AS COISAS COMEÇARAM A MUDAR

1255 Words
Capítulo 4 Narrado por Melina Chegamos na contenção. Chamei o Gino, pedi para ele me deixar ali, que eu iria na padaria explicar por que não fui trabalhar hoje. Gino olhou para minha cara e disse: — Não precisa. Eu já falei com o dono da padaria. Você já foi dispensada. Não trabalha mais com eles. Olhei para a cara daquele homem com nojo. — Com que direito você fez isso? Você é muito entrão! Ele pegou no meu braço, apertou e disse: — Recebi ordens do patrão. A partir de hoje você vai ter que receber ordens minhas e tá acabado. Vou te levar até sua casa. Arrancou com o carro antes mesmo de eu fechar a porta. Quando cheguei em casa, meu irmão estava sentado no sofá, e meu padrasto na mesa comendo o que restou do jumbo que levei para o Jimi bravo. Eles olharam para mim sabendo o que tinha acontecido. Olhei para eles e subi devagar as escadas, porque eu não estava aguentando andar direito. Sei bem que o Gino percebeu na hora que eu saí do carro. Eu quase não conseguia andar. Agora é esperar pra ver o que vai acontecer. Tomei um banho e deitei. Não vi nem a hora em que eu dormi. Acordei às 6h30 para ir ao colégio. Quando eu estava saindo pelo portão, tinham dois seguranças em pé. — O seu Gino vai te buscar. Nós vamos te levar. Sobe aí. Abriram a porta do carro. Eu entrei. Me levaram até a porta da escola. Entrei pelos portões. As meninas ficaram me olhando e perguntaram: — Por que os seguranças do Gino vieram te trazer? Não respondi nada. Passei por elas e entrei na sala. Assisti às aulas, muitos me olhando, mas eu fingindo que não via. O sinal bateu e eu saí. Quando cheguei no portão, lá estava o demônio do Gino me esperando, rindo aquele sorriso falso. — Entra aí — foi o que ele disse. Eu, ainda muito dolorida, sentei devagar. Ele me entregou uma pílula do dia seguinte, uma pomada e um remédio anti-inflamatório pra dor. Sorrindo, ele falou: — O patrão mandou te entregar. Vou te levar direto pra casa. Vou comprar alguma coisa pra você comer, porque pelo que eu vi, não tem nada na sua casa. Eu já estive lá. Não tinha ninguém, mexi nos armários e não tinha nada. Seu irmão e seu padrasto estavam saindo do morro, só quero ver o que eles estão arrumando. Já bati um fio pro Jimmy explicando a ele o que eu vi. Você fica dentro de casa. Vou buscar uma marmitinha pra você. Espera só um minuto. Eu fiquei apavorada quando ele disse que meu irmão havia saído do morro e que já tinha falado com o Jimmy. Tenho medo desse homem. Quando meu irmão chegar, vou falar pra ele ir embora desse morro. Ele e meu padrasto podem me deixar aqui, porque se eu sair agora, eu sei que vou ser caçada, e não vai ser nada bom. Não demorou muito e a quentinha chegou. O rapaz veio entregar, me olhou de cima a baixo, deu aquele sorriso de canto e entregou. Olhei pro portão: tinham dois seguranças sentados na frente da minha casa. Me assustei, mas entrei e fui comer. Meu irmão ficou olhando. — Quem mandou essa comida? Olhei para ele bem sério: — Quem você acha que mandou essa comida? Porque vocês comeram toda a comida que eu deixei. Meu padrasto levantou cambaleante, olhou pra mim e perguntou: — De quem foi aquela comida gostosa que eu comi aí? Pra que você fez essa comida? Passou o dia todo na rua. Sentei no sofá, passei a mão no rosto, botei a quentinha na mesinha de centro e falei: — Você não sabe mesmo o que tá acontecendo? Tem certeza que não sabem? Eu fui pagar a dívida de vocês. Fui indicada pelo dono do morro pra fazer visita íntima na cadeia. Eu só tenho 19 anos, uma vida pela frente, estudando pra ser alguém, e vocês simplesmente me aprontam essa. Tive que ir fazer o que eu nunca pensei fazer pra salvar a pele de vocês e vocês não serem mortos. Meu irmão ficou triste na hora. Já meu padrasto levantou, deu um tapa na mesa e veio pro meu lado com ódio: — Você tem que fazer isso mesmo! Você é bonitinha, dá pro gasto. Isso aí! Tem que ser lanchinho de bandido mesmo! Meu irmão olhou pra ele e gritou: — Não fala assim com a minha irmã! Ela se sacrificou por nós e você, m*l-agradecido, ainda diz que ela tem que ser lanchinho? Por favor, pai, não faz isso com a minha irmã, não. Ela não merece isso. Eu vou tentar ser melhor... O r**m é que eu não consigo. Olhei para meu irmão com pena. — A mamãe deixou um fundo pra você. Tá na hora de ir buscar no banco. Por que você não compra uma casinha fora daqui? Vai viver sua vida. Pelo amor de Deus, sai desse morro. Você vai acabar morrendo e me destruindo também. De repente, fogos estouraram no céu. Era invasão. Me assustei, corri para o banheiro e me abaixei atrás do vaso. Um tiroteio muito forte, gritos, barulho de bomba. Escutava carros derrubando tudo. Podia ser o Caveirão, não sei, só sei que foi demais. Duas horas depois os tiros cessaram e os fogos estouraram de novo, dizendo que a invasão tinha acabado. Quando saí do banheiro, meu padrasto estava atrás da poltrona, deitado, e meu irmão caído na cozinha com um tiro nas costas. Corri até ele gritando: — Lucas! Lucas! Ele não levantava. Quando virei, saiu aquele monte de sangue da boca dele. Estava morto. Olhei para o meu padrasto: — Como foi isso? O que aconteceu? Meu padrasto respondeu: — Entrou um homem fardado. Ele correu, e o homem atirou dizendo que ele era bandido. Tentei dizer que não era, mas não quiseram saber. Ainda me bateu. Olha meu braço, tá quebrado. Saí correndo, gritando por ajuda. Vieram me ajudar. Pegaram meu irmão nas costas e levaram pro postinho, mas não deu mais jeito. Ele estava morto. Fiquei ali caída em cima do meu irmão, naquele posto de saúde, chorando e gritando. Senti uma mão pegando meu braço: era o Gino. — Calma. Vai dar tudo certo. Ele me tirou de lá e mandou que o vapor resolvesse as coisas do enterro. Meu padrasto estava engessando o braço. Ele me perguntou: — O que aconteceu? Respondi: — Não sei. Corri pro banheiro e me escondi lá. Quando saí, meu irmão tava caído com um tiro nas costas que furou o pulmão e o coração. E meu padrasto tava atrás do sofá com o braço quebrado. Não sei por que entraram na minha casa, nem saída pra fuga tem. Não entendi... Mas agora meu irmão tá morto. O que eu vou fazer da minha vida? No outro dia foi o enterro do meu irmão. Sentei numa das catacumbas e fiquei de longe vendo baixarem o caixão dele ao lado do túmulo da minha mãe. Chorei mais ainda porque agora eu não tinha mais ninguém. Meu padrasto não é nada meu. Vou sair daquela casa, porque, pelo que eu sei, foi minha mãe que comprou. Mas ela era casada com ele, e claro que ele não vai sair. Então eu vou. Meu vínculo ali acabou. Saí andando, muito triste. Gino falou pra mim: — Mais tarde o Jimmi vai ligar pra você. Ok.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD