Era como se o texto tivesse sido escrito pra mim. A partir daquele dia, aquilo virou minha pesquisa favorita. Eu lia depoimentos, artigos, requisitos, formulários. Via vídeos no mudo, pra ninguém ouvir. Estudava o processo, as leis, o passo a passo. E quanto mais eu lia, mais eu me convencia de que aquilo não era desespero. Era lógica. Eu tinha vivido tudo, tinha conquistado tudo, tinha sido tudo. E agora eu não era nada além de um corpo quebrado sendo empurrado dentro da própria casa. Uma noite, enquanto todos dormiam, eu encarei meu reflexo no vidro da janela sentado na cadeira, ombros curvados, camisa amassada, barba por fazer. Parecia outra pessoa. Sussurrei baixinho, só pra mim: — Eu não vou viver assim. E naquele instante, naquele silêncio, naquela madrugada fria, eu decidi.

