Capítulo 12

1236 Words
A Espera pelo Rosto da Esperança O resultado chegou como um sopro de alívio. Tudo certo com os exames. Thiago ouviu aquelas palavras do médico como se elas precisassem ser repetidas várias vezes para fazer sentido. O profissional falava sobre datas, procedimentos, cuidados pré-operatórios, mas, por alguns segundos, Thiago só conseguiu sorrir. Um sorriso aberto, quase infantil, carregado de uma emoção que ele nunca tinha sentido antes. — Então… é amanhã — disse ele, confirmando. — Sim — respondeu o médico. — Se nada mudar, o procedimento será realizado amanhã. Você ficará internado esta noite para observação e preparação. Thiago assentiu, sentindo o coração bater forte. — Eu fico — disse, sem hesitar. Ana, ao lado dele, segurou sua mão com firmeza. Os olhos dela estavam marejados, mas o sorriso era de orgulho. — Eu sabia — murmurou. Thiago respirou fundo. Pela primeira vez desde que tudo começara, a ansiedade deu lugar a algo mais sereno. Medo ainda existia, claro. Mas agora vinha acompanhado de certeza. Ele estava exatamente onde precisava estar. Do outro lado do hospital, Morgana estava no quarto com os pais. Clara estava sentada à beira da cama, ajeitando o cobertor da filha, como fazia desde que ela era pequena. Enzo permanecia de pé, próximo à janela, olhando para fora, mas atento a cada som do corredor. Morgana segurava o caderno de desenhos no colo, mas não desenhava. Apenas passava os dedos pela capa de papel cartão, como se aquele gesto simples ajudasse a manter os pensamentos no lugar. A porta se abriu. Os três olharam ao mesmo tempo. Era o doutor Douglas. — Boa tarde — disse ele, entrando com o prontuário em mãos. Clara foi a primeira a falar. — Doutor…? Ele sorriu antes mesmo de responder. — Tudo certo com os exames — anunciou. — Se mantivermos esse quadro, amanhã faremos o procedimento. Clara levou a mão ao peito. — Graças a Deus… — sussurrou. Enzo fechou os olhos por um instante, respirando fundo, como se finalmente pudesse soltar o ar que prendia há dias. Morgana ficou em silêncio por alguns segundos. — Então… é amanhã — disse ela, com a voz calma demais para alguém de quinze anos prestes a enfrentar algo tão grande. — É — confirmou o médico. — Seu doador ficará esta noite aqui no hospital, para os preparativos. O coração de Morgana acelerou. Ela olhou para os pais e depois voltou o olhar para o doutor. — Doutor… — começou, hesitante. — Quem é ele? O médico parou por um instante. Olhou para Morgana, depois para Clara e Enzo. Havia algo de diferente em seu olhar, uma mistura de respeito e cuidado. — Ele pediu para falar pessoalmente com você — respondeu. — Achou que seria melhor assim. Morgana engoliu em seco. — Então… eu vou conhecer ele? — Vai — disse o médico. — Ainda hoje. Quando o doutor saiu, o quarto ficou em silêncio. Clara sentou-se mais perto da filha. — Você está bem? — perguntou, preocupada. Morgana assentiu devagar. — Eu acho que sim — respondeu. — Só… nervosa. — É normal — disse Enzo, aproximando-se. — Qualquer um estaria. Morgana apoiou as costas na cabeceira da cama e olhou para o teto. Ela tinha imaginado aquele momento tantas vezes. Tentara adivinhar quem poderia ser o doador: alguém da cidade? Um desconhecido? Um adulto, talvez? Nunca passou pela cabeça dela que pudesse ser alguém tão próximo. O coração batia rápido. — Mãe… — disse, de repente. — Seja quem for, eu quero agradecer. Clara sorriu, emocionada. — Ele vai saber disso — garantiu. Enquanto isso, em outro quarto, Thiago vestia