— Mas, sobrinha? Quando foi que você chegou? Por que não avisou a mim, ou, a sua tia? — Afonso perguntava, completamente desnorteado por ter sido pego em flagrante.
Antônia olhava fazendo caras e bocas, a secretária passou por ela e deu um bom dia, mas falou tão baixo que a morena nem sequer conseguiu escutar.
— O que foi que disse, minha filha? — perguntou olhando para a mulher à sua frente.
— Eu disse, bom dia, senhorita! — respondeu de cabeça abaixada.
— Ah, sim. Tudo bem. Agora, por favor, saia, pois eu preciso conversar com o meu tio. — falou, sentando-se na poltrona ao lado da mesa executiva. — Vai, menina!
A secretária deixou os dois e saiu pela porta, sem saber onde pôr a cara. Seu comportamento estava tão suspeito que os colegas da moça perceberam que algo não estava certo. Afonso, por sua vez, não fazia a menor ideia de que Antônia apareceria na empresa tão cedo quando retornasse. Mas fora o flagra, ele estava tranquilo, pois certamente a sobrinha havia ido até ali para pedir algum dinheiro.
— Antônia, minha querida. Por que se deu ao trabalho de vir até aqui? Era só me mandar a quantia que precisa e eu a teria providenciado o mais depressa possível. — comentou. — Vamos, de quanto você precisa?
— Antônia olhou para o tio e mais do que isso, ela o encarou. O que deixou o executivo um tanto intrigado com sua atitude.
— Tônia. Se não veio aqui pedir dinheiro, o que veio fazer, então? — perguntou um tanto preocupado. Embora tenha ficado longe por tanto tempo, Afonso conhecia aquele olhar, pois era o mesmo de seu falecido irmão.
A jovem levantou-se devagar e caminhou até a janela, de onde observou a praia de Copa Cabana. Depois ela voltou-se para ele, puxando assunto.
— Sabe, titio... eu sei que o senhor deve estar surpreso com a minha visita tão cedo, mas eu me lembro do meu pai dizendo Deus ajuda a quem cedo madruga e foi exatamente por isso que cheguei tão cedo! — falou quanto segurava uma caneta.
— Já sei, você veio até que por que quer aprender a trabalhar. Acertei? — perguntou batendo uma mão na outra, com certo entusiasmo. — Mas não seja por isso. Eu mesmo irei providenciar uma sala onde você poderá ficar e aprender tudo direitinho!
Antônia suspirou e mais uma vez, olhou para a Afonso com certa frieza. O homem continuava sem entender aonde a sobrinha queria chegar, então ela resolveu falar logo de uma vez.
— Meu tio, eu vou ser direta. Eu não vim aqui para a prender, eu vim aqui para cumprir uma promessa que fiz ao meu pai, antes de sair do Brasil. — Antônia, sendo objetiva.
— E eu poderia saber que promessa é essa? — perguntou, pausadamente. — Não que seja da minha conta, mas...
— O senhor pode sim, meu tio. Aliás, todos nessa empresa vão saber, mas como o senhor é meu parente próximo, já de antemão eu irei adiantar para o senhor. Eu voltei ao Brasil para assumir as empresas que fazem parte do Grupo Olivares!
A notícia pegou Afonso de surpresa. Ele jamais imaginou que Antônia tivesse esse tipo de plano em mente, já que sua sobrinha sempre apresentou um comportamento fútil pelas redes sociais, aparentando ser uma dondoca mimada que só pensava em festas e roupas caras. Mas aquele olhar na sua frente, dizia outra coisa. Foi como se Afonso estivesse diante do irmão, só que na versão feminina. O executivo chamou a jovem para conversar um pouco mais e tentou justificar que a Olivares era um grupo empresarial bastante difícil de comandar, mas as palavras de seu tio saiam por um ouvido e entravam pelo outro.
— Entendo a sua preocupação, tio Afonso, mas eu garanto ao senhor que estou mais do que preparada para assumir essa função. — respondeu deixando bem claro, que não iria mudar de ideia. — Eu imagino que o senhor deve ter pensado que a minha vida em Londres foi apenas festas e futilidades, mas eu digo que não. Tanto que me formei em primeiro lugar na faculdade de Administração de Oxford. Acredito que o senhor não deva ter prestado muita atenção nesse detalhe, não é mesmo?
Afonso respirou fundo antes de responder.
— Não! — encendo a boca de ar. — Eu fiquei feliz quando soube de sua formatura, mas francamente eu achei que tivesse cursado moda! — concluiu, com uma risada sem graça.
