Perdi Tudo

1526 Words
DOIS ANOS ANTES Ali estava ela sentada, com os braços a apertar as pernas. Pés despidos na areia e cabeça entre os joelhos. As suas lágrimas caiam em silêncio, sem, ter qualquer controlo nelas. A sua face estava impávida, como se não tivesse emoções, apesar das gotas de dor que lhe acariciavam a face. Ela não se apercebia, mas suas lágrimas caiam e tatuavam a areia tal como as ondas, que uns metros á sua frente, também o faziam. Raquel ouvia o som do mar, essa era a razão pela qual estava ali, o som do mar. Ouvia as ondas a rebentar, ouvia o som suave e lento do imenso mar que estava á sua frente… Tentava concentrar-se no som que ouvia na esperança que o seu coração se deixasse levar e batesse mais devagar, numa tentativa frustrada de relaxar. Tentava controlar a tristeza que sentia, as lágrimas… mas não conseguia. Ela nem se apercebeu que já não estava sozinha e que ao seu lado estava agora a sua amiga de longa data, Telma. Telma sabia que Raquel estaria ali, naquele local que é o seu farol, nos dias em que a sua vida está em modo nevoeiro. Raquel só poderia estar ali! Telma contemplava-a sem saber o que dizer, estava imóvel porque a sua sensação de impotência era tanta! Sabia que não havia como consolar ou minimizar o que Raquel sente. Como se fosse possível! Ficou em silêncio e deixou que a sua amiga libertasse um pouco da sua dor. Finalmente Raquel percebeu que não estava sozinha… olhou para o lado e viu Telma. Quando a viu abraçou-a e chorou compulsivamente. Não havia som ali que conseguisse acompanhar o movimento das suas lágrimas que contrastava com toda a serenidade que servia de paisagem. Choraram as duas. Telma sentia a sua dor e sofria por não saber como a amenizar. Raquel, já sem conseguir respirar porque as suas narinas estavam entupidas largou a amiga. Começou a despir a sua roupa, ficando apenas de roupa interior, e dirigiu-se para a água. Telma levou alguns segundos a perceber o que tentava fazer. , com pânico do que fosse fazer chamou-a. Levantou-se e com o desespero de agarrar a sua amiga, antes que entre na água, tropeça e tenta equilibrar-se… os segundos perdidos fizeram com que não chegasse a tempo, olhou desesperada para o mar imenso e observou o vulto a caminhar lentamente na sua imensidão. "Raquel! Raquel! Que vais fazer? Raaaaaaaquelllllllllll!" Telma gritava em desespero. Ela sabia perfeitamente que não havia nada que ligasse a sua amiga á vida e temia que esta fosse a sua resposta á dor. Começou a correr no máximo de velocidade que as suas pernas permitiam. Nisto vê a sua amiga a mergulhar e dar braçadas, não conseguia vislumbrar a sua cara, apenas a sua sombra na escuridão e no céu estrelado que as rodeava. Começou a despir-se rapidamente e entrou na água sem medo. Não podia deixar Raquel fazer nenhuma asneira! Quando finalmente se aproximou da sua amiga, constatou estarem num local com pé. Compreendeu que afinal a amiga não ia suicidar-se nadando até o cansaço levar a melhor… E essa perceção fez com que finalmente respirasse com alívio. "Raquel, assustaste-me." Suspira aliviada, olhando-a em consternação. "Precisava mergulhar, desentupir as narinas, lavar o corpo… E na esperança que a minha alma também possa ser lavada." Raquel diz-lhe com um sorriso triste que não lhe chega aos olhos. "Anda, vamos sair… Isto não te faz bem." Telma sugere com preocupação, mas a amiga não reagiu ao seu pedido e em vez disso levantou a cabeça e ficou a observar o céu e as estrelas, num silêncio quase perturbador. "Será carma? Destino? Tu que acreditas nestas coisas, diz-me…" — o seu tom tranquilo acabou também por acalmar Telma. "Não sei… mas sei que as coisas vão melhorar, nada pode ser pior que isto. Tens que ter força. E sei que sentes agora que a tua vida acabou e a tristeza não te deixa ver além do abismo… mas tens pessoas que gostam de ti, que precisam de ti e da tua força. E sei que um dia serás feliz." Telma diz-lhe honestamente. Raquel é um íman que atrai pessoas boas e ao longo do tempo criou várias amizades fortes e sinceras. Ela é o pilar de muitos deles, nos mo menos difíceis. Mesmo com os barulhos do mar e pelos movimentos que provocam na água conseguiu ouvir o seu suspiro. "Sinto um vazio enorme agora…" Raquel confessa num tom calmo, mas de quem está a sofrer muito. "Por favor, vamos sair da água. Saíste do hospital há umas