Capítulo 7
Narrativa de Gino
Falta pouco para o patrão sair e eu não tô aguentando mais segurar essa barra. Ele tá preocupado com a mina lá. Já tem quinze dias que ela esteve lá e, depois disso, ele não chamou mais — totalmente ao contrário do que ele disse que faria. Não digo nada, fico na minha, só que ele parece estar obcecado. Vive perguntando por ela, liga pra mim tarde da noite dizendo que ela não quer atender o telefone.
Já arrumei a casa pra ela, mobíliei a casa, botei as coisas tudo lá… e ela não quer ir. Vou ter que pegar ela à força e levar pra botar na casa. Ela é muito arredia, não aceita ser mandada por ninguém. Espero que as marmitas não fiquem jogando piada. Mas amanhã vou ter que ir na casa dela dizer que sábado ela vai fazer a visita pro patrão. Sei que ela não vai gostar, mas é isso que tem que ser.
Nem dormi direito. Tô deitado aqui, o dia amanhecendo, nervoso porque o chefe pediu pra eu passar o recado pra ela. Sei que ela vai pesar na minha cabeça, mas eu vou dizer mesmo.
Desci as escadas, fui na cozinha, tomei um copo d’água, subi, fiz minha higiene e tomei um banho gelado mesmo, porque no Rio de Janeiro é um sol pra cada um, ninguém merece. Terminei o banho, desci e fui pra rua.
Cheguei na boca e tava todo mundo deitado, sentado, curtindo, fumando um beck, escutando música. Dei um grito e todos se assustaram.
— Vocês tão pensando o quê? Que é bagunça isso aqui? Isso aqui é casa da mãe Joana, né? Não! Vamos arrumar isso aí. Eu quero tudo limpo. Pode retirar esses papéis do chão, deixa a sala limpa. Ei, Grilo, vai lavar o chão e o banheiro. Lava os dois: o daqui de fora e o de dentro. Quero ver isso brilhando!
Entrei pra minha sala e sentei. Tô bolado mesmo. Agora vou tomar fôlego pra ir lá falar com a novinha. Se ela não quiser abraçar a ideia, vou ter que ser grosso com ela. Vou ligar pro chefe.
Ligação — ON
— Fala, chefe… aí, vou dar o recado pra novinha. Só não sei se ela vai abraçar a ideia. Se ela não abraçar, que que eu faço?
— Ô, Gino… você é o sub do morro. Então é o seguinte: o que você disser, acredito. O que tu fizer tá feito. Se ela não quiser vir, traz à força. Mas eu quero meu jumbo. Não manda ela fazer o jumbo, não. Pega a Dona Rosa pra fazer o jumbo. E quatro da manhã você passa lá na casa dela e pega ela. Só diz pra ela te esperar arrumada, só isso e acabou. Quero dar uma ideia nela, é papo sério. Não vou deixar ela fazer a gente de bobo. Desliga aí porque os guardas tão vindo e eu não quero dar mole. Falta pouco tempo pra nós sair daqui. A Lili vai cantar antes do que você imagina.
Ligação — OFF
Peguei minha Glock, a chave da moto e desci pra casa da novinha. Chegando lá, ela tava saindo assustada, e mais atrás vinha o padrasto.
Olhei pra cara dele e perguntei:
— Tá acontecendo alguma coisa?
Ele respondeu rápido:
— N-não, não tá acontecendo nada, não, é… Melina.
Senti que esse “Melina” saiu apertado demais.
Chamei ela na esquina e perguntei:
— Que tá acontecendo?
Ela olhou pra mim com os olhos marejados e disse:
— Não aguento mais o meu padrasto. Ele me persegue dia e noite. Não tenho dormido direito… passo a maioria das noites sentada, segurando o guarda-roupa atrás da porta. Não sei mais se, quando ele conseguir passar pela porta, ele vai fazer alguma besteira comigo… e eu não quero isso.
Olhei pra mina, bolado, e perguntei:
— Tô vendo mesmo… ele tá te assediando?