— Então já dá para notar que o senhor não me leva a sério, mas eu vou provar que estou à altura de comandar a Olivares, assim como prometi ao meu pai! — concluiu ela. — Agora, será que o senhor poderia me mostrar a empresa?
— Ah, sim! Vamos lá!
Afonso, gentilmente abriu a porta para sua sobrinha passar, demonstrando um gesto cavalheiro. Eles andaram por várias alas do prédio e Antônia pôde ver o tamanho do império que seu pai havia deixado. Como era muito pequena, ela não tinha noção de quão grande era a fortuna de sua família. Na ala executiva da empresa, dezenas de funcionários levantaram-se de suas baias para receber o chefe maior. Afonso apresentou Antônia e todos ficaram admirados com a beleza e elegância da herdeira. Um dos funcionários que ainda datava do tempo em que Marcondes comandava tudo aquilo ali, aproximou-se da jovem.
— Antônia. Como você cresceu. — disse o homem. Afonso olhou para ele com os olhos apertados, sinal de não ter gostado da aproximação. — Não se lembra de mim? O Lico. Que te dava bombons sempre que vinha aqui com o seu pai?
A moça olhou com mais atenção e finalmente reconheceu o velho amigo.
— Seu Lico, meu Deus! — exclamou, dando-lhe um abraço em seguida. — Como é bom ver o senhor, seu Lico! — falou afastando-se. — E como está a dona Sandra? Lembro-me do quanto ela era boa.
— Infelizmente, a Sandra já não está mais conosco. — respondeu um tanto tristonho.
— Como assim, não está mais conosco? Não em diga que...
— Isso mesmo, Toninha. Sandra não conseguiu vencer um câncer no cérebro e partiu já fazem dois anos. — concluiu.
— Ah, seu Lico. Eu sinto muito. — ela falava, enquanto os demais funcionários observavam o quanto aquela bela e elegante jovem, parecia ser uma pessoa tão simples. — Mas eu fico feliz por ter continuado aqui na nossa empresa, vai ser muito bom ter um rosto amigo por perto.
— A senhora vai trabalhar aqui? — o homem perguntou. Afonso novamente se mostra contra a conversa, porém não se opõe.
— Sim! — respondeu. — Prometi ao meu pai que tomaria de conta da empresa e a tornaria império.
Depois de conversarem mais um pouco, Antônia despediu-se de Lico e seguiu fazendo sua visita. Assim que terminou ela se despediu do tio, alegando estar um pouco cansada.
— Eu peço ao senhor que marque uma reunião com o conselho de acionistas, eu quero comunicar que irei comandar a Olivares daqui por diante. — comunicou, mas antes de sair, seu tio a chama de volta.
— Antônia. Você tem certeza disso? Os acionistas podem não concordarem com essa sua decisão. E ainda mais assim tão repentinamente! — advertiu Afonso.
— Vão empinar a carroça no início, eu já havia previa. Mas não se preocupe, sei mais a respeito dessa empresa do que eles imaginam. — respondeu, bastante confiante. — E eu espero que o senhor fique do meu lado, meu tio, pois isso será muito bom para todos nós!
— Eu sempre estarei do seu lado, minha querida!
Antônia a sala da presidência da empresa, deixando o seu tio para trás. Assim que a sobrinha saiu, Afonso teve um verdadeiro ataque de fúria, o que chamou a atenção de sua secretária e amante. A mulher entrou e viu o executivo atirando vasos de flores nas paredes e jogando peças ada decoração, chão.
— Mas o que houve, meu querido? Por que está tão nervoso desse jeito? — ela falou, amedrontada pela agressividade do homem à sua frente.
— Antônia! — vociferou, furioso. — Quem aquela desqualificada pensa que é para chegar aqui me dando ordens?
— Mas o que ela fez? — perguntou.
— O que ela fez? O que ela fez? — ele berrou, fazendo a Juliana, sua secretária e amante, dar dois passos para trás. — Ela veio para tomar o meu lugar. Justamente eu, que trabalhei todos esses anos enquanto ela se divertia em Londres, para manter a empresa do pai dela, pé. Mas isso não vai ficar só assim, não. Antônia não sabe com quem está lidando!
***
Inspirada, Antônia passava os olhos por onde passava, nada lhe escapava a visão. Das cerca de cinquenta pessoas que trabalhavam naquele prédio, pelo menos trinta ela conseguiu guardar os rostos. Era muito esperta e sabia o que queria, além de possuir uma percepção invejável e isso foi o que a fez ficar no topo durante a faculdade. Tais qualidades a tornavam um prodígio, uma promessa para o ramo empresarial, chegando a receber propostas milionárias no Reino Unido, mas ela tinha a sua própria arena para lutar. Entrou no elevador e o mesmo ascensorista da primeira, operou o condutor até o térreo. Ela agradeceu e caminhou novamente até o balcão.
