Desventuras

2906 Words
Março de 2004. A família Olivares, uma pioneira no ramo da hotelaria e uma das mais ricas famílias do país, havia tomado seu jatinho particular para passar o fim de semana numa fazenda pertencente a um grane amigo. No avião estavam o chefe da Família, Marcondes Olivares, sua esposa Sônia e seus dois filhos, Jacinto Olivares o mais velho e Antônia Vicentina Olivares, a mais nova. Além do piloto e do copiloto. Eles estavam contentes, pois iriam comemorar o nono aniversário de sua caçula com uma festa típica rural, mas o que aquelas pessoas não sabiam era que uma tragédia estava prestes a acontecer. —O que está vendo, comandante? — o copiloto perguntou ansioso. —Não sei dizer! Mas por algum motivo os controles parecem estar falhando. — respondeu com certa apreensão. — Avise aos passageiros que coloquem os cintos, acho que vamos ter que retornar para a cidade! O copiloto assentiu e pegou o comunicador avisando à família que colocassem os cintos. Marcondes se levantou e foi em direção da cabine a fim d saber do comandante o motivo de tal sugestão. O mesmo pediu ao chefe da família que retornasse, pois o avião começou a perder altitude e que por conta disso deveria retornar ao aeroporto. Marcondes voltou para o seu lugar, mas não contou o ocorrido para sua família a punho de não os amedrontar, porém não conseguia esconder sua preocupação. Os pilotos então começaram a emitir o alerta de que teriam de retornar, eles avisaram a respeito dos problemas à torre de controle que deram sinal verde para que pudessem concluírem a manobra de retorno, mas o avião nunca chegou a fazê-lo. ♦♦♦ Apesar de ser pequena, a família Olivares não era de tudo tão pequena assim. Isso por que Marcondes tinha um irmão mais novo, Afonso Olivares e este se encontrava na piscina da sua casa de praia com a esposa Ana e a filha Carolina quando o empregado veio lhe trazer o telefone. —Me desculpe, senhor Olivares, mas é urgente. —falou o jovem servente com o semblante triste. —O que aconteceu? Foi algo com a empresa? — perguntou colocando o telefone no ouvido. Afonso balançava a cabeça sinalizando entender o que estava sendo dito do outro lado da linha. Em seguida ele entrega o telefone ao rapaz que pergunta se estava tudo bem, mas o homem nada respondeu, ele apenas fechou os olhos, franziu os lábios e depois de vestir o roupão, entrou para dentro da mansão. Afonso sempre foi o mais desajustado dos irmãos, ainda em vida, seu paia Paolo Olivares repartiu a rica herança da família entre os dois depois que sua esposa e mãe dos varões, Constanza Di Carmelo, faleceu. Afonso não soube muito bem lidar com o dinheiro e gastou quase tudo em viagens de luxo, caprichos de sua ainda jovem esposa e também na jogatina. Ele chegou a beirar a falência total não fosse o irmão mais velho o ter socorrido colocando-o como um dos diretores da matriz de sua companhia. Ao chegar no interior foi direto para o quarto onde Ana escolhia um vestido para a festa de logo mais. Ela correu para junto do marido com um estiloso vestido azul de um estilista famoso, o azul, como sempre disse Afonso, combinava com os olhos da bela mulher. Ela que era dona de um corpo escultural, cabelos loiros e ligeiramente ondulados, lábios carnudos e olhos azuis. A mulher mostrou o vestido caríssimo com um sorriso de orelha a orelha. O que ela tinha de bonita, tinha de fútil. —Gostou? É para a festa dos Andrade logo mais à noite! — falou dando uma volta em torno de si mesma como se estivesse dançando com o próprio vestido. — É muito bonito e combina com você, mas nós não vamos na festa! — disse o homem com expressão séria. —Como é? Eu me aprontei para esse evento desde que recebi o convite! E olha que tem um tempinho e você vem me dizer que não vamos?! Me dê só um motivo para eu não ir. Um só! — respondeu de forma histérica, aliás, essa era sua marca maior. —Quer parar de pensar apenas nessas suas diversões fúteis, Ana?! — exclamou o marido. — Se eu digo que nós não vamos é por que tem um motivo grave. Marcondes! — Afonso encheu o diafragma e depois