Ela confirmou com a cabeça.
— Pô, mina… o Jimmi te deu uma casa mobiliada, dinheiro na conta, e você rejeitou. Pra isso aí que tá acontecendo não acontecer. Mas você é muito cabeça dura, garota. Pô… deixa de pegar a ajuda pra ficar nessa aí, sofrendo. Tu tem almoçado? Tem jantado?
Ela respondeu que não. Disse que a maioria das vezes janta na escola.
Olhei bem sério e disse:
— Amanhã vou passar aqui às quatro da manhã pra te pegar. Fica arrumada me esperando. O Jimmi quer te ver amanhã, sem desculpa. Ele quer falar com você olho no olho, nada desse negócio de telefone. Já que você não atende — e quando atende dá as respostas erradas —, agora vai ter que ser resolvido comigo. Amanhã, quatro e meia da manhã, eu tô aqui de carro pra te pegar e pronto, acabou.
Vou subir. Se você quiser, a chave tá aqui, ó. É da sua casa. É só me ligar avisando que você não tá mais aqui, tá na SUA casa. Você tem sua casa, você não precisa disso aqui, não. Tá passando por isso porque você quer.
Fui.
Fui pra casa puto da vida com a mina. Vou ter que ligar pro chefe. Vou ter que fazer isso, senão ele vai ficar bolado comigo.
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Ligação — ON
— Aí, chefe… aconteceu um negócio estranho. Vou te passar a fita porque eu sei que ela não vai te falar nada. Na hora que eu fui lá levar o recado que o senhor mandou, encontrei ela saindo correndo de dentro de casa e aquele p*u no cu atrás dela. Quando ele conseguiu pegar ela pelo cabelo, deu de cara comigo e ficou todo sem graça. Perguntei se tava acontecendo alguma coisa. Ele respondeu na mesma hora que não — e ainda fez ela dizer que não. Que que eu faço, chefe?
— Aí, Gino… pode levar pro micro-ondas sem conversa. E o que você falou com ela?
— Falei pra ela ir pra casa que o senhor deu. Outro dia ela não quis nem botar a mão na chave, hoje ela já pegou na chave. Falei pra ela, se ela for, é pra me ligar avisando pra eu passar lá na casa e não aqui embaixo.
— Tudo bem. Quando ela chegar aqui amanhã, vou conversar com ela muito sério.
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Almocei, mandei uma quentinha pra mina e um refrigerante. Passei de longe e vi ela comendo sentada na porta. Ela ainda não subiu pra casa que o patrão deu, mas vai ter que subir.
Não vou pegar o coroa agora porque eu soube que ele saiu, mas eu vou pegar ele.
— Aí, mina… amanhã, quatro e meia, aqui ou lá na tua casa?
Ela me olhou sério e respondeu:
— Aqui.
Falei pra ela:
— Tudo bem.
E subi pra minha goma.
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No outro dia, acordei com uma dor de cabeça. Liguei pra mina. Ela já tava acordada e disse que tava esperando no portão, arrumada.
Passei na casa da Dona Rosa e peguei o jumbo. Desci, peguei ela no portão.
Olhei pros braços dela: estava roxo. As costas arranhadas, os olhos meio arroxeados. Tentei fingir que não vi, mas tive que falar:
— Que foi isso aí em você, garota?
Ela baixou a cabeça e começou a chorar.
— Por que você não subiu como eu te disse? Tu tá com a chave na mão, cara. O que que ele te fez?
— Ele tentou me estuprar… eu lutei com ele e ele me bateu e me machucou.
— Tu sabe que ele vai morrer, né?
Ela deu de ombros:
— Por mim… se ele viver, bem. Se morrer também… amém.
Fiquei apreensivo.
— Vou te esperar na saída. Espero que você fale a verdade pro Jimmi. Não esconde nada dele, entendeu?
Ela balançou a cabeça afirmando, saiu do carro e foi direto pra fila