Capítulo 11

1137 Words
Antes da Verdade Thiago chegou cedo ao hospital naquela manhã. O sol ainda nem tinha se firmado no céu quando ele atravessou a porta giratória ao lado da mãe. Ana caminhava com passos firmes, mas o coração também estava acelerado. Mesmo acostumada a hospitais, exames e campanhas de saúde, daquela vez tudo era diferente. Não era um projeto. Era o filho. Era uma menina que, mesmo sem saber, já fazia parte da vida deles. Thiago segurava os documentos com força, como se aquilo pudesse lhe dar algum controle sobre a situação. Estava ansioso, inquieto, tentando parecer tranquilo, mas falhando miseravelmente. — Vai dar tudo certo — disse Ana, percebendo o nervosismo. — Respira. Ele assentiu, respirando fundo. — Eu sei… só queria que isso acabasse logo. A espera é pior que tudo. — Eu imagino — respondeu ela. — Mas lembra: seja qual for o resultado final, você já fez algo enorme só por estar aqui. Thiago não respondeu. Pensava apenas em Morgana. Enquanto isso, em outro andar do hospital, Morgana não tinha tido uma boa noite. A notícia de que havia um doador deveria ter trazido descanso, mas trouxe inquietação. O corpo dela estava cansado demais para comemorar, e a mente ativa demais para dormir. Cada vez que fechava os olhos, surgiam perguntas: Quem será? Será que vai dar certo? E se algo der errado? De madrugada, precisou correr ao banheiro. O estômago embrulhado, o corpo fraco, a sensação de enjoo constante. Clara acordava sempre que ouvia qualquer movimento. — Calma, meu amor — dizia, segurando o cabelo da filha enquanto ela vomitava. — Já passa. Mas não passava fácil. Quando a manhã chegou, Morgana estava pálida, com os olhos fundos, mas determinada. Sabia que precisava se manter forte. O transplante só aconteceria se ela estivesse em condições. A enfermeira entrou com a bandeja do café da manhã. — Você precisa comer um pouco — disse com suavidade. Morgana olhou para o prato como se fosse um desafio impossível. — Mesmo que eu vomite? — perguntou, sincera. — Mesmo assim — respondeu a enfermeira. — Seu corpo precisa de energia. Clara sentou-se ao lado da filha. — Vamos tentar juntas — disse. — Um pouquinho de cada vez. Morgana respirou fundo. Pegou a colher com a mão trêmula e levou à boca. Engoliu devagar, fazendo força para manter tudo no lugar. O estômago protestou, mas ela insistiu. Não podia desistir agora. — Eu vou ficar bem — murmurou para si mesma. — Preciso ficar bem. No outro lado do hospital, Thiago já estava sendo chamado para os exames. Sangue, mais perguntas, mais orientações médicas. Ele respondia tudo no automático, a mente distante. Sabia que os resultados sairiam à tarde e que, até lá, ninguém diria oficialmente quem era o doador. Era regra. Ética. Segurança. Mas esperar era tortura. — Você pode ir ao quarto dela depois — disse uma enfermeira. — Desde que não atrapalhe os procedimentos. Thiago assentiu na mesma hora. Quando soube, por um comentário discreto no corredor, que Morgana tinha passado a noite m*l, o coração apertou. Não pensou duas vezes. Caminhou rápido até o quarto dela. Parou em frente à porta por um instante. Respirou fundo. Bateu levemente. — Entra — ouviu a voz fraca, mas reconhecível. Quando entrou, Morgana estava sentada na cama, enrolada no cobertor, o rosto mais pálido do que o habitual. Ainda assim, sorriu quando o viu. — Você veio cedo — disse. — Eu precisava te ver — respondeu ele, aproximando-se devagar. — Fiquei sabendo que você não passou bem. Ela deu de ombros. — Faz parte… às vezes o corpo resolve lembrar que tá cansado. Thiago sentou-se na cadeira ao lado da cama. — Quer água? — Já bebi bastante — respondeu ela. — Mas obrigada. Houve um pequeno silêncio. Não era desconfortável, apenas carregado de coisas não ditas. — Me contaram… — começou Thiago, escolhendo as palavras — que acharam um doador. Os olhos de Morgana brilharam. — Acharam — confirmou. — O médico contou ontem à noite. Minha mãe chorou tanto que eu achei que ia inundar o quarto. Thiago sorriu de leve. — E você? — Eu agradeci — disse ela, simples. — Seja quem for… é alguém que decidiu me dar uma chance. Isso já é muito. Ele engoliu em seco. — Você tá com medo? Morgana pensou por alguns segundos. — Tô — admitiu. — Mas não do jeito que as pessoas pensam. Não tenho medo de morrer. Tenho medo de… não viver tudo que eu ainda quero. Thiago sentiu o peito apertar. — Você vai viver — disse, firme. — Eu acredito nisso. Ela olhou para ele, surpresa com a convicção. — Você fala como se tivesse certeza. — Talvez eu tenha — respondeu, sem perceber o quanto aquelas palavras eram verdadeiras. Morgana sorriu, cansada, mas sincera. — Eu fico feliz que você esteja aqui. — Eu também — disse ele. — Sempre que você precisar. Ela respirou fundo. — Hoje sai o resultado final, né? — perguntou. — Sai — respondeu ele. — À tarde. — Então… — Morgana fechou os olhos por um instante. — Hoje é um dia grande. — É — concordou Thiago. — Um dia de espera. Ela abriu os olhos e o encarou. — Obrigada — disse, de repente. — Pelo quê? — Por não sumir — respondeu. — Muita gente some quando fica difícil. Thiago desviou o olhar por um segundo. — Eu não sou bom em ir embora — disse. — Principalmente quando alguém importa. O silêncio voltou a se instalar, mas agora era um silêncio confortável. Depois de alguns minutos, uma enfermeira entrou avisando que Morgana precisava se preparar para outro procedimento leve. Thiago se levantou. — Eu volto mais tarde — disse. — Posso? — Pode — respondeu ela. — Eu vou estar aqui. Ele sorriu e saiu, o coração batendo forte. No corredor, Ana o esperava. — Você viu ela? — perguntou. — Vi — respondeu ele. — Tá fraca, mas… forte ao mesmo tempo. É estranho. Ana assentiu. — Algumas pessoas são assim. O tempo passou devagar naquele dia. A tarde se aproximava, e com ela os resultados. Médicos se reuniam, enfermeiras iam e vinham, telefones tocavam. Cada minuto parecia mais longo que o anterior. Morgana tentou desenhar para se distrair, mas as mãos tremiam. Fechou o caderno e apenas olhou pela janela. Thiago caminhava de um lado para o outro na sala de espera, sem conseguir se sentar. — Calma — repetia Ana, mesmo sabendo que não adiantava. Quando finalmente chamaram o nome dele, o coração quase saiu pela boca. E em outro quarto, Morgana sentiu algo diferente no ar. Não sabia explicar. Mas sentia que a espera estava perto do fim. E que, muito em breve, a verdade — e o futuro — bateriam à porta.
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