horas. Certamente não poderia fazer isto." Telma sabe que a amiga ainda está frágil, a sua saída do hospital tem poucas horas. Ainda tem uma ferida aberta que precisa cuidados médicos, apesar de ter tido alta. Estar ali assim só aumenta o risco de infeções. "E achas que eu me importo? Pensas que a minha vida tem algum valor para mim agora? Perdi tudo! Tudo o que me fazia feliz…" Raquel diz num tom mais elevado, como que em irritação por a sua amiga se preocupar consigo. naquele momento a sua vida para ela não tem nenhum valor, todas as coisas que acreditou serem para sempre foram afinal efémeras. Perdeu tudo o que era verdadeiramente seu. "Tudo não… tens amigos, ainda tens a tua vida, tens o teu trabalho, imensas pessoas que gostam de ti… sê forte e não desistas, por favor, por mim…" Telma diz-lhe com uma lágrima a escorrer-lhe o rosto. Constatar a ausência de vontade de viver em Raquel é algo que a destrói por dentro. "Eu não desisto de viver…. Pensei tanto nisso estes dias, mas sou tão covarde que nem consigo a coragem suficiente para acabar com este sofrimento…" as suas palavras ecoam na cabeça de Telma como o som elevado e estridente de um alarme. Ela abana ligeiramente a cabeça, tentando recuperar o controlo das suas emoções. "Ainda bem que não", teceu a amiga com certo tom repreendedor, "Nem sabes a dor que causarias nos que gostam e precisam de ti… Vamos miúda, olhos em frente…" "Que faço eu agora? A sério, diz-me. Em 5 meses tudo mudou e em 5 meses perdi tudo… Telma, por favor, ajuda-me. Que faço eu agora?" Raquel está no seu limiar de resistência, ela quer sobreviver á dor, ela quer ajuda, apesar de sentir que tudo está a desmoronar. Telma ficou surpreendida com a questão e ficou sem saber o que responder, por momentos. Respirou fundo e tentou encontrar palavras que servissem de guia. "Bem, para já, vens para nossa casa. Não vais ficar sozinha na tua, a menos que prefiras que vá contigo… sozinha não ficas!" o tom de comando é possível de ser sentido. Nunca que Telma iria deixar a sua melhor parte a agonizar sozinha. "Tens medo que o desespero seja mais forte que a minha resiliência?" Raquel sempre foi perspicaz e finalmente entendeu os receios da sua amiga. Sim, na verdade já lhe passou pela cabeça, mas nunca seria capaz. "Não. Sei que és forte. Tenho medo é que te sintas sozinha, que não te cuides e te deixes levar pela depressão." Uma meia mentira teve de ser dita, Telma sabe que Raquel precisa que lhe digam que consegue e não que têm medo que não consiga. Guardou para si parte dos pensamentos e agiu como agente motivador. "Tens noção do que passei? Não serei boa companhia para ninguém. Tenho a minha vida estragada e estragarei a tua também. Estou danificada e não sei se algum dia recuperarei. Perdi o meu marido que me traiu com uma das minhas melhores amigas! Fiquei grávida e sozinha! Fui abalroada por um camião, enquanto conduzia, perdi o meu filho ainda dentro de mim! E fiquei em coma, nem tive oportunidade de me despedir... Não pude vê-lo ou despedir-me!" Raquel diz com as lágrimas a correrem pelo seu rosto novamente. Telma abraça a sua frágil figura, acariciando os seus cabelos. Não, Telma não sabe o que ela passou e, na verdade, espera nunca saber, porque ninguém no mundo inteiro merece tanta dor. "Lembras-te quando éramos crianças e brincávamos nesta mesma praia? Lembras-te do que me prometeste? Que estarias sempre comigo! Mas eu também fiz a mesma promessa!" Telma sussurra gentilmente aos ouvidos da amiga. "O Grupo RT…" Raquel responde entre soluços. "Sim, o grupo Raquel e Telma" — retorquiu a amiga com voz suave e abraçando com carinho a amiga. — "Agora, por favor vamos sair…" "Não. Deixa-me ficar mais um pouco." — pediu, mergulhando novamente. "Então também fico… — disse T, ajeitando o seu cabelo, prendendo-o num elástico que tinha no pulso. "Raquel, "- fala a amiga quando vê que a sua miga ja está á superfície — "vamos viajar! Uma semana sem destino. Precisas sair daqui e eu também. Vamos recuperar energias. Outro local, outras pessoas, longe disto…" Telma sugere animadamente, uma saída deste ambiente é o que precisam. Longe das memórias e das dores do coração. "Sim, talvez seja uma boa ideia! Obrigada! Que seria de mim sem ti! Ao jantar ja discutimos destinos." Raquel disse antes de dar novo mergulho.
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