O Dia em que o Caminho Mudou
Naquele dia, Morgana acordou mais cedo do que o costume. O céu ainda estava num tom indeciso entre a madrugada e a manhã, e o silêncio do campo era quebrado apenas pelo mugido distante das vacas e pelo barulho leve do vento passando pelas árvores. Ela ficou alguns minutos sentada na cama, respirando fundo, reunindo forças antes de levantar.
Era dia de médico.
Clara já estava de pé, organizando algumas coisas na cozinha. Enzo tinha saído cedo para ajeitar a carroça, pois naquele dia eles fariam entregas na cidade antes de seguir para o hospital. A rotina da família Cameron continuava, mesmo quando tudo parecia frágil demais para continuar.
Morgana se vestiu devagar, escolheu uma blusa confortável e prendeu o cabelo em uma trança simples. Olhou o próprio reflexo no espelho pequeno pendurado na parede. Estava pálida, sim, mas havia firmeza em seu olhar. Ela sabia que aquele dia chegaria. Apenas não sabia exatamente como seria.
Depois do café, ela se despediu da mãe com um abraço mais longo do que o normal.
— Qualquer coisa, me liga — disse Clara, tentando sorrir.
— Vai dar tudo certo, mãe — respondeu Morgana, com uma tranquilidade que surpreendia até a si mesma.
O ônibus escolar a deixou na frente da escola como sempre. Morgana passou parte da manhã em sala, mas logo sentiu o cansaço chegar. Pegou o caderno de carton e foi para o pátio. Desenhou sem pressa, como se cada traço fosse uma forma de organizar o que sentia por dentro.
Quando o horário se aproximou, ela fechou o caderno com cuidado e se levantou. Ao sair pelo portão da escola, encontrou o pai encostado na carroça.
Enzo estava ali, de chapéu na cabeça, camisa simples, o rosto marcado pelo sol e pelo tempo. Ao lado dele, Jujuba, o cavalo que puxava a carroça da família Cameron, balançava a cabeça calmamente, como se entendesse tudo o que estava acontecendo.
— Pai — disse Morgana, abrindo um sorriso sincero.
O sorriso de Enzo veio em resposta, cheio de orgulho e preocupação misturados.
— Pronta, filha?
Ela assentiu e subiu na carroça com cuidado. Antes de se sentar, fez um carinho no pescoço de Jujuba.
— Você vai com a gente hoje, né, menina? — falou, baixinho.
Jujuba relinchou de leve, como se respondesse.
A carroça seguiu devagar pelas ruas da cidade. Morgana gostava daquele ritmo lento. Diferente dos carros apressados, da pressa das pessoas, a carroça parecia respeitar o tempo dela. Enzo segurava as rédeas com firmeza, olhando sempre à frente, mas de vez em quando lançava um olhar rápido para a filha, certificando-se de que ela estava bem.
Enquanto isso, do outro lado da rua, Thiago saía da escola conversando com um colega. Riam de alguma coisa boba, quando o olhar dele cruzou com a carroça.
Ele reconheceu Morgana imediatamente.
Viu o jeito delicado com que ela tocava o cavalo, o sorriso tranquilo no rosto, a postura serena mesmo sendo tão jovem. Aquela imagem ficou gravada em sua mente. Ela não parecia fraca. Não parecia derrotada. Parecia… forte de um jeito que ele nunca tinha visto.
Thiago diminuiu o passo sem perceber. Seu colega continuou falando, mas as palavras ficaram distantes. Ele acompanhou a carroça com o olhar até que ela virasse a esquina.
— Você tá viajando — comentou o amigo.
— Tô nada — respondeu Thiago, mas sabia que não era verdade.
A tarde chegou silenciosa.
Depois das entregas feitas, Enzo levou Morgana até o hospital. O prédio grande, branco e frio contrastava com tudo o que ela conhecia. Ainda assim, ela entrou sem hesitar. O cheiro característico, os corredores longos, as pessoas esperando… tudo já lhe era familiar.
Sentaram-se lado a lado na sala do médico. Enzo segurava o chapéu nas mãos, apertando-o de vez em quando. Morgana mantinha as mãos sobre o colo, respirando devagar.
O médico entrou com uma pasta nas mãos. Cumprimentou os dois com cordialidade, mas havia seriedade em seu olhar.
— Morgana — começou ele —, nós analisamos seus exames mais recentes.
Ela assentiu, sem demonstrar medo.
— Como já havíamos conversado antes, chegou o momento de iniciar o tratamento mais intenso. Vamos começar a quimioterapia.
O silêncio se instalou na sala.
Enzo sentiu um nó se formar na garganta. Era diferente ouvir aquilo em voz alta. Por mais que soubesse que esse momento chegaria, doía do mesmo jeito.
Morgana, porém, não chorou.
Ela já sabia.
Desde o primeiro diagnóstico, ela entendia que aquele caminho fazia parte da luta. Não era o fim. Era um começo difícil.
— Quando começa? — perguntou, com voz firme.
O médico pareceu surpreso com a calma dela.
— Já nos próximos dias. Vamos explicar todo o processo, os efeitos colaterais, o acompanhamento…
Ele falou sobre sessões longas, sobre o corpo reagindo, sobre dias bons e dias ruins. Enzo escutava tudo com atenção, tentando memorizar cada palavra. Morgana ouvia em silêncio, absorvendo cada informação como quem se prepara para uma batalha.
— Vai doer? — perguntou ela, por fim.
O médico respirou fundo antes de responder.
— Vai ser difícil, Morgana. Não vou mentir. Mas você não estará sozinha.
Ela assentiu lentamente.
— Eu sei — disse. — Eu vou aguentar.
Quando saíram da sala, Enzo parou no corredor. Os olhos marejados denunciavam tudo o que ele tentava esconder.
— Filha… — começou.
Morgana segurou a mão dele.
— Pai, olha pra mim — pediu.
Ele obedeceu.
— A gente sempre enfrentou tudo juntos. Isso aqui não vai ser diferente.
Enzo não respondeu. Apenas a puxou para um abraço forte, daqueles que tentam proteger do mundo inteiro.
Na volta para casa, a carroça seguia no mesmo ritmo calmo. Jujuba caminhava firme, como sempre. O céu começava a ganhar tons alaranjados.
Morgana observava a paisagem e pensava em tudo o que viria. Pensava na escola, nos desenhos, no pátio, em Thiago — aquele garoto diferente que havia sentado ao lado dela sem invadir, sem pressionar.
Ela não sabia o que o futuro reservava. Mas sabia de uma coisa: não iria fugir.
A quimioterapia começaria. A dor viria. O medo também.
Mas Morgana Cameron não chorou naquele dia.
Porque, no fundo, ela já tinha decidido lutar.