Capítulo 4

903 Words
Quando o Vento Toca a Pele Os cabelos de Morgana sempre foram motivo de comentário. Longos, lisos, escuros, iam bem além da cintura e balançavam como uma extensão da própria alma dela. Clara costumava dizer que aquele cabelo carregava a história da família, o tempo do campo, o cuidado simples de quem não tinha muito, mas cuidava bem do que tinha. Morgana gostava deles. Não por vaidade, mas porque eram parte de quem ela era. Por isso, quando o médico falou que, com a quimioterapia, o cabelo cairia, a notícia doeu mais do que ela esperava. Não era só estética. Era exposição. Era o mundo inteiro sabendo, sem que ela precisasse dizer uma palavra. Ela não queria olhares de pena. Não queria cochichos. Não queria ser “a menina doente”. Mas sabia que não havia escolha. Naquela noite, sentada à mesa da cozinha, Morgana passou os dedos lentamente pelos fios compridos enquanto Clara observava em silêncio. Enzo estava encostado na porta, o chapéu nas mãos. — Quando começar a cair… — Morgana disse, com a voz baixa — eu vou raspar. Clara levou a mão ao peito. — Tem certeza, filha? — Tenho. Prefiro escolher do que esperar. O silêncio se instalou por alguns segundos, até que Enzo se aproximou. — Então não vai ser sozinha — disse ele, firme. Morgana levantou os olhos. — Como assim? — No dia que você cortar o cabelo… eu corto o meu também. Ela sentiu algo apertar no peito. Um nó de amor, de dor e de gratidão misturados. Levantou-se e o abraçou com força. — Obrigada, pai. Ele não respondeu. Apenas segurou a filha como se pudesse protegê-la de tudo. Na escola, os rumores corriam. Sempre corriam. As pessoas percebiam as ausências, o cansaço, o fato de Morgana passar mais tempo no pátio do que na sala. Ela sentia os olhares, mas mantinha a cabeça erguida. Ainda não estava pronta para que todos soubessem. Naquela manhã, porém, o clima estava diferente. No corredor principal, uma discussão chamava atenção. Voz alta. Choro. Passos apressados. Renata. Renata era conhecida. Bonita, segura de si, acostumada a conseguir o que queria. Tinha ficado com Thiago algumas vezes desde que ele chegara à escola e, para ela, aquilo significava algo a mais. Para Thiago, não. — Você não pode simplesmente me ignorar! — ela dizia, exaltada. Thiago estava encostado na parede, braços cruzados, expressão cansada. — Renata, eu já falei. Não vai rolar mais nada. — Por quê? Por causa daquela garota estranha do pátio? A palavra atingiu algo dentro dele. — Não é da sua conta — respondeu, seco. Renata riu, nervosa. — Você acha que é melhor do que eu agora? — Não — disse ele. — Eu só cansei. Ela ficou ali, parada, sem aceitar. Alguns alunos observavam de longe. Thiago respirou fundo e se afastou, ignorando os protestos. Precisava sair dali. Precisava de silêncio. Foi direto para o pátio. Morgana estava sentada no banco de sempre, com o caderno de carton aberto no colo. Desenhava sem pressa, o cabelo caindo como uma cortina ao redor do rosto. Ela não percebeu quando ele se aproximou. — Posso ficar? — perguntou ele, baixo. Ela levantou os olhos. — Claro. Thiago se sentou ao lado dela. Ali, naquele espaço, as pessoas não iam. Era como se o pátio tivesse criado uma bolha própria, longe dos corredores, dos comentários e das expectativas. Ele enfiou a mão no bolso da jaqueta e tirou uma pequena caixinha. Abriu, pegou um e colocou na boca. Morgana observou o gesto com curiosidade. Thiago percebeu. — Quer? Ela franziu levemente o cenho, desconfiada. — O que é? Ele sorriu, daquele jeito simples que não tentava impressionar. — Chiclete. Juro. Estendeu a mão, mostrando. Morgana hesitou por um segundo, depois pegou. — Obrigada. Colocou o chiclete na boca, ainda observando a reação dele, como se esperasse alguma brincadeira. Não houve. Ficaram ali, mascando em silêncio. — Você tá bem? — ele perguntou, depois de um tempo. Ela pensou antes de responder. — Tô… do meu jeito. Thiago assentiu. Não pressionou. Pela primeira vez, alguém não parecia querer respostas completas. — Eu vi você indo embora com seu pai outro dia — comentou. — Na carroça. Ela sorriu de leve. — É nosso transporte. — É… bonito — disse ele, sincero. — Parece que o tempo anda mais devagar. Morgana olhou para o horizonte. — Às vezes isso é bom. O vento soprou, levantando levemente os cabelos longos dela. Thiago observou sem dizer nada. Não sabia ainda, mas aquele cabelo tinha data para ir embora. E, estranhamente, ele sentiu que queria guardar aquela imagem. — Você desenha como se estivesse lutando — disse ele, de repente. Ela virou o rosto para ele. — Como assim? — Como se cada traço fosse uma forma de continuar. Morgana engoliu em seco. — Talvez seja. O sinal tocou ao longe, mas nenhum dos dois se mexeu. — Posso ficar aqui mais vezes? — ele perguntou. — Pode — respondeu ela, simples. Ali, no pátio, longe do barulho do mundo, Morgana sentiu algo diferente. Não era paixão. Não era promessa. Era presença. E, naquele momento em que o futuro parecia incerto, isso era mais do que suficiente. Ela sabia que perderia o cabelo. Sabia que todos saberiam. Sabia que teria que abaixar a cabeça às vezes. Mas também sabia que não estaria sozinha. E isso fazia toda a diferença.
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