Dominic deu a volta no quarteirão com um sorriso sombrio, sádico. Quando viu Nayere no ponto de ônibus, sob o temporal que se anunciava, uma ideia maligna lhe ocorreu. Ele mirou a poça d’água da sarjeta com precisão cirúrgica e acelerou. O jato de água suja subiu como uma onda, engolindo a figura encolhida no ponto.
Nayere deu um grito abafado, ficando com o casaco e a roupa agora encharcados e pesados.
Dominic seguiu em frente, rindo muito. O ato de crueldade gratuita foi, ironicamente, a melhor parte de seu dia inteiro. O homem amargo e exausto mentalmente chegou ao seu apartamento, bebeu uísque demais até a madrugada, buscando anestesiar a culpa e o vazio, e, previsivelmente, perdeu a hora no dia seguinte. Ele estava pensando muito em Mireya, agora que estava mais perto.
Nayere, por outro lado, levantou mais cedo que o normal. Não por raiva, mas para compensar o desastre do dia anterior. Relaxada ela não era, era simples, mas tentava ser metódica e não via problemas em ser simplória em seu estilo.
Seu dress code era sempre o mesmo: mangas compridas, independente do clima ou da moda. Pelas costas, os funcionários faziam apostas secretas. Diziam que era uma evangélica antiquada ou, o oposto, toda tatuada maloqueira do tipo que havia se convertido e virado "crente".
O look do dia era uma camisa social rosa-bebê, fechada até o último botão, por cima um vestido regata preto até abaixo do joelho e sapatilhas. A maquiagem era o básico: gloss claro rosa, nesse dia passou um rímel incolor nos cílios.
As unhas estavam sempre feitas, bem cuticuladas e aparadas, mas nunca esmaltadas com cores, ela só usava base. O cabelo claro, longo, bonito por natureza, vivia preso com uma caneta.
A sala de reunião estava pronta e Nayere estava há uma hora ligando insistentemente para Dominic, que não atendia, nem respondia às mensagens.
Quando ele finalmente chegou, atrasado e com a aura de uma tempestade, ignorou Nayere, que estava desesperada correndo atrás. Ele, ainda desorientado e deliberadamente ríspido, foi andando para o lado errado do corredor. Nayere se irritou, parou no meio do corredor calada, vendo-o abrir duas salas erradas.
Ele se virou confuso, com a testa franzida.
— Onde é a reunião afinal, Nayara?
Ela se virou, caminhando sem falar nada, entrou na sala correta e se sentou, super indiferente ao próprio erro e falando o nome dela, errado de propósito. Dominic apenas seguiu deu um "bom dia" seco e começou a reunião.
Ele se mostrou irredutível com as novas regras impostas por si: curto e grosso, deixou claro que quem não se adaptasse seria desligado ou transferido. O pessoal saiu em pânico, espalhando as novidades pela empresa. Dominic, por sua vez, adorava aquela sensação de poder e o medo que exalava de seus subordinados.
Ele foi direto para sua nova sala e gritou duas vezes:
— Nayara!
Ela foi até lá, educada, e perguntou como poderia ajudar. Ele a comunicou com poucas palavras: iriam viajar a trabalho dali a dois dias. Ainda ressaltou, com falsa consideração, que por causa da rotina dela, não iriam no sábado.
Nayere ficou olhando, pensativa e muda. Ele estava digitando no computador, levantou o olhar irritado.
— E então? Quer falar alguma coisa?
Ela se aproximou, apreensiva.
— Não posso viajar. Quando fui contratada, deixei isso bem claro. Se o senhor quiser, posso cuidar de absolutamente tudo remotamente. Já fiz isso até na viagem da Itália, Portugal. Eu sou muito atenciosa e não me esqueço de nada.
Ela buscou uma desculpa final, desesperada.
— Também estou doente, um resfriado daqueles. Poderia passar para o senhor.
