O Que Ainda Floresce
Thiago pensava demais.
Pensava quando estava em casa, deitado na cama olhando para o teto. Pensava no caminho para a escola, mesmo sabendo que Morgana não estaria mais lá. Pensava quando tentava se concentrar nas aulas e as palavras dos professores pareciam atravessá-lo sem ficar. Pensava nela.
Morgana era jovem. Jovem demais para tudo o que estava vivendo.
Essa era a frase que mais martelava em sua cabeça.
Ele não sabia exatamente o que fazer com aquele sentimento estranho que tinha se instalado dentro dele. Não era só preocupação. Não era só amizade. Era uma mistura confusa de impotência, admiração e uma vontade quase desesperada de tornar as coisas menos difíceis para ela — mesmo sabendo que não tinha poder algum sobre a doença.
A vida nunca tinha sido dura com ele. Pelo menos não daquele jeito.
Thiago sempre soubera que nem tudo na vida era fácil, mas aprender isso nos livros, nas conversas dos adultos ou em problemas passageiros era muito diferente de ver alguém da sua idade lutando por algo tão básico quanto continuar vivendo.
Morgana tinha quinze anos. Quinze.
E ainda assim falava de internação, de doador, de tratamentos longos como se estivesse falando do clima.
Isso mexia com ele.
No dia em que decidiu visitá-la no hospital, Thiago acordou cedo. Escolheu a roupa com cuidado, não porque quisesse impressionar, mas porque sentia que aquele momento exigia respeito. Passou a mão pelos cabelos várias vezes, respirou fundo diante do espelho e tentou organizar o que diria.
Não queria parecer triste demais.
Não queria parecer falso.
Não queria ter cara de pena.
No caminho até o hospital, o coração batia acelerado. Ele nunca tinha entrado em um lugar assim para visitar alguém importante. O prédio grande, claro demais, com cheiro constante de limpeza e remédio, o deixou um pouco perdido.
Perguntou na recepção, seguiu pelos corredores longos, ouviu o som distante de máquinas e passos apressados. Cada quarto parecia carregar uma história que ele não conhecia.
Quando parou diante da porta indicada, hesitou por alguns segundos.
E se ela estivesse m*l?
E se ele não soubesse o que dizer?
E se atrapalhasse?
Respirou fundo e bateu de leve.
— Entra — veio a voz dela, do outro lado.
Thiago abriu a porta.
E então a viu.
Morgana estava sentada na cama, com um cobertor claro sobre as pernas. Usava uma blusa simples, o rosto limpo, sem maquiagem, a cabeça raspada coberta apenas pela luz suave que entrava pela janela. Mas o que mais o surpreendeu não foi isso.
Ela estava bem.
Não tinha a aparência frágil e abatida que ele imaginara. Não parecia a imagem triste que sua mente havia criado ao pensar em hospital, doença, câncer. Ela parecia… ela mesma.
Um pouco mais magra, talvez. Um pouco mais cansada no olhar. Mas viva.
— Oi — disse ela, sorrindo ao vê-lo. — Você veio.
Thiago sentiu o corpo relaxar imediatamente.
— Eu disse que viria — respondeu, devolvendo o sorriso. — Espero não estar atrapalhando.
— Não tá — disse Morgana. — Eu gosto quando vem visita. O tempo passa mais rápido.
Ele entrou no quarto, fechando a porta com cuidado.
— Como você tá? — perguntou, sem rodeios.
Ela pensou por um instante antes de responder.
— Tô bem… hoje. Tem dias melhores e dias piores. Hoje é um dos bons.
Aquilo o aliviou mais do que ele imaginava.
Sentou-se na cadeira ao lado da cama, ainda observando-a com atenção. Era estranho perceber que, mesmo ali, entre paredes brancas e aparelhos silenciosos, Morgana mantinha aquela calma que parecia fazer parte dela.
— Eu achei que você ia estar… — ele parou, procurando a palavra certa.
— Diferente? — ela completou, sem se ofender.
— É.
