Capítulo 5

979 Words
O Nome da Verdade Os dias passaram devagar, como se o tempo tivesse aprendido a respeitar o ritmo de Morgana. Havia manhãs em que ela acordava melhor, outras em que o corpo parecia pesado demais para uma garota de quinze anos. Ainda assim, ela seguia. Ia à escola quando conseguia, sentava no pátio quando precisava, desenhava sempre que o mundo ficava grande demais. Mas havia um dia marcado. O dia de cortar o cabelo. Morgana não falou muito sobre isso. Não fez drama, não reclamou, não pediu adiamento. Apenas aceitou. Talvez porque sabia que algumas batalhas não permitem fuga. Talvez porque, no fundo, ela já estivesse se preparando havia tempo. Naquela manhã, Clara ajudou a filha a escovar os cabelos longos pela última vez. Os fios desciam abaixo da cintura, brilhando sob a luz suave que entrava pela janela. Clara tentava ser forte, mas as mãos tremiam levemente. — Se quiser parar… — começou a dizer. — Não quero — interrompeu Morgana, com doçura. — Vamos logo. Enzo aguardava do lado de fora. Ele não falava muito desde que a data foi marcada, mas havia decidido: naquele mesmo dia, também cortaria o próprio cabelo. Não por obrigação. Por amor. O hospital estava silencioso quando chegaram. Morgana foi levada para uma sala simples, clara, com uma cadeira no centro. Sobre a mesa, tesouras, máquina de cortar cabelo e sacos próprios para armazenar os fios. O cabelo seria usado para fazer uma peruca. Não para ela. Para outra menina. Para alguém que ainda precisaria daquele conforto. A enfermeira sorriu com cuidado, tentando deixar o momento menos pesado. — Quer que a gente corte curto primeiro? — perguntou, com delicadeza. Morgana respirou fundo. Pensou por um segundo. Depois levantou o olhar, firme. — Não. — Tem certeza? — Pode raspar. A enfermeira assentiu, respeitosa. Clara fechou os olhos quando a máquina começou a funcionar. O som parecia alto demais naquele espaço pequeno. Morgana sentiu os fios caírem, um a um, tocando seus ombros, depois o chão. Não chorou. Não desviou o olhar do espelho. Quando terminou, passou a mão devagar pela cabeça agora lisa. Estranhou o toque. Estranhou o frio. Estranhou o reflexo. Mas não abaixou a cabeça. — Pronto — disse, com um fio de voz. — Agora começou de verdade. Enzo entrou na sala logo depois. Olhou para a filha por um longo instante. O coração apertou, mas ele sorriu. — Ficou linda — disse, e não era mentira. Ela sorriu de volta. No mesmo dia, ele cumpriu a promessa. Sentou-se na cadeira de um pequeno salão perto do hospital e deixou que raspassem seu cabelo também. Quando voltou, Morgana passou a mão na cabeça dele e riu baixinho. — Agora estamos iguais. — Sempre estivemos — respondeu ele. Enquanto isso, na escola, Thiago sentia que algo estava errado. Morgana não tinha aparecido nos últimos dias. Nenhum desenho no pátio. Nenhum sorriso tímido. Nenhum chiclete dividido em silêncio. Aquilo começou a incomodá-lo mais do que ele gostaria de admitir. Ele sabia que os professores sabiam de algo. Sabia porque o tratamento dado a ela era diferente. Mais cuidadoso. Mais atento. E isso despertou nele uma inquietação que não dava mais para ignorar. Thiago estava no terceiro ano do ensino médio. Tinha aula com alguns dos mesmos professores de Morgana. E decidiu que era por ali que começaria. Naquela tarde, ficou depois da aula. Aproximou-se da professora de literatura, uma mulher atenta, conhecida pela sensibilidade com os alunos. — Professora… — começou, tentando parecer casual. — Posso te perguntar uma coisa? Ela o olhou com curiosidade. — Claro, Thiago. — A Morgana… — disse, escolhendo as palavras. — Ela tá bem? A professora suspirou levemente. Hesitou. Aquela não era uma informação qualquer. — Por que você pergunta? — Porque ela não vem mais… e eu… — ele parou, engoliu em seco. — Eu me preocupo. O silêncio se alongou por alguns segundos. A professora observou o rosto dele, procurando ali alguma intenção errada. Não encontrou. — Você gosta dela? — perguntou, com cuidado. Thiago ficou vermelho. — Eu não sei — respondeu, honesto. — Mas ela importa. A professora fechou a porta da sala antes de continuar. — Thiago… isso não é algo que a gente sai contando. Mas eu acredito que você merece saber, se promete respeito. Ele assentiu imediatamente. — Eu prometo. Ela respirou fundo. — A Morgana tem câncer. A palavra caiu como um peso. Câncer. Thiago sentiu o chão desaparecer por um instante. Tudo o que ele imaginava — anemia, depressão, algum problema passageiro — se desfez naquele momento. — Não… — murmurou. — Ela… ela é tão nova. — Eu sei — respondeu a professora. — E mesmo assim, é uma das alunas mais fortes que já vi. Thiago saiu da sala sem saber exatamente como chegou ao corredor. As vozes ao redor pareciam distantes. A imagem de Morgana no pátio, desenhando calmamente, voltou com força. Ela sabia. Ela sempre soube. E nunca reclamou. Naquele instante, Thiago sentiu vergonha de todas as vezes que reclamou da própria vida, das regras, dos pais, da escola. Tudo pareceu pequeno demais diante da luta silenciosa dela. Câncer. A palavra ecoava na cabeça dele enquanto caminhava para fora da escola. Não conseguia imaginar como uma garota tão jovem carregava algo tão pesado com tanta dignidade. E, mais do que isso, percebeu algo importante: Morgana nunca contou porque não queria ser definida pela doença. Ela queria ser vista como pessoa. Thiago parou no meio do caminho, respirou fundo e tomou uma decisão. Ele não iria tratá-la diferente. Não iria ter pena. Não iria invadir o espaço dela. Mas também não iria embora. Porque agora que sabia a verdade, entendia que ficar era um ato de coragem — tanto quanto lutar. E Morgana Cameron, mesmo sem cabelo, mesmo sem saber, tinha acabado de mudar a forma como ele enxergava o mundo inteiro.
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