Dominic a olhou sério, batendo os dedos na mesa. Ele sabia que a recusa tinha a ver com o pavor de sair de sua rotina. Mas a competência dela era lendária.
Ele sorriu, um gesto sarcástico que não alcançou os olhos.
— Tudo bem, como preferir. Pode ir!
Dominic não estava acostumado a ter ordens negadas. A obediência de Nayere em outras áreas era perfeita, mas essa recusa o intrigou profundamente, alimentando seu desejo de quebrar as barreiras dela.
Nayere, iludida, até sorriu aliviada e voltou a trabalhar normalmente. Faltando meia hora para encerrar seu expediente, Dominic saiu e a olhou com aquele mesmo sorriso sujo.
— Tem certeza que não consegue fazer a viagem, Nayara?
Prestativa, ela se levantou, indo atrás dele.
— Não, sinto muito! Mas já estou organizando tudinho, vai dar tudo mais que certo! Gostaria de agendar reservas para sair no final de semana?
— Tenho os melhores contatos, barzinhos, baladas, casas noturnas... Não estou dizendo que façam o seu tipo.
Ele estava entrando no elevador, que foi fechando na cara dela.
— Não quero nada disso. Ótimo final de semana.
Ela permaneceu sorridente, acenando.
— Muito obrigada, para o senhor também. Tchau!
Assim que voltou para a mesa, correu atender o telefone. Era o RH a chamando para ir conversar. Com o coração saindo pela boca e muito medo de ter sido pega mentindo sobre a vida pessoal, ela foi.
A comunicaram que estava sendo desligada da empresa, por causa da falta de verba para manter alguns funcionários antigos. Logicamente, o motivo não era esse e ela sabia. Entendeu perfeitamente porque Dominic saiu tão sorridente.
Ainda que chateada, manteve a calma e a tranquilidade, aceitou cumprir o aviso prévio e ajudar sua substituta a aprender todo o necessário.
Só chorou de raiva quando chegou em casa. Foi investigar a vida de Dominic: descobriu que ele era muito influente, rico, com uma dúzia de ex-namoradas, até famosas. Ficou horas olhando todas as redes sociais. Decidiu sair fora do seu normal e se vingar, bolando um plano.
No dia seguinte, sábado, Nayere saiu, muito m*l-intencionada. Foi a um salão caríssimo no shopping, fez tudo o que tinha direito: sobrancelhas, unhas, mudou o cabelo fez luzes e até fez maquiagem, completamente surtada. Comprou mais de dois mil reais em roupas e sapatos. Só passou em casa para tomar banho e se trocar, ainda postou uma foto toda produzida, com a legenda "#Sabadou".
Há anos ela não se arrumava assim. Extremamente diferente, foi para uma balada funk sozinha, com um vestido azul royal de alças, curto, agarrado ao corpo, e sandália de salto muito alto preta. Chegou toda deslocada, mas com um camarote reservado em nome da empresa. Convidou mulheres desconhecidas para ficarem junto, comprou o maior combo de bebidas, garrafas de destilados, vodca, uísque, gim, gelos de sabor, energéticos, refrigerantes, águas. Começou a provar de tudo.
Desde as compras no shopping, Dominic foi informado. A central entrou em contato com o antigo chefe de Nayere e ele conversou com o atual. Foi muito firme, dizendo que ela nunca fez absolutamente nada errado, que com certeza algo errado estava acontecendo. Ao saber que Nayere foi demitida, ainda comentou em sua defesa que ela parecia ter algumas questões particulares das quais não falava, talvez algum transtorno, confessou que ela era muito calada. Sendo pressionado, pediu para Dominic repensar no que fez e confessou achar que ela não tinha mais marido, porque ninguém nunca o viu pessoalmente.
Dominic, entediado e com sete pedras nas mãos, rastreou os gastos. Ficou furioso ao vê-la gastando em uma balada, usando o nome da empresa. Saiu de casa super tarde, com o único propósito de caçar sua secretária.