De Cabeça Erguida
No dia seguinte, Morgana acordou determinada.
Não havia espaço para hesitação naquela manhã. O espelho devolveu a imagem que ainda parecia estranha: a cabeça lisa, a pele clara muito mais aparente, os traços do rosto agora expostos sem o abrigo dos cabelos longos. O frio da manhã tocou direto o couro cabeludo, fazendo-a estremecer levemente.
Ela respirou fundo.
Não iria voltar atrás.
Vestiu-se com calma e, antes de sair do quarto, pegou um casaco com capuz. Não como forma de esconder quem era, mas como um escudo temporário, um jeito de se preparar para o mundo lá fora. Clara a observou da porta, com o coração apertado e orgulho transbordando.
— Tem certeza, filha? — perguntou, uma última vez.
— Tenho, mãe — respondeu Morgana. — Já passou da hora de enfrentar.
Enzo a levou até o ponto do ônibus escolar. Antes de ela subir, ele ajeitou o capuz dela com cuidado, como fazia quando ela era pequena.
— Cabeça erguida — disse.
— Sempre — respondeu Morgana, com um sorriso breve.
A escola estava mais barulhenta do que o normal. Ou talvez fosse só a percepção dela, mais aguçada naquele dia. Morgana caminhou pelos corredores sentindo os olhares antes mesmo de vê-los. Alguns curiosos, outros confusos, alguns claramente cheios de pena. Ela não respondeu a nenhum.
Entrou na sala de aula e foi direto para sua carteira. Sentou-se, colocou a mochila ao lado da cadeira e ficou ali, em silêncio, esperando a aula começar.
Ela sabia das regras. Sabia que não podia usar boné, lenço, nada que cobrisse a cabeça. O capuz era apenas até o início da aula. Um último momento de proteção.
Quando o professor Rey entrou, o burburinho diminuiu. Ele era um homem sério, justo, conhecido por seguir as normas à risca, mas também por respeitar os alunos.
A aula m*l havia começado quando ele caminhou até a mesa de Morgana.
— Senhorita Cameron — disse, em tom calmo —, você sabe das regras da escola.
O coração de Morgana acelerou por um segundo. Ela assentiu lentamente.
Sem dizer uma palavra, levou as mãos até o capuz e o retirou.
O silêncio caiu sobre a sala como um peso.
Todos olharam.
Alguns arregalaram os olhos. Outros levaram a mão à boca. Houve quem desviasse o olhar, sem saber como reagir. Morgana sentiu o calor subir pelo rosto, sentiu a exposição crua, direta, inevitável.
Mas não disse nada.
Não explicou.
Não se justificou.
Não chorou.
Apenas permaneceu ali, sentada, de cabeça erguida.
O professor Rey observou por um instante, compreendendo mais do que parecia.
— Muito bem — disse ele, retomando a postura profissional. — Vamos continuar.
E continuou a aula como se nada tivesse acontecido.
Mas tudo tinha acontecido.
Durante o restante do tempo, Morgana m*l conseguiu se concentrar. Sentia os cochichos, os olhares rápidos, as perguntas não feitas. Sabia que aquilo iria acontecer. Tinha se preparado para isso. Ainda assim, doía.
Quando o sinal tocou, ela se levantou rapidamente e saiu da sala antes que alguém tentasse falar com ela. Precisava de ar. Precisava de espaço.
Foi direto para o pátio.
Sentou-se no banco de sempre, fechou os olhos e respirou fundo. O vento tocou direto sua cabeça, e ela sentiu o frio misturado a uma estranha sensação de liberdade. Pela primeira vez desde o diagnóstico, ela estava exatamente como era. Sem esconder nada.
Mas era cansativo.
Do outro lado da escola, Thiago estava na biblioteca, concentrado em um trabalho. Livros abertos, caderno cheio de anotações. Tentava se focar, mas algo o incomodava desde cedo.
Foi então que ouviu o burburinho.
— Você viu a Morgana?
— Ela cortou o cabelo…
— Dizem que foi por causa da doença…
Thiago levantou a cabeça imediatamente.
O coração acelerou.
Ele fechou o caderno sem pensar duas vezes e saiu da biblioteca. Andou rápido pelos corredores, ignorando os olhares curiosos, até chegar ao pátio.
E então a viu.
Morgana estava sentada no banco, olhos fechados, o rosto voltado para o céu. A cabeça raspada deixava seu rosto ainda mais delicado, mais real. Não parecia fraca. Parecia… exposta.
Thiago parou por um instante.
Não sabia o que fazer.
Não sabia se falava, se ficava em silêncio, se sentava ou se simplesmente respeitava aquele momento. Tudo o que ele ensaiou dizer morreu antes de chegar à boca.
Ele se aproximou devagar.
— Você não tá desenhando hoje — disse, por fim, em voz baixa.
Morgana não abriu os olhos de imediato.
— Hoje não — respondeu, com calma. — Só tô respirando.
Houve um breve silêncio.
— Você sumiu — completou ela, ainda de olhos fechados.
Thiago engoliu em seco.
— Eu estive por aí… tentando entender algumas coisas.
Ela abriu os olhos então. O olhar encontrou o dele, e havia cansaço ali, mas também firmeza.
— Tá difícil — disse Morgana, sem rodeios. — Mas eu tô de volta.
E sorriu.
Um sorriso simples, verdadeiro, daquele que não pede nada em troca.
Thiago sentiu algo apertar no peito. Sentou-se ao lado dela, como já tinha feito antes, mas agora tudo parecia diferente. Mais intenso. Mais real.
— Eu te admiro, Morgana — disse, sem pensar demais.
Ela franziu levemente o cenho.
— Por quê?
— Porque você não se esconde — respondeu ele. — Mesmo quando teria todo o direito.
Morgana desviou o olhar por um instante.
— Às vezes eu queria poder me esconder — confessou. — Mas isso não ia mudar nada.
Thiago assentiu.
— Eu sei agora — disse, com cuidado.
Ela olhou para ele, entendendo o que aquelas palavras significavam.
— Sabia que você ia descobrir — falou, sem raiva. — Todo mundo descobre.
— Eu prometo que não vou te tratar diferente — disse ele, rápido. — Não por isso.
Morgana sorriu de novo, um pouco mais suave.
— É tudo o que eu quero.
Ficaram ali, em silêncio, dividindo o vento, o barulho distante da escola, o peso de um dia difícil. Pela primeira vez desde que tirara o capuz, Morgana sentiu que podia simplesmente existir, sem explicações.
Ela sabia que os comentários continuariam.
Sabia que os olhares não cessariam tão cedo.
Sabia que a luta estava apenas começando.
Mas também sabia que não estava sozinha.
E, naquele pátio simples, de cabeça erguida e olhos abertos para o mundo, Morgana Cameron seguia — não apesar da doença, mas com coragem suficiente para enfrentá-la.