completou. — O avião deles caiu quando tentava fazer uma manobra e retornar para a cidade depois de apresentar falhas. Toda família morreu! Ana ficou paralisada diante da notícia e Afonso não aguentou segurar as lágrimas e desabou a chorar. Ele lamentava não ter estado com o irmão mais velho antes de sua partida e também se perguntava como iria dar a notícia ao seu velho pai. Ana o consolava do jeito que podia, mas o marido parecia não suportar tamanha dor. Eles arrumaram as coisas naquela mesma tarde e retornaram para o Rio de Janeiro. ♦♦♦ Afonso cuidava para fazer o reconhecimento dos corpos de seus parentes, mas a liberação ainda não havia sido feita, pois, um m****o da família ainda não tinha sido localizado, era a pequena Antônia. —Ela deve ter sido arremessada para fora do avião no momento do impacto. Não quero ser desagradável, senhor Olivares, mas o velório de todos eles deverão ser com os caixões lacrados. — Proferiu o chefe das buscas arrancando um suspiro de Afonso. ♦♦♦ Enquanto os preparativos seguiam, um dos bombeiros que procurava o corpo da menina, já estava quase para retornar, pois o Sol estava quase se pondo. No escuro era mais difícil de se encontrar alguém naquele matagal, mas quando ele caminhava por uma trilha pouco utilizada ouviu algo como uma pessoa gemendo. —O que será que tem ali? Seria um animal? — o rapaz se perguntava enquanto abria o mato com o auxílio de um facão. Seu coração acelerava à medida com que se aproximava do alvo. Ele foi caminhando e a ansiedade já tomava conta de seu corpo e quando chegou no ponto exato, levou um susto. —Meu Deus! Isso só pode ter sido um milagre! Imediatamente o bombeiro pegou o rádio comunicador e reportou ao restante da equipe que havia encontrado um sobrevivente do desastre. Em uma questão de minutos o local estava repleto de homens do corpo de bombeiros e um helicóptero já sobrevoava a área para a remoção de Antônia. A pesar da felicidade de encontrar um sobrevivente de um acidente tão horrível, a menina se encontrava bastante ferida e seu estado era considerado grave. Não demorou muito para que Afonso ficasse sabendo que a sobrinha havia sobrevivido, mas o advogado da família de Marcondes estranhou o fato do o irmãos mais novo parecer não ter ficado muito contente com a notícia. ♦♦♦ O enterro ocorreu no dia seguinte, Paolo chorou muito ao se despedir do filho, durante o discurso feito por ele, o patriarca falou da dor que sentia por ter que enterrar o próprio filho sendo que deveria ser o contrário. Muitos amigos compareceram, mas a pequena Antônia não se fez presente já que teve de ser levada para a UTI por conta de seus graves ferimentos. —Não sei se estou errado, mas é bom ficarmos de olho em Antônia no hospital. — baixinho comentou Amaury Galaretto, advogado de Marcondes, com sua esposa Priscila. —Por que? Acha que Afonso não está em condições de cuidar da sobrinha? — indagou Priscila sem entender. —Não é isso! É que eu tive a leve impressão de que Afonso não gostou do fato da sobrinha ter sobrevivido. Priscila advertiu a Amaury que não comentasse aquilo nem de brincadeira, que devido o momento de tensão ele deva ter visto algo que não era o que parecia. O advogado deu um sorriso moderado e confirmou que a esposa tinha razão, mas em seus pensamentos a certeza era outra. “Eu quero estar enganado, mas vou prestar atenção em você, Afonso Olivares”! pensava Amaury enquanto olhava para Afonso jogando flores nas covas. ♦♦♦ Um ano se passou e Antônia se recuperou do acidente. Mas ela sofreu bastante durante o processo de recuperação. Foram seis meses na cadeira de rodas devido ter quebrado um braço e uma perna, várias sessões de terapia para tratar o trauma psicológico, além de perder um ano letivo por causa da desmotivação e tristeza. Vendo a situação da neta, Paolo decidiu que ela iria morar com ele, já que Ana não quis se responsabilizar pela sobrinha. Afonso passou a administrar as empresas do irmão e ele faria isso até que Antônia atingisse a maioridade e tomasse conta de sua herança. Mas aos exatos um ano desde o acidente