Morgana riu baixinho.
— Todo mundo acha. Mas eu ainda sou eu, Thiago. Só tô lutando de um jeito diferente agora.
Ele assentiu, sentindo um nó se formar na garganta.
— Eu pensei muito em você — confessou.
— Eu imaginei — disse ela. — Dá pra ver quando alguém pensa demais.
Ficaram em silêncio por alguns segundos, um silêncio confortável, parecido com o do pátio da escola. Thiago olhou ao redor do quarto e percebeu o quanto aquele espaço era impessoal. Poucas coisas pessoais, quase nenhuma cor.
Foi então que lembrou do motivo pelo qual tinha passado em outro lugar antes de ir ao hospital.
— Eu trouxe uma coisa pra você — disse, levantando-se.
Pegou a sacola que estava ao lado da cadeira e a colocou sobre a cama.
— Não é nada demais — avisou, meio sem jeito. — Mas… quando eu vi, pensei em você.
Morgana abriu a sacola com curiosidade.
Dentro havia um caderno de desenho, igual ao que ela costumava usar na escola, com folhas grossas e capa simples. Junto, lápis, borracha, apontador, alguns materiais básicos, mas escolhidos com cuidado.
Os olhos dela se encheram de brilho.
— Thiago… — murmurou.
— Eu passei numa livraria — explicou ele. — E vi esse caderno. Igualzinho ao seu. Pensei que… talvez desenhar aqui ajudasse. Que te fizesse se sentir um pouco mais… você.
Morgana passou a mão pela capa do caderno como se tocasse algo precioso.
— Você não faz ideia do quanto isso significa pra mim — disse, emocionada. — Aqui tudo é tão igual… desenhar me ajuda a não enlouquecer.
— Então valeu a pena — respondeu ele, aliviado.
Ela abriu o caderno, virou algumas páginas em branco e sorriu.
— Vai ser o meu caderno do hospital — declarou. — Vou desenhar tudo o que eu sentir vontade. Até você, se deixar.
Thiago riu, um pouco envergonhado.
— Prefiro ficar fora dos desenhos.
— Não prometo nada — brincou ela.
O tempo passou sem que percebessem. Conversaram sobre coisas simples: a escola, os professores, o pátio vazio, Jujuba, o cavalo da família, as entregas do pai, os comentários da cidade. Thiago contou um pouco mais sobre si, sobre como se sentia deslocado às vezes, mesmo tendo tudo.
— Engraçado — disse ele, em certo momento. — Eu sempre achei que meus problemas eram enormes. Agora parecem tão pequenos.
— Não diminui o que você sente — respondeu Morgana. — Só muda a perspectiva.
Ela pegou um lápis e começou a desenhar ali mesmo, sentada na cama. O traço firme, decidido, como se o corpo pudesse estar cansado, mas as mãos ainda soubessem exatamente o que fazer.
Thiago a observou em silêncio.
— Você tem medo? — perguntou, de repente.
Morgana não parou de desenhar.
— Tenho — respondeu. — Mas tenho mais vontade de viver do que medo de perder.
Aquilo ficou gravado nele.
Quando chegou a hora de ir embora, Thiago se levantou devagar, sem vontade de sair daquele quarto.
— Eu volto — disse. — Se você quiser.
Ela levantou os olhos do desenho.
— Eu quero.
Ele sorriu.
— Então tá combinado.
Antes de sair, olhou mais uma vez para Morgana, agora concentrada no caderno novo, criando algo que só existia porque ela ainda estava ali, lutando.
No corredor, caminhando em direção à saída, Thiago sentiu algo mudar dentro dele. Não sabia ainda o que faria, nem como poderia ajudar de verdade. Mas sabia que aquele gesto simples — um caderno, alguns lápis, presença — já tinha criado algo importante.
Esperança não era sempre grandiosa.
Às vezes, era só isso:
um desenho em uma folha em branco,
um sorriso em meio ao hospital,
e a certeza de que, mesmo nos dias mais difíceis, ainda havia coisas que floresciam.