Capítulo 16

1289 Words
Ela assentiu, tranquilamente ela se levantou e o acompanhou, ele foi sentar atrás da mesa. — Pode sentar e respirar, chega de falar sobre trabalho. Você parece exausta. — Infelizmente não estou conseguindo ser indiferente a você. — Tem muitas coisas sobre mim que você não sabe, mas preciso te dizer. — Que eu te entendo, mais do que pode imaginar. Como é estar sozinho, desmotivado. Sem esperança, expectativas. — Gostaria muito que fosse viajar comigo, já sei que não existe exatamente algum motivo para não ir. Não tem ninguém em sua casa, lhe esperando. — Sei que é difícil acreditar em você mesma às vezes. — Sabe, um dos motivos de eu ter me mudado pra cá, foi para recomeçar também. — Caso aceite viajar comigo, te contarei tudo. Minha vida, nunca foi fácil, pode acreditar. — Quando o seu aviso terminar, é você quem decide se vai ou fica. Podemos fazer um novo contrato. — Sou chato mesmo e isso não vai mudar, tem dias que nem eu me suporto. Sou muito exigente. — Mas vou aumentar seu salário, seu antigo chefe só sabe falar maravilhas de você. — Quero que vá comigo. A trabalho, é claro. Ela estava pensativa, sorriu sem jeito, com os olhos marejados. — Eu irei pensar. Não gosto de sair, dá minha zona de conforto. Ela respirou fundo, e então deixou escapar aquilo que guardava como a maior ferida: — Sei que viu, as tatuagens, elas são de uma época que eu tento esquecer… — disse, abaixando a cabeça. — Meu ex era tatuador, e me fez tatuar as costas desse jeito … eu não queria… mas fiz. — Para agradar. Fui coagida e me odeio, por isso. — É um pedaço do rosto dele… e um leão… grande… cobrindo tudo. — Eu morro de vergonha. Odeio elas. Por isso uso mangas compridas, roupas mais fechadas… não quero que vejam, não quero que perguntem. — Não sei o que está pensando de mim, e isso me incomoda demais. Ela hesitou, e Dominic não disse nada; apenas a observava, sério. — Meu ex… — seus olhos ficaram úmidos, mas continuou falando. — Ele acabou com a minha vida. Tudo virou um caos, e desde então eu tento inventar versões melhores de mim, pra conseguir continuar vivendo. — Mentir me faz bem, porque parece real, independente do que todos falem… só eu sei como é chegar em casa e não ter ninguém me esperando. A voz dela falhou um pouco. — Vivi um ano até que bom, à base de mentiras… e quero continuar! Gosto de falar, que tenho alguém. Ela sorriu sem humor. — Já fizeram isso comigo várias e várias vezes. — Tentar retirar o curativo… lento ou rápido… sempre dói. Eu não quero, estar na realidade. Se levantou, enxugando os olhos. — Posso me retirar? Preciso terminar um relatório. Sem nem saber o que dizer, Dominic concordou com a cabeça. — Ok, tudo bem. Como preferir. Passou o resto do dia sem pedir absolutamente nada pra ela. Foi almoçar, voltou calado, fez até pesquisas sobre afastamento por depressão, mesmo sem entender direito o que ela realmente carregava, ele viu que ela estava se auto sabotando. Quando estava dando o horário dela, ele esperou só para sair junto, fingindo ser coincidência. Aproximou-se da mesa dela. — Deve ser bem difícil, morar tão longe e andar de transporte público, em uma cidade dessas. Ela sorriu, concordou, foi pegando as coisas e saindo. Ele caminhou junto. — Me acha m*l-educado? Por ser curioso, tão invasivo? Ela riu, sincera: — Sim! Com certeza. Ele chamou o elevador, começou a rir, pensativo. — Sabe quantas ameaças de funcionários eu já recebi? — Muitas. A maioria de mulheres. Algumas por assédio, e aliás, tudo uma delícia. — Quando fui à sua entrevista, não quis chamar atenção à toa. Das candidatas. — Fui para tirar o foco delas. Acha que eu quero uma secretária que se distraia toda vez que eu