Capítulo 17

990 Words
O Que Ela Tem A notícia correu mais rápido do que qualquer boato comum da escola. Não foi preciso anúncio, nem postagem, nem confirmação oficial. Bastou Renata ver o anel discreto no dedo de Thiago e, logo depois, enxergar Morgana no pátio, sentada no banco de sempre, com o mesmo anel brilhando sob a luz da manhã. Aquilo foi o estopim. Renata sentiu o sangue ferver. O sorriso desapareceu do rosto, os olhos escureceram, e o orgulho ferido falou mais alto do que qualquer bom senso. Para ela, aquilo não fazia sentido. Thiago sempre fora parte do mundo dela: festas, status, olhares, invejas. E agora estava ali, assumindo um namoro com “a menina doente”. Ela apertou os punhos. — Não… isso não é possível — murmurou para si mesma. Durante a aula, Renata não prestou atenção em nada. O professor falava, os colegas anotavam, mas ela só observava Thiago. Ele estava diferente. Mais calmo. Mais sério. E, estranhamente, mais feliz. Isso a irritava ainda mais. Assim que o sinal tocou para o intervalo, Renata levantou-se bruscamente. A cadeira arrastou no chão, chamando atenção. Ela saiu da sala decidida, atravessou o corredor e esperou. Sabia que Thiago sairia logo atrás. E saiu. — Thiago! — chamou, em tom alto. Ele parou. Respirou fundo antes de virar. Já imaginava o que vinha. — A gente precisa conversar — disse ela, cruzando os braços. — Renata, agora não é um bom momento. — Pra mim é — rebateu, aproximando-se. — Ou você acha que pode simplesmente aparecer namorando aquela garota e fingir que tá tudo bem? Alguns alunos diminuíram o passo, curiosos. O clima ficou pesado. Thiago manteve a postura firme. — Não é da sua conta. Renata riu, um riso sem humor. — Não é da minha conta? — repetiu. — Depois de tudo? — Depois de tudo o quê? — perguntou ele, sério. Ela deu um passo à frente, o rosto próximo ao dele. — Depois de nós, Thiago. Das festas, das viagens, das vezes que você me procurou. Ele não desviou o olhar. — Renata, a gente nunca teve nada sério. Você sempre soube disso. — Mas agora tem com ela? — retrucou, apontando o dedo na direção do pátio, onde Morgana estava, distraída, desenhando no caderno. — Com aquela doente? O silêncio caiu pesado. Thiago sentiu algo estalar dentro dele. — Não fala assim dela — disse, em voz baixa, porém firme. Renata arregalou os olhos, surpresa com o tom. — O que foi? — provocou. — É mentira agora? Todo mundo sabe o que ela tem. — Todo mundo sabe da doença — respondeu ele. — Mas poucos sabem quem ela é de verdade. Você é uma delas. Ela cruzou os braços novamente, o rosto tomado pela raiva. — Então me explica — disparou. — O que aquela garota tem que eu não tenho? Thiago a encarou por alguns segundos. Não havia ódio em seu olhar. Havia cansaço. E clareza. — Ela tem coragem — começou. — Coragem de acordar todos os dias sem saber como o corpo vai reagir, mas mesmo assim levantar. Renata tentou interromper, mas ele continuou. — Ela tem força, Renata. Uma força que não vem de dinheiro, nem de status, nem de gente bajulando. Vem de dentro. — Isso é papo de pena — debochou ela. — Não — respondeu ele, firme. — Pena é o que você sente quando olha alguém de cima pra baixo. O que eu sinto por ela é admiração. Renata sentiu o golpe. — Ela enfrenta coisas que você nunca precisou enfrentar — continuou Thiago. — E ainda assim sorri. Ainda se preocupa com os outros. Ainda sonha. — Eu também sonho! — gritou ela. — Sonha com o quê? — perguntou ele, sem elevar a voz. — Com curtidas? Com quem vai te levar pra próxima festa? Ela ficou muda por um instante. — Morgana me ensinou a ver o mundo diferente — disse ele. — Me ensinou que a vida não é garantida. Que tempo é precioso. Que amar não é jogar, nem competir. Renata sentiu os olhos arderem, mas se recusou a chorar. — Então é isso? — perguntou, amarga. — Você me troca por alguém que pode nem… — ela parou, percebendo o que ia dizer. Thiago fechou o rosto. — Cuidado com suas palavras — alertou. — Ou o quê? — desafiou ela. — Ou você vai mostrar exatamente quem você é — respondeu ele. O sinal tocou novamente, chamando os alunos de volta. O corredor voltou a se mover, mas o clima ainda estava pesado. Renata respirou fundo, tentando recuperar o controle. — Você vai se arrepender — disse, por fim. — Quando isso tudo passar… se passar… ela não vai poder te dar o que eu posso. Thiago a olhou uma última vez. — Ela já me deu — respondeu. — Me deu verdade. Virou-se e caminhou em direção ao pátio. Morgana o viu se aproximar. Fechou o caderno devagar, percebendo o semblante dele. — Tudo bem? — perguntou. Ele sentou ao lado dela. — Agora tá. Ela observou o rosto dele, atenta. — Renata? — arriscou. Thiago assentiu. — Desculpa se isso te expõe — disse ele. — Eu não queria confusão. Morgana segurou a mão dele. — Eu sabia que não seria fácil — disse, com calma. — Nunca foi. Ele apertou os dedos dela com cuidado. — Ela perguntou o que você tem que ela não tem. Morgana ergueu o olhar, curiosa. — E o que você respondeu? Thiago sorriu, com ternura. — Que você tem tudo o que importa. Morgana sentiu o peito aquecer. Olhou em volta: os olhares, os cochichos, as dúvidas. Tudo ainda existia. Mas, naquele momento, nada disso importava. Ela não era apenas a menina doente. Não era apenas a garota simples da roça. Era Morgana Cameron. E, pela primeira vez em muito tempo, sentia que era vista exatamente como era.
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