— Vem cá?! — ela chamando a recepcionista. — Poderia por favor, dizer ao técnico responsável pelos computadores da empresa, para ir até a minha casa e instalar o meu?
— Posso, sim, senhorita Olivares. — respondeu a jovem. Dessa vez ela estava mais alerta, já que estava diante da dona de tudo aquilo. — É o Januário. Eu vou avisar a ele. Mas a senhora está residindo onde, mesmo? — perguntou. — É para o rapaz não errar.
— Fica no Jardim Boulevard, é a área das mansões da cidade, ele deve saber. O número é 325 e a Rua é a Ernesto Couto. — respondeu sem pausa.
Enquanto a recepcionista anotava o endereço, um homem jovem aproximou-se do balcão e pediu uma informação, enquanto Antônia procurava algo em sua bolsa.
— Por o favor, Priscila. Poderia informar ao Dr. Olivares que eu já cheguei? Fiquei de trazer uns papéis que ele me pediu ontem.
O rapaz falou. Então ele olhou para a mulher de cabelos negros ao seu lado e a reconheceu.
— Antônia?
— O que? O senhor me conhece? — perguntou, arqueando a sobrancelha.
— Antônia, não lembra de mim? Você cresceu, mas não mudou nada. — respondeu dando um sorriso.
Antônia ficou sem saber quem era aquele homem com quase dois metros de altura na sua frente. Nem de longe ela conseguia recordar aquele rapaz de cabelos louro natural, encaracolados que lhe encobria a nuca. Mas algo naquele sorriso lhe pareceu familiar.
— Tônia, sou, o Alessandro filho da Betina, lembra?
A morena deu um sorriso, ela sequer podia acreditar que estava diante de seu melhor amigo na infância, não resistiu e o abraçou.
— Alessandro, meu Deus, eu não acredito. — falou depois de se afastar. — Nunca que eu iria imaginar que você tivesse ficado tão... enorme. — concluiu estendendo os braços para o rapaz.
— É, é muito bom te rever. Quando foi que chegou?
— Cheguei ontem à noite — ela respondeu com um sorriso de orelha a orelha.
— Nossa, que bom. Não vejo a hora da gente poder conversar e colocar o papo em dia. — Alessandro falou sentindo uma euforia dentro de si, ele e Antônia eram muito ligados quando criança.
Quando a conversa estava no seu auge, Priscila informou que Afonso aguardava por Alessandro na sala do vice-presidente. Antônia não entendeu. Mas ela também não sabia que seu tio havia feito um verdadeiro estrago na sala principal por sua causa.
— Foi bom te ver, Tônia!
Ele falou, dando um beijo em sua bochecha.
— Igualmente, Alessandro. Espero que a gente possa conversa em breve.
Antônia terminou de combinar tudo com Priscila e seguiu para o carro onde o motorista a aguardava. A recepcionista ficou desconfiada de que algo poderia existir entre a executiva e o rapaz da recepção, ela sorriu enquanto a morena se afastava.
***
Assim que cegou em casa, Afonso foi direto para a adega, abriu uma garrafa de uísque e começou a beber um copo atrás do outro. Ele não conseguia tirar as apalavras de Antônia da cabeça e cada vez que pensava, sua ira só aumentava. Até que foi surpreendido pela companhia de Ana.
— Posso saber por que está bebendo descontrolado desse jeito? Eu não te vejo nervoso assim há muito tempo. — comentou a mulher, sentando-se no sofá.
Metade das luzes da sala estavam desligadas, proporcionando um clima meio sombrio como uma penumbra.
— É por que você não sabe o que aconteceu hoje. — respondeu, irritado. — Nossa sobrinha Antônia voltou.
— Mas isso é lá motivo para você estar assim? — perguntou sem entender.
— Acontece é que ela não só voltou, Ana. Ela voltou para reclamar a herança do pai!
Ana levantou-se depressa:
— O que?
— Sim! — confirmou. — E ainda me desafiou, dizendo estar mais do preparada para assumir todo o grupo Olivares. Mas ela não perde por esperar. — falou olhando a esmo. — Se Antônia não desistir dessa ideia maluca, ela vai aprender da ir forma que o mundo dos negócios é como uma selva. Só os fortes sobrevivem!