a pulseira de identificação do hospital. Olhou para o próprio nome impresso ali e sentiu um frio na barriga. — Tá tudo bem? — perguntou Ana. — Tá — respondeu ele, mesmo sabendo que era uma meia-verdade. — Só… pensando. — Em quê? Thiago respirou fundo. — No que eu vou dizer pra ela — confessou. — Ela não sabe que sou eu. Ana assentiu. — E você quer contar? — Quero — respondeu ele, sem hesitar. — Eu pedi pra falar pessoalmente. — Por quê? Thiago pensou por alguns segundos. — Porque ela merece olhar nos olhos de quem decidiu estar aqui — disse. — E porque… eu precisava que ela soubesse que não está sozinha. Ana sorriu, orgulhosa. — Você cresceu muito rápido, sabia? Thiago deu um meio sorriso. — Foi ela. Mais tarde, um enfermeiro bateu à porta. — Thiago — chamou. — Está pronto? Ele se levantou imediatamente. — Estou. O caminho até o quarto de Morgana pareceu mais longo do que realmente era. Cada passo carregava expectativa, nervosismo, medo e esperança misturados. Parou em frente à porta. Respirou fundo. Bateu de leve. — Entra — ouviu a voz de Morgana. Quando ele entrou, Morgana levantou o olhar… e ficou imóvel. Por um segundo, achou que estivesse imaginando. — Thiago? — disse, confusa. Ele sorriu, um sorriso calmo, mas carregado de emoção. — Oi. Clara arregalou os olhos. — Você…? — começou, mas parou. Enzo olhou do rapaz para a filha, tentando entender. Thiago se aproximou devagar da cama. — Eu pedi pra vir falar com você pessoalmente — disse. — Porque eu achei que… você merecia saber de mim, não de um papel. O coração de Morgana parecia querer sair do peito. — O que você tá fazendo aqui? — perguntou, a voz trêmula. Thiago respirou fundo. — Eu sou o doador, Morgana. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Morgana arregalou os olhos. — Não… — murmurou. — Não pode ser… — Pode — respondeu ele, com a voz firme, mas suave. — Os exames deram compatíveis. Muito compatíveis. Os olhos de Morgana se encheram de lágrimas. — Você… você fez isso por mim? — perguntou. — Eu fiz — disse ele. — Porque você é importante pra mim. Clara levou a mão à boca, emocionada demais para falar. Enzo sentiu os olhos arderem, mas manteve a postura. Morgana começou a chorar. Não um choro de medo, mas de alívio. De gratidão. De algo tão grande que o corpo pequeno não conseguia conter. Thiago se aproximou mais e segurou a mão dela com cuidado. — Eu prometi que não ia sumir — disse. — Lembra? Ela assentiu, chorando. — Eu nunca imaginei… — sussurrou. — Nunca. — Nem eu — respondeu ele. — Mas às vezes a vida escolhe a gente pra coisas grandes. Morgana respirou fundo, tentando se acalmar. — Obrigada — disse, olhando nos olhos dele. — Obrigada por me dar essa chance. Thiago sorriu, os olhos brilhando. — Obrigado você — respondeu. — Por me ensinar a lutar. Clara finalmente conseguiu falar. — Obrigada, meu filho — disse ela, com a voz embargada. — Você não tem ideia do que isso significa pra nossa família. Thiago abaixou a cabeça, emocionado. — Eu só fiz o que era certo. Enzo se aproximou e estendeu a mão. — Você sempre terá um lugar na nossa casa — disse, firme. — Seja qual for o futuro. Thiago apertou a mão dele, sentindo o peso e a honra daquelas palavras. A noite caiu lentamente sobre o hospital. Em dois quartos diferentes, duas pessoas se preparavam para o dia seguinte. Havia medo, sim. Mas agora ele caminhava lado a lado com algo mais forte. Esperança. E ela tinha nome, rosto e um coração disposto a bater por dois.
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