ouvindo.   — Que isso, Gino? Eu sempre trabalhei. Nunca dependi de ninguém. Agora seu chefe quer me sustentar pra mandar em mim? Eu não vou deixar que mandem em mim. Não vou ficar mais nesse morro.   Do nada, parou um carro. Gino me pegou, me jogou dentro e falou:   — Cala a boca.   Me levou pro alto do morro, me jogou dentro de uma casa e disse:   — A partir de hoje você mora aí. Se sair, vai prestar conta com o patrão. Ele vai ligar pra você e vai falar contigo. Daí você não sai. Só sai se ele der ordem.   Ele saiu fechando a porta por fora. Levantei, soquei a porta e pedi:   — Não faz isso, Gino! Não posso ficar presa aqui! Eu preciso trabalhar, preciso comer! Minhas roupas nem estão aqui!   Ele olhou, fechou o portão e foi embora.   Pela janela, vi dois seguranças no portão. A casa tinha uma sala enorme, dois ambientes, cozinha toda mobiliada, uma escada que subia pros três quartos. Um deles era suíte, com banheiro todo equipado. No quintal tinha churrasqueira, piscina… tudo que alguém pediria a Deus. Mas eu não queria isso. Eu quero minha vida do jeito que era, e não é isso que tá acontecendo. Tô sendo obrigada a ficar nesse lugar contra a minha vontade.   Comecei a chorar. Chorei muito. Dormi.   Acordei, devia ser umas dez da noite. Desci as escadas e vi muitas bolsas espalhadas na sala, e na cozinha várias sacolas. Fui olhar: eram compras. Muita carne, tudo que uma mulher precisa pra cozinhar. Na sala, roupas, sapatos, perfumes. Fiquei ali, parada olhando aquilo.   Subi, tomei banho e deitei na cama. O telefone tocou. Era uma chamada de vídeo do Jimi. Olhei as horas: meia-noite e quinze. Atendi:   — O que significa isso? Por que você tá fazendo isso comigo? Mandou o Gino me prender nessa casa e disse que eu não posso sair. Por quê? Me deixa sair!   Ele me olhou com aquele olhar gelado e disse:   — Eu já te falei que você é minha. Você só sai se eu mandar. Você não tem ordem pra sair. Uma senhora vai aí fazer comida e arrumar a casa pra você.   — Eu não preciso que ninguém faça nada pra mim! Eu sei cozinhar!   Ele sorriu e falou:   — Vou mandar a manicure aí pra fazer suas unhas e seu cabelo. Não corta o cabelo. Se cortar, vai ver comigo. Daqui a dois meses, a Lili canta aí… e nós vamos ver quem manda. Fiquei apavorada, falei com ele se você me trancar vou fazer greve de fome, ele ficou sério e disse; tudo bem guarda as carnes no congelador e pode voltar pra sua casa. Não vou te obrigar a ficar presa, pode descer. Saí da casa desci a rua passei na boca entreguei as chaves pro Gino e fui pra minha casa. É onde vou ficar.
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