À Mesa dos Storn
Uma semana.
Era pouco tempo no calendário, mas para Morgana parecia uma vida inteira. Uma semana desde que voltara à escola, desde que retomara rotinas simples como pegar o ônibus, sentar-se no pátio, ouvir o burburinho dos corredores. Uma semana desde que assumira, sem esconder, que estava viva — com cicatrizes, com limites, mas viva.
Naquela tarde, o sol começava a se pôr sobre a pequena propriedade dos Cameron quando uma caminhonete elegante parou em frente à casa simples. O barulho do motor chamou a atenção de Enzo, que ajeitava as ferramentas no galpão, e de Clara, que estendia roupas no varal.
— Você tá esperando alguém? — perguntou Clara, curiosa.
— Não — respondeu Enzo, limpando as mãos na calça. — Mas vamos descobrir.
A porta da caminhonete se abriu, e Ana Storn desceu com um sorriso aberto no rosto. Vestia-se de forma simples, mas elegante, e carregava uma pequena caixa nas mãos.
— Boa tarde — disse, aproximando-se. — Espero não estar incomodando.
Clara sorriu imediatamente.
— De forma alguma. Seja bem-vinda.
Ana apertou a mão de Clara com carinho e, em seguida, a de Enzo.
— Sou Ana, mãe do Thiago.
— Ah — disse Enzo, entendendo na hora. — Entre, por favor.
Morgana, que estava sentada na varanda desenhando, levantou-se assim que viu quem era. O coração acelerou. Era a primeira vez que a mãe de Thiago ia até sua casa.
— Oi, Morgana — disse Ana, com a voz suave. — Posso te dar um abraço?
Morgana sorriu, surpresa, mas abriu os braços.
— Claro.
O abraço foi delicado, respeitoso, cheio de cuidado — como se Ana soubesse exatamente o quanto aquele gesto significava.
— Eu trouxe um convite — disse Ana, depois. — Gostaria muito que vocês viessem jantar conosco amanhã à noite. Um jantar de família. Nada formal… só um momento pra nos conhecermos melhor.
Morgana sentiu um frio na barriga.
— Na casa de vocês? — perguntou, com cautela.
— Na nossa casa — confirmou Ana. — Se vocês se sentirem à vontade, é claro.
Clara olhou para Morgana, depois para Enzo. O pai da garota pigarreou antes de responder.
— Será um prazer — disse ele. — Não é, filha?
Morgana assentiu, ainda um pouco insegura.
— Vai ser a primeira vez que ela vai à casa de alguém assim… — explicou Clara.
Ana tocou de leve no braço de Morgana.
— Então faremos com que seja especial — disse. — Sem pressa, sem cobrança. Do jeito dela.
Morgana sorriu, sentindo o nó no peito se desfazer um pouco.
Naquela noite, Thiago ligou assim que soube da visita.
— Minha mãe foi aí, né? — perguntou, animado.
— Foi — respondeu Morgana. — E me deixou nervosa.
Ele riu.
— Relaxa. Eles já gostam de você.
— Eu ainda nem fui lá…
— Gostam mesmo assim.
O dia seguinte passou devagar. Morgana escolheu a roupa com cuidado: um vestido simples, confortável, que cobria bem os braços e caía suavemente sobre o corpo ainda magro. Clara ajudou a arrumar seu cabelo curto, com delicadeza.
— Você está linda — disse a mãe, emocionada.
— Espero que eles gostem — respondeu Morgana.
— Eles vão gostar de quem você é — disse Enzo, firme. — E isso é mais do que suficiente.
A casa dos Storn era grande, iluminada, cercada por um jardim bem cuidado. Quando chegaram, Thiago já os esperava na porta. Assim que viu Morgana descer do carro, abriu um sorriso largo.
— Você veio — disse, como se ainda fosse uma surpresa.
— Eu disse que vinha — respondeu ela, sorrindo.
Ele segurou a mão dela, com cuidado, e a conduziu para dentro.
O pai de Thiago, Roberto Storn, levantou-se do sofá assim que os viu entrar. Era um homem alto, de postura firme, olhar atento. Aproximou-se de Morgana e estendeu a mão.
— Então você é a Morgana — disse. — Prazer em conhecê-la.
— O prazer é meu, senhor — respondeu ela, educada.
Ele a observou por um instante, avaliando não sua aparência, mas sua postura, o modo como sustentava o olhar.
— Pode me chamar de Roberto — disse, por fim.
Durante o jantar, a conversa fluiu de forma surpreendentemente natural. Ana falava com Clara sobre a escola, sobre cuidados, sobre rotina. Enzo e Roberto conversavam sobre trabalho, sobre o campo, sobre responsabilidade.
Em vários momentos, Roberto observava o filho em silêncio. Via Thiago atento, respeitoso, diferente do rapaz impulsivo de antes. E sabia exatamente o motivo.
— Thiago mudou bastante — comentou Roberto, em certo momento, olhando para Morgana. — E isso não passou despercebido.
Morgana abaixou os olhos, sem saber o que dizer.
— Mudou pra melhor — completou ele. — Aprendeu a ouvir. A ter limites. A dar valor ao que importa.
Thiago pigarreou, sem jeito.
— Pai…
— É um elogio — disse Roberto. — E, sinceramente, eu admiro você, Morgana.
Ela levantou o olhar, surpresa.
— Eu?
— Sim — confirmou ele. — Nem todo mundo enfrenta a vida de frente como você fez. E nem todo mundo consegue influenciar alguém só sendo quem é.
Morgana sentiu os olhos marejarem, mas conteve a emoção.
— Obrigada — disse, baixinho.
Ana sorriu, orgulhosa.
Depois do jantar, Morgana e Thiago foram até o jardim. A noite estava fresca, o céu limpo, cheio de estrelas.
— E então? — perguntou ele. — Sobreviveu?
— Sobrevivi — respondeu ela, rindo. — Sua mãe é incrível.
— Meu pai também gosta muito de você — disse Thiago. — Ele não fala muito, mas quando fala…
— Eu percebi — respondeu Morgana.
Ela respirou fundo.
— Sabe… eu fiquei com medo — confessou. — De não me encaixar. De ser… diferente demais.
Thiago segurou o rosto dela com cuidado.
— Você é diferente — disse. — E é exatamente isso que te faz especial.
Ela sorriu.
Dentro da casa, Ana observava os dois pela janela.
— Ela é uma menina rara — disse, em voz baixa.
Roberto assentiu.
— E colocou nosso filho no eixo — respondeu. — Isso não tem preço.
Naquela noite, quando os Cameron se despediram e voltaram para casa, Morgana encostou a cabeça no vidro do carro, exausta, mas feliz.
— Foi bom — disse ela.
— Foi mais do que bom — respondeu Clara. — Foi acolhedor.
Morgana fechou os olhos por um instante.
Pela primeira vez desde o diagnóstico, sentia que não estava apenas sendo cuidada…
Estava sendo aceita.
E isso, para ela, significava tudo.