que levou seus pais e irmãos, Antônia sofreu mais um golpe da vida. Paolo faleceu devido a complicações de um câncer na próstata. —O que eu vou fazer agora, Betinha? Eu estou sozinha! — lamentava a pobre menina nos braços da babá. —Não, meu amor. Você não está sozinha, você tem a mim, minha flor! — a babá tentava consolar a garota sendo que ela mesma lutava com todas as forças para não chorar junto. —Você tem seu tio Afonso, sua prima e logo virá outro priminho! —Mas eles não ligam pra mim, Betinha. — A menina falou olhando para a mulher. — A tia Ana me odeia e meu tio Afonso só pensa no dinheiro do meu pai. Eu só tenho você, Betinha, por favor, não me deixa! Novamente ela se agarra à babá e esta promete que nunca a deixaria e, que se possível fosse, levaria ela para morar junto de sua família, assim faria companhia para seu filho Alessandro. Antônia ficou mais calma ao ouvir aquelas doces palavras, já que gostava muito do menino e de Betinha também. De tanto chorar a pequena foi vencida pelo sono e acabou adormecendo, sendo levada para seu quanto pela babá. —Pobre criança. Tão pequena e já tendo uma batalha tão grande como essa para enfrentar. — dizia Betinha com os olhos rasos d’água olhando para Antônia. — Mas você vai vencer tudo isso, meu amor e eu estarei aqui para te ajudar. ♦♦♦ Alguns meses depois, Afonso foi aconselhado por Ana que o melhor a se fazer com Antônia era mandá-la estudar fora do país, pois assim ela não sofreria muito a perda da família. Mas o medo de Ana era mesmo o de perder o controle da fortuna dos Olivares da parte de Marcondes, em seu íntimo ela pensava que Antônia pudesse tomar o controle da Olivares Company e assim seu marido seria rebaixado a um mero diretor. Coincidentemente esse eram os mesmos pensamentos de Afonso e por isso concordou sem pensar duas vezes com a esposa. —Você está certa, amor. Vou deixa-la encarregada de providenciar uma escola para que Antônia possa estudar e morar. —Pode deixar! —respondeu Ana, sorridente. — A vida luxuosa de Antônia na Inglaterra a fará esquecer de tudo isso aqui. Com uma boa pensão ela vai deixar você como CEO da Olivares pelo resto de sua vida! ♦♦♦ Mais alguns meses depois, Antônia finalmente foi para Londres. Antes de partir ela ainda passou uma tarde inteira com Alessandro e Betinha na casa da família. —Eu vou sentir muito a sua falta, Tônia. Você é como uma filha pra mim, sabia?! — Betinha falou emocionada, ela ria e chorava ao mesmo tempo. —E você foi minha mãe desde que a minha morreu e meu vovô também, Bê! Mas eu voltar e nunca vou me esquecer de vocês. Betinha e Alessandro não foram ao aeroporto, uma acompanhante britânica ficou responsável por cuidar da menina enquanto esta vivesse no país europeu. Antônia chorava copiosamente enquanto via seus tios irem embora antes mesmo dela entrar no portão de embarque, era como se quisessem se livrar dela. Curiosamente logo depois que Ana e Afonso saíram, Amaury e Priscila vieram para se despedirem da garotinha que agora já estava com dez anos. O advogado e também amigo da família deu de presente para a menina, uma linda boneca de pano que segundo ele, fora feita por sua avó. Antônia ficou agradecida e disse gostar muito do casal que não podia ter filhos, mesmo assim permaneciam juntos e bastante ligados. Enquanto os três riam das brincadeiras e da boneca de pano, eles ouviram o anúncio de que já era hora de embarcar. A responsável por Antônia segurou a menina pela mão e seguiu com ela para o portão de embarque. A garota permaneceu olhando para trás, para o casal até entrar por completo. Priscila ficou triste, pois havia pedido ao casal Olivares para criar Antônia, como não podiam ter filhos e eram muito amigos de Sônia e Marcondes, eles a amariam como uma filha. Mesmo assim o casal de tios não aceitou alegando que a menina seria bem mais educada se fosse morar num país de primeiro mundo. —Eu penso que isso foi mais uma forma de tirar Antônia de perto da empresa, isso sim. — comentou o advogado. — Lá vem você de novo com essa história — a esposa o admoestou. — Mas, pensando