No Tempo do Coração
Um mês.
Trinta dias que, para qualquer outro casal adolescente, poderiam parecer pouco. Mas para Morgana e Thiago, aquele mês carregava o peso e a leveza de tudo o que haviam vivido. Era um tempo contado em sorrisos discretos no corredor da escola, em mãos dadas no ônibus, em conversas longas no pátio, em silêncios confortáveis que diziam mais do que palavras.
Havia uma coisa, porém, que ainda não tinha acontecido.
O beijo.
Thiago nunca tocara nos lábios de Morgana. Não por falta de vontade — ela sabia disso. Via nos olhos dele, sentia no jeito cuidadoso como ele se aproximava, na forma como segurava sua mão como se fosse algo precioso demais para quebrar.
Desde o começo, ela tinha sido clara.
— Vai ser no meu tempo.
E Thiago aceitou sem questionar. Sem pressão. Sem brincadeiras. Apenas respeito.
Mesmo assim, ele se perguntava. Em silêncio. Como seria o beijo dela? Seria tímido? Doce? Rápido? Será que ela ficaria nervosa? Será que ele ficaria?
Naquela semana, Thiago tinha comprado um presente para Morgana. Nada grandioso. Um colar simples, com um pingente pequeno em forma de estrela. Quando viu na vitrine, pensou nela imediatamente. Pensou em tudo o que ela tinha enfrentado, em como ainda brilhava apesar de tudo.
Guardou o presente na gaveta, esperando o momento certo.
Quando contou a ela que tinha uma surpresa, Morgana sorriu de um jeito diferente.
— Eu também tenho — disse.
— Como assim? — ele perguntou, curioso.
— Surpresa — respondeu ela, piscando.
Morgana havia planejado tudo em segredo.
Durante semanas, guardou parte da mesada que os pais lhe davam. Não era muito, mas para ela significava esforço, renúncia, escolha. Entrou em lojas, saiu sem comprar nada, voltou outras vezes, até encontrar a camiseta perfeita.
Era simples, mas tinha tudo a ver com Thiago. Do jeito que ele gostava. Quando pagou, sentiu o coração acelerar. Não era só um presente. Era um gesto.
Além disso, planejou um piquenique.
Nada sofisticado. Um lugar calmo, perto de um pequeno lago nos arredores da cidade, onde as árvores faziam sombra e o vento soprava leve. Preparou sanduíches simples, suco, algumas frutas. Pediu ajuda à mãe para organizar tudo, mas não contou o motivo completo.
— Ele é especial, né? — perguntou Clara, observando a filha dobrar cuidadosamente a toalha.
— É — respondeu Morgana, com um sorriso tímido. — Muito.
No sábado, o dia amanheceu claro. Morgana acordou cedo, com o coração acelerado. Vestiu um vestido leve, colocou um casaquinho e respirou fundo diante do espelho. Tocou de leve os lábios, sentindo um frio na barriga que não tinha nada a ver com doença ou hospital.
Era outra coisa.
Quando Thiago chegou, ficou alguns segundos sem dizer nada. Apenas olhou para ela.
— Você tá… linda — disse, finalmente.
— Você sempre diz isso — respondeu ela, rindo.
— Porque é sempre verdade.
Foram até o local do piquenique caminhando devagar. Morgana parecia mais animada do que o normal, mas também mais quieta. Thiago percebeu.
— Tá tudo bem? — perguntou.
— Tá — respondeu ela. — Só… nervosa.
Ele sorriu.
— Eu também fico quando você diz isso.
Ela riu.
Quando chegaram, Morgana estendeu a toalha no chão com cuidado. O lugar estava vazio, silencioso, perfeito. O lago refletia o céu, e o som distante dos pássaros tornava tudo ainda mais íntimo.
— Uau — disse Thiago. — Você fez tudo isso?
— Fiz — respondeu ela, orgulhosa. — Gostou?
— Muito.
Sentaram-se frente a frente. Comeram, conversaram, riram. Em alguns momentos, o silêncio se instalava, mas não era desconfortável. Era cheio de expectativa.
Depois de um tempo, Thiago pigarreou.
— Eu tenho uma coisa pra você.
— Eu sei — respondeu Morgana, sorrindo. — Mas eu também tenho.
— Então… — ele hesitou. — Quem dá primeiro?
— Você — disse ela.
Thiago tirou a caixinha do bolso. Abriu com cuidado e estendeu para ela.
— Eu vi isso e pensei em você — disse. — Não é nada demais, mas…
Morgana pegou o colar com delicadeza. Os olhos brilharam.
— É lindo — disse. — Obrigada.
Thiago levantou-se e, com cuidado, colocou o colar em seu pescoço. Os dedos tocaram sua pele de leve, fazendo Morgana prender a respiração por um segundo.
— Agora você — disse ele, sentando-se novamente.
Ela respirou fundo, pegou a sacola e entregou a ele.
— Eu juntei um tempo pra comprar — explicou. — Queria algo que fosse a sua cara.
Thiago abriu e tirou a camiseta.
— Morgana… — disse, emocionado. — Eu adorei.
— De verdade?
— De verdade.
Ele a abraçou com cuidado, como sempre fazia. Mas naquele abraço havia algo diferente. Um silêncio carregado. Um tempo suspenso.
Morgana sentiu o coração bater forte. Muito forte.
Ela se afastou um pouco, ainda com as mãos apoiadas no peito dele.
— Thiago… — começou.
— Se você não quiser… — ele disse, rápido, nervoso.
— Eu quero — interrompeu ela.
Ele ficou imóvel.
— Quero saber como é — continuou Morgana, com a voz baixa. — Quero saber como é o seu beijo.
Thiago sentiu o mundo parar por um segundo.
— Tem certeza? — perguntou, com cuidado.
Ela assentiu.
— No meu tempo — repetiu. — E agora é agora.
Ele aproximou o rosto devagar, dando espaço para que ela recuasse se quisesse. Mas Morgana não recuou. Fechou os olhos quando sentiu o toque leve dos lábios dele nos seus.
O beijo foi suave. Tímido. Um encontro delicado, cheio de respeito e descoberta. Não houve pressa. Apenas um instante que parecia eterno.
Quando se afastaram, Morgana sorriu.
— Então é assim — disse, quase rindo.
— E então? — perguntou ele, nervoso.
— É bom — respondeu ela. — Muito bom.
Thiago riu, aliviado.
— Eu tava com medo de errar.
— Eu também — confessou ela. — Mas acho que a gente acertou.
Deitaram na toalha, lado a lado, olhando o céu. As mãos se tocaram novamente, agora com mais i********e.
— Obrigado por esperar — disse Morgana, baixinho.
Thiago virou o rosto para ela.
— Obrigado por confiar.
O vento soprou leve, levando consigo o medo, a ansiedade, as dúvidas.
Naquele piquenique simples, entre risos, presentes e um beijo esperado, Morgana sentiu algo que não sentia havia muito tempo.
Plenitude.
Não porque tudo estava resolvido.
Não porque a vida tinha se tornado fácil.
Mas porque, naquele momento, o coração dela estava exatamente onde deveria estar.