O Pedido
A manhã nasceu calma na pequena propriedade dos Cameron.
O sol ainda subia devagar por trás das árvores, espalhando uma luz dourada sobre o pasto, a carroça encostada perto do galpão, o cheiro de leite fresco misturado com o de café passado na hora. Para Morgana, aquele cenário simples tinha ganhado um significado enorme: era a prova de que ela tinha voltado. Voltado para casa. Voltado para a vida.
Ela estava sentada na varanda, enrolada em um casaco leve, um caderno de desenho apoiado nas pernas. Os fios de cabelo começavam a crescer, ainda curtos, fininhos, mas para ela eram a coisa mais bonita do mundo. Cada milímetro era uma vitória.
Morgana desenhava sem pressa, deixando o lápis correr solto. Não era um desenho complexo — apenas uma estrada, duas figuras caminhando lado a lado. Mesmo assim, havia sentimento em cada traço.
Dentro de casa, Clara observava a filha pela janela, com um sorriso sereno. Enzo terminava alguns afazeres no quintal, mas de vez em quando também lançava um olhar discreto para a varanda. Os dois sabiam: Morgana estava diferente. Mais quieta, talvez, mas também mais consciente de tudo ao redor.
— Ele vem hoje, né? — perguntou Clara, em tom casual.
Morgana ergueu os olhos do caderno.
— Vem — respondeu, sentindo o coração acelerar um pouco. — Disse que passaria mais tarde.
Clara sorriu de leve.
— A casa está cheia de vida de novo — comentou. — É bom.
Morgana sorriu também, mas não disse nada. Havia um aperto bom dentro do peito, uma mistura de expectativa e nervosismo que ela ainda não sabia nomear direito.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, Thiago andava de um lado para o outro no quarto.
Já tinha trocado de roupa duas vezes. Sentava na cama, levantava, passava a mão no cabelo, respirava fundo. Ana o observava encostada na porta, com aquele olhar de mãe que enxerga muito além das palavras.
— Você vai furar o chão assim — disse ela, divertida.
— Mãe… — respondeu ele, parando por um instante. — E se eu falar besteira?
— Você sempre fala — respondeu Ana, rindo. — E mesmo assim, o mundo não acaba.
Thiago suspirou.
— Eu tô nervoso.
Ana se aproximou e ajeitou a gola da camisa dele.
— Escuta aqui — disse, olhando firme nos olhos do filho. — Você não precisa fazer um discurso bonito. Só precisa ser sincero.
— Eu sei… — murmurou. — Mas é a Morgana. Ela passou por tanta coisa…
— Justamente por isso — interrompeu Ana. — Ela sabe reconhecer quando alguém fala com o coração.
Thiago assentiu devagar.
— Eu não quero assustar ela.
— Então não assusta — respondeu Ana. — Convida. Caminha junto. O resto, o tempo ajeita.
Ele respirou fundo.
— Obrigado, mãe.
Ana sorriu.
— Vai lá. E não demora pra voltar… ou demora, se for por um bom motivo.
Thiago saiu, sentindo o peso e a leveza daquele momento ao mesmo tempo.
Quando chegou à propriedade dos Cameron, o portão estava aberto, como Enzo tinha prometido. Jujuba, o cavalo, pastava tranquilamente perto da cerca. O lugar parecia respirar paz.
Enzo foi o primeiro a vê-lo.
— Chegou cedo, rapaz — disse, limpando as mãos em um pano.
— Eu… — Thiago sorriu, sem graça. — Queria aproveitar o dia.
— Ela tá na varanda — respondeu Enzo, com um olhar que dizia mais do que palavras. — Vai lá.
Thiago caminhou devagar, sentindo o coração bater forte. Quando Morgana o viu, fechou o caderno e sorriu daquele jeito que sempre desmontava qualquer defesa dele.
— Oi — disse ela.
— Oi — respondeu ele, sentando-se ao lado dela. — Como você tá hoje?
— Melhor — disse Morgana. — Cansada… mas feliz.
— Dá pra ver — comentou Thiago. — Você parece… em casa.
— Porque eu estou — respondeu ela, olhando em volta. — E você faz parte disso agora.
Thiago engoliu em seco.
Ficaram alguns segundos em silêncio, apenas ouvindo os sons da fazenda, o vento, os passos de Clara dentro de casa.
— Morgana… — começou ele, a voz um pouco tensa.
Ela virou o rosto para ele.
— O que foi?
Thiago respirou fundo. Lembrou-se das palavras da mãe: seja sincero.
— Eu fiquei pensando muito nesses últimos dias — disse. — No hospital, depois… em tudo que aconteceu.
Morgana o observava atentamente.
— Eu também — confessou ela.
— Quando eu te conheci — continuou Thiago — você tava desenhando, quieta, no pátio. Eu nunca imaginei que… — ele sorriu de leve — que minha vida ia mudar daquele jeito.
Morgana sentiu o coração acelerar.
— A minha também mudou — disse, baixinho.
Thiago passou a mão pelas pernas, nervoso.
— Eu não sei o que vai acontecer daqui pra frente — falou. — Sei que ainda tem tratamento, cuidados, dias difíceis… Mas eu sei de uma coisa.
Ele olhou diretamente para ela.
— Eu quero estar com você. Não só como amigo que visita. Não só como alguém que passou por isso com você. Eu quero caminhar do teu lado… de verdade.
Morgana sentiu os olhos marejarem.
— Thiago…
— Eu não tô te pedindo nada que você não queira — apressou-se ele. — Não tô prometendo um conto de fadas. Só… — respirou fundo — tô te pedindo pra gente tentar. Pra você ser minha namorada.
O silêncio caiu entre eles.
Morgana fechou os olhos por um instante. O coração batia forte, mas não havia medo ali. Havia cuidado. Consciência. Verdade.
Ela abriu os olhos e sorriu.
— Você sabe — disse ela — que eu não sou como as meninas da sua idade, né?
Thiago sorriu de volta.
— Eu sei. E é por isso mesmo.
— Eu tenho dias bons… e dias ruins — continuou Morgana. — Tenho limites. Tenho medo às vezes.
— Eu também — respondeu ele. — A diferença é que agora eu sei que não preciso fingir que não tenho.
Ela respirou fundo.
— Eu não sei como vai ser — disse. — Mas eu sei que… quando você tá perto, tudo fica menos pesado.
Thiago sentiu o coração quase sair pela boca.
— Isso é um “sim”? — perguntou, com um sorriso nervoso.
Morgana riu baixinho, emocionada.
— É — respondeu. — Um sim consciente. Um sim do jeito que eu posso.
Thiago sorriu, aliviado, feliz, inteiro.
— Então… — disse ele — eu prometo respeitar teu tempo, teus dias bons e ruins. Prometo ficar.
Morgana estendeu a mão, e ele segurou com cuidado.
— E eu prometo viver — respondeu ela. — Não só sobreviver.
Da porta da casa, Clara observava a cena com lágrimas nos olhos. Enzo, ao lado dela, colocou a mão sobre o ombro da esposa.
— Parece que o pedido foi aceito — murmurou ele.
— Parece que a vida venceu mais uma vez — respondeu Clara.
Na varanda, Thiago e Morgana ficaram ali, mãos dadas, olhando o horizonte simples da fazenda. Não havia pressa. Não havia promessas exageradas.
Só a certeza de que, depois de tudo o que tinham enfrentado, escolher estar juntos era o gesto mais corajoso de todos.
O destino tinha colocado a mão.
Eles, finalmente, tinham aceitado.