passo? E dou um sorriso? — Prefiro as que agem como você… me desprezando. Já olhou nos meus olhos alguma vez? Parece que tem medo, de mim. Ela entrou no elevador com um sorrisinho debochado. — Entendi, faz sentido. É, complicado. Ele entrou logo atrás, fazendo-a recuar até quase encostar no espelho do fundo. — Mentirosos dificilmente olham nos olhos. Eu sempre sei, quem são. Ele a encarava fixamente; ela evitava o olhar dele, olhando para os cantos do elevador. — Existem mentiras do bem, não é? — ela perguntou, baixinho. Ele respondeu que, com certeza, não. Ela falou exultante. — Boa viagem. Irei pensar, em seu convite. Ou não. Ele saiu primeiro na garagem, segurou a porta do elevador. — Não vai pensar, tenho certeza disso. Quer uma carona? Chegar mais cedo, em casa? Ela acenou, rindo. — Não quero chegar cedo. Obrigada. Tchau. Ela fechou o elevador, foi embora pensando nos segredos e mentiras dele, conhecendo toda a agenda dele, sabendo mais da vida dele do que ele imaginava. Agiu por impulso: decidiu viajar, cansada de viver os mesmos dias repetidos. Resolveu fazer uma grande loucura, ela tinha grandes planos, sem sombra de dúvidas. Ela passou comprar uma lingerie sensual, fez a mala as pressas, ele nem desconfiou de nada. Como ela era seu único contato direto, nenhum funcionário comentou sobre a ausência dela, na empresa. Quase não conversaram no dia da viagem. Dominic chegou antes dela, ele tinha um jantar agendado, por ela, ela chegou à tarde na cidade, foi para o mesmo hotel usando o nome da empresa, conseguiu uma suíte no mesmo andar. Correu para se arrumar, colocou um vestido agarrado ao corpo, de alças, bastante sensual, preto. Se maqueou bem, preparou a pele a deixando lisa reluzente, passou sombra esfumada marrom, delineado preto, bastante máscara de cílios, batom vermelho vivo. Deixou o cabelo escovado liso. Quando ficou pronta, pediu para que ele fosse até a recepção encontrar um executivo. Ele foi reclamando por áudio: — Nayara, estou faminto, por que não pediu um motorista só pra mim? — Quero ir logo, você não me mandou as opções de restaurantes. — Não tem ninguém aqui, vou sozinho. —??? Ela não estava respondendo. Saiu do elevador com a sandália preta de salto alto, ecoando no mármore. Ele ficou olhando confuso, sério, quase não a reconhecendo. Todos homens que a viram, não tiraram os olhos dela. Apreensiva, ela caminhou até ele, e sorriu. — Eu vim. Boquiaberto com tamanha mudança, Dominic sorriu, já sentindo as segundas intenções dela. — Que ótimo. Está linda, eu poderia te elogiar, de um jeito, que você poderia me levar ao RH com várias acusações diferentes. Ela sorriu nervosa, sentindo o rosto arder. — Aé? Que interessante. — Vamos indo, então? Foram caminhando juntos em direção à saída, ele falou com malícia. — Nada aqui é tão interessante, quanto o que tem por baixo desse lindo vestido. Ela começou a rir, nervosa. — Vai pagar o jantar, né? Ele esticou a mão para ajudá-la nos degraus. — Com certeza. — Cuidado para não cair. O carro, estava esperando, ele abriu a porta para ela, quando entrou, percebeu que ela estava com as mãos trêmulas. Foram a um restaurante luxuoso, ele se afastou um pouco, ficando mais formal, com receio de estar indo longe demais. Sentaram um de frente para o outro, ela pediu uma batata recheada, ele pediu um espaguete, ela sugeriu que pedissem um vinho, começaram a conversar sobre as candidatas a vaga dela, ele contou sobre o trabalho e não disse nada, sobre a vida pessoal. Ela fez o mesmo, e beberam a garrafa toda, ele estava confuso com os sinais, sem saber se ela estava flertando ou não, então preferiu observar mais e agir menos.
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