Capítulo 7

1056 Words
Quando o Tempo Aprende a Esperar O vento passava leve pelo pátio naquela tarde, mas dentro de Morgana havia uma inquietação que não se movia com a mesma suavidade. Ela continuava sentada no banco, ao lado de Thiago, observando o céu como se pudesse encontrar ali alguma resposta. A escola seguia seu ritmo normal — risadas ao longe, passos apressados, o sinal tocando —, mas para ela o tempo já começava a desacelerar. Morgana respirou fundo antes de falar. Sabia que, a partir daquele momento, tudo mudaria mais uma vez. — Daqui uns dias… — começou, com a voz baixa, mas firme — eu não vou poder mais vir pra escola. Thiago virou o rosto imediatamente para ela. — Como assim? Ela juntou as mãos no colo, olhando para elas por alguns segundos antes de continuar. — Vou ter que ficar internada. Os médicos disseram que é melhor acompanhar tudo de perto… até conseguirem um doador. A palavra ficou suspensa no ar. Doador. Thiago sentiu um arrepio percorrer o corpo. Ele já tinha ouvido aquela palavra antes, em filmes, em notícias distantes, mas nunca tinha soado tão pesada quanto naquele instante. — Um doador de… — ele começou, mas parou, com medo de dizer algo errado. — Medula — completou Morgana, com naturalidade. — Eles estão procurando alguém compatível. Ela falava como quem explica algo simples, quase cotidiano. Mas Thiago sabia que não era. Viu nos olhos dela um cansaço profundo, misturado a uma aceitação que assustava. Ele ficou em silêncio por alguns segundos, encarando o chão. Um doador devia ser difícil de encontrar. Muito difícil. Pensou em quantas pessoas passavam por ela todos os dias sem saber da batalha que acontecia dentro daquele corpo frágil e forte ao mesmo tempo. Pensou em como o mundo parecia injusto ao exigir tanto de alguém tão jovem. — E você… — ele disse, por fim — você tá com medo? Morgana inclinou a cabeça levemente, como se ponderasse a pergunta. — Tô — respondeu, honesta. — Mas não é aquele medo que paralisa. É mais… um medo que me lembra que eu quero viver. Thiago engoliu em seco. — Você devia estar preocupada com prova, com nota, com essas coisas — murmurou. — Não com isso. Ela sorriu de leve. — Também acho. Mas a vida não perguntou o que eu queria. O silêncio voltou a se instalar entre eles, mas agora era um silêncio carregado de pensamentos. Thiago observava Morgana, a cabeça raspada, o rosto sereno, e sentia algo crescer dentro dele — uma mistura de revolta, admiração e um desejo imenso de fazer alguma coisa, qualquer coisa. — Eu posso… — ele começou, hesitando — eu posso ir te visitar no hospital? A pergunta saiu quase tímida, como se ele estivesse pedindo algo muito grande. Morgana virou o rosto para ele. Por um instante, seus olhos pareceram brilhar mais do que o normal. — Se você quiser — respondeu ela, com suavidade. — Vai ser bem-vindo. Thiago soltou o ar que nem percebeu que estava prendendo. — Eu quero — disse, sem hesitar. — De verdade. Ela assentiu, satisfeita, como se aquilo confirmasse algo que já suspeitava. — Lá é meio chato — avisou. — Tem cheiro de remédio, barulho de máquina… e dias em que eu fico muito cansada. — Eu não me importo — respondeu ele. — Posso só ficar sentado, se você quiser. — Às vezes isso é o melhor — disse Morgana. O sinal tocou novamente, avisando o fim do intervalo. Alguns alunos começaram a atravessar o pátio, mas nenhum dos dois se levantou de imediato. Thiago sentia que aquele momento era importante demais para ser interrompido pela rotina. — Quando você vai? — perguntou. — Semana que vem — respondeu ela. — Meus pais já estão se organizando. Vai ser… diferente. Thiago assentiu, sentindo um aperto no peito ao imaginar o pátio vazio, o banco sem Morgana, o caderno de desenhos fechado. — Você vai continuar desenhando lá? — perguntou. Ela sorriu. — Vou tentar. Desenhar me ajuda a não esquecer quem eu sou. — Então eu vou querer ver esses desenhos — disse ele. — Quando for te visitar. Ela riu baixinho. — Combinado. Naquela noite, em casa, Morgana contou aos pais sobre a conversa. Clara ouviu em silêncio, mexendo distraidamente em um pano de prato. Enzo permaneceu sério, mas atento. — Ele parece um bom garoto — disse a mãe, depois de um tempo. — Ele é diferente — respondeu Morgana. — Não força nada. Enzo assentiu. — Pessoas assim são raras. Enquanto isso, Thiago chegou em casa com a mente em turbilhão. O conforto do quarto, os objetos caros, tudo parecia fora de lugar. Pela primeira vez, ele se sentiu pequeno diante da própria vida fácil. Abriu o computador e começou a pesquisar. Leu sobre doação de medula óssea, compatibilidade, registros, chances. Cada palavra parecia um golpe e, ao mesmo tempo, um chamado. Era difícil. Raro. Mas não impossível. Ele fechou o notebook, encostou-se na cadeira e ficou olhando para o teto. Morgana estaria em um hospital, lutando, esperando por alguém que talvez nem soubesse que poderia salvá-la. E ele… ele não sabia ainda o que poderia fazer, mas sabia que não queria apenas observar de longe. Nos dias seguintes, Morgana se despediu da escola aos poucos. Alguns colegas vieram falar com ela, outros apenas observavam à distância. O professor Rey desejou força. A professora de literatura lhe entregou um livro com uma dedicatória discreta: “Para quando as palavras fizerem companhia.” No último dia, Morgana voltou ao pátio. Sentou-se no banco pela última vez antes da internação. Fechou os olhos, respirou fundo, guardando aquele lugar dentro de si. Thiago apareceu logo depois. — Eu vou sentir falta disso — ele disse, olhando ao redor. — Eu também — respondeu ela. — Mas não é um adeus. — Não — concordou ele. — É só uma pausa. Eles se olharam por alguns segundos, entendendo que havia coisas que não precisavam ser ditas. — Até logo, Morgana — disse Thiago. — Até logo — respondeu ela. E, enquanto a vida dela entrava em um novo capítulo, feito de corredores brancos, exames e espera, algo ficava claro para ambos: o tempo podia até aprender a esperar, mas a esperança continuava caminhando — firme, silenciosa e cheia de coragem.
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