O Que Ela Tem
A notícia correu mais rápido do que qualquer boato comum da escola.
Não foi preciso anúncio, nem postagem, nem confirmação oficial. Bastou Renata ver o anel discreto no dedo de Thiago e, logo depois, enxergar Morgana no pátio, sentada no banco de sempre, com o mesmo anel brilhando sob a luz da manhã.
Aquilo foi o estopim.
Renata sentiu o sangue ferver. O sorriso desapareceu do rosto, os olhos escureceram, e o orgulho ferido falou mais alto do que qualquer bom senso. Para ela, aquilo não fazia sentido. Thiago sempre fora parte do mundo dela: festas, status, olhares, invejas. E agora estava ali, assumindo um namoro com “a menina doente”.
Ela apertou os punhos.
— Não… isso não é possível — murmurou para si mesma.
Durante a aula, Renata não prestou atenção em nada. O professor falava, os colegas anotavam, mas ela só observava Thiago. Ele estava diferente. Mais calmo. Mais sério. E, estranhamente, mais feliz.
Isso a irritava ainda mais.
Assim que o sinal tocou para o intervalo, Renata levantou-se bruscamente. A cadeira arrastou no chão, chamando atenção. Ela saiu da sala decidida, atravessou o corredor e esperou. Sabia que Thiago sairia logo atrás.
E saiu.
— Thiago! — chamou, em tom alto.
Ele parou.
Respirou fundo antes de virar. Já imaginava o que vinha.
— A gente precisa conversar — disse ela, cruzando os braços.
— Renata, agora não é um bom momento.
— Pra mim é — rebateu, aproximando-se. — Ou você acha que pode simplesmente aparecer namorando aquela garota e fingir que tá tudo bem?
Alguns alunos diminuíram o passo, curiosos. O clima ficou pesado.
Thiago manteve a postura firme.
— Não é da sua conta.
Renata riu, um riso sem humor.
— Não é da minha conta? — repetiu. — Depois de tudo?
— Depois de tudo o quê? — perguntou ele, sério.
Ela deu um passo à frente, o rosto próximo ao dele.
— Depois de nós, Thiago. Das festas, das viagens, das vezes que você me procurou.
Ele não desviou o olhar.
— Renata, a gente nunca teve nada sério. Você sempre soube disso.
— Mas agora tem com ela? — retrucou, apontando o dedo na direção do pátio, onde Morgana estava, distraída, desenhando no caderno. — Com aquela doente?
O silêncio caiu pesado.
Thiago sentiu algo estalar dentro dele.
— Não fala assim dela — disse, em voz baixa, porém firme.
Renata arregalou os olhos, surpresa com o tom.
— O que foi? — provocou. — É mentira agora? Todo mundo sabe o que ela tem.
— Todo mundo sabe da doença — respondeu ele. — Mas poucos sabem quem ela é de verdade. Você é uma delas.
Ela cruzou os braços novamente, o rosto tomado pela raiva.
— Então me explica — disparou. — O que aquela garota tem que eu não tenho?
Thiago a encarou por alguns segundos. Não havia ódio em seu olhar. Havia cansaço. E clareza.
— Ela tem coragem — começou. — Coragem de acordar todos os dias sem saber como o corpo vai reagir, mas mesmo assim levantar.
Renata tentou interromper, mas ele continuou.
— Ela tem força, Renata. Uma força que não vem de dinheiro, nem de status, nem de gente bajulando. Vem de dentro.
— Isso é papo de pena — debochou ela.
— Não — respondeu ele, firme. — Pena é o que você sente quando olha alguém de cima pra baixo. O que eu sinto por ela é admiração.
Renata sentiu o golpe.
— Ela enfrenta coisas que você nunca precisou enfrentar — continuou Thiago. — E ainda assim sorri. Ainda se preocupa com os outros. Ainda sonha.
— Eu também sonho! — gritou ela.
— Sonha com o quê? — perguntou ele, sem elevar a voz. — Com curtidas? Com quem vai te levar pra próxima festa?
Ela ficou muda por um instante.
— Morgana me ensinou a ver o mundo diferente — disse ele. — Me ensinou que a vida não é garantida. Que tempo é precioso. Que amar não é jogar, nem competir.
Renata sentiu os olhos arderem, mas se recusou a chorar.
— Então é isso? — perguntou, amarga. — Você me troca por alguém que pode nem… — ela parou, percebendo o que ia dizer.
Thiago fechou o rosto.
— Cuidado com suas palavras — alertou.
— Ou o quê? — desafiou ela.
— Ou você vai mostrar exatamente quem você é — respondeu ele.
O sinal tocou novamente, chamando os alunos de volta. O corredor voltou a se mover, mas o clima ainda estava pesado.
Renata respirou fundo, tentando recuperar o controle.
— Você vai se arrepender — disse, por fim. — Quando isso tudo passar… se passar… ela não vai poder te dar o que eu posso.
Thiago a olhou uma última vez.
— Ela já me deu — respondeu. — Me deu verdade.
Virou-se e caminhou em direção ao pátio.
Morgana o viu se aproximar. Fechou o caderno devagar, percebendo o semblante dele.
— Tudo bem? — perguntou.
Ele sentou ao lado dela.
— Agora tá.
Ela observou o rosto dele, atenta.
— Renata? — arriscou.
Thiago assentiu.
— Desculpa se isso te expõe — disse ele. — Eu não queria confusão.
Morgana segurou a mão dele.
— Eu sabia que não seria fácil — disse, com calma. — Nunca foi.
Ele apertou os dedos dela com cuidado.
— Ela perguntou o que você tem que ela não tem.
Morgana ergueu o olhar, curiosa.
— E o que você respondeu?
Thiago sorriu, com ternura.
— Que você tem tudo o que importa.
Morgana sentiu o peito aquecer. Olhou em volta: os olhares, os cochichos, as dúvidas. Tudo ainda existia.
Mas, naquele momento, nada disso importava.
Ela não era apenas a menina doente.
Não era apenas a garota simples da roça.
Era Morgana Cameron.
E, pela primeira vez em muito tempo, sentia que era vista exatamente como era.