bem, se for o caso de você estar certo, então é melhor que ela fique longe mesmo. Melhor lá do que correndo algum perigo por aqui. Os dois permaneceram no saguão até que o voo decolou. Antônia, a menina que embora tão jovem, estava tendo de recomeçar a viver num país distante e longe de tudo o que conhecia. Ela chorava silenciosamente enquanto via seu país se tornar cada vez mais pequeno, pela janela do avião. Apesar de ter sofrido um terrível acidente aéreo, Antônia parece ter superado boa parte de seus traumas, mas os pesadelos com seus pais e seu irmão gritando, esses levariam muitos anos para desaparecerem. ♦♦♦ Dezessete anos depois de tudo, Antônia cresceu e se tornou uma linda mulher. Ela adotou um estilo único, usava o cabelo Chanel, sua estatura foi para 1.70, pernas bem torneadas e cintura fina. Sempre que caminhava o seu rebolado não intencional chamava a atenção por onde ela passava, mas Antônia não era de dar bola para qualquer um, porém nunca dispensava um belo macho alfa. Ela se formou em administração na universidade mais renomada da capital britânica, mesmo sendo frequentadora assídua de todas as baladas que podia, a garota ainda teve tempo para estudar e se formar e entre os melhores alunos. No brasil, seus tios seguiam suas vidas, Ana teve o segundo filho e Carolina se casou com um almofadinhas que fingiu ser filho de um rico empresário árabe só para entrar na família. O segundo filho se chamava Marcelo, outro que não servia para nada, ainda era menor de idade, mas já dava sinais de que não se interessava pelo futuro. Afonso comandava a companhia com a ajuda de Amaury, mas não tinha controle sobre os gastos da esposa e dos filhos com futilidades, isso o deixava irritado. Quanto ao advogado, este desconfiava do fato de Afonso nunca deixar ninguém mais além dele, mexer no computador da presidência, o que dificultava o trabalho do escritório. Mas Afonso sempre dava um jeito de dizer que tudo estava sob controle. Betinha ficou viúva. Ela perdeu seu marido para um AVC enquanto este aparava a grama. Ela ainda lutou com ele no hospital, mas as sequelas foram mais fortes deixando Betinha e seu filho Alessandro sem pai e marido. Para completar ela ainda foi dispensada por Ana, mas não ficou desamparada, ao saber que a mulher havia cuidado tão bem de Antônia, Priscila lhe deu um emprego e o casal ainda se comprometeu a pagar os estudos de seu filho. Para orgulho de sua mãe, Alessandro se formou para advogado e passou a trabalhar no escritório Galaretto, o representante jurídico da Olivares Company e várias outras empresas de renome. Alessandro se tornou um homem muito belo e forte. Nem de longe lembrava aquele menino franzino com quem Antônia brincava. Com seus 1.86 de altura e 80 quilos, o rapaz ostentava um charme que encantava homens e mulheres, principalmente quanto ia à praia e exibia seus músculos bem trabalhados e um abdômen tanquinho. No entanto, apesar de ser um gato, Alessandro era simples e não gostava namorar uma aqui, outra ali. Ele era mais para “um compromisso sério”. Quando levava alguma garota para a cama de forma casual, geralmente se arrependia no dia seguinte e prometia não o fazer mais. Mas entre idas e vindas ele sempre se lembrava de Antônia, se perguntando como ela deveria ter ficado depois de tantos anos. ♦♦♦ Acontece que a curiosidade de Alessandro estava mais próxima do fim, do que ele pensava. Naquele mesmo dia, a bela morena desembarcava no aeroporto internacional do RJ e sem que ninguém o soubesse. Nem mesmo aos tios ela revelou que retornaria para o país de origem, o que para eles não parece ser boa coisa. —Voltei! Vamos ver como o senhor vai se comportar comigo de volta, Brasil! — falou retirando os óculos escuros do rosto e fazendo um bico com os lábios formando uma careta engraçada. Antônia estava de volta e de agora para frente, tudo pode acontecer, de bom ou de r**m, basta saber qual o rumo que essa louca história irá tomar. Mas como diz a própria Antônia “me segura que eu estou na área”!  
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