Capítulo 4

1206 Words
Yasmim 🌝 Me apoiei na pia com os dedos gelados, respirando fundo, como se o ar pudesse apagar o enjoo que subia queimando pela garganta. Eu estava ali, de moletom, cabelo preso de qualquer jeito e o rosto mais pálido que parede de hospital. Dois meses. Só dois meses nessa cidade e eu descobri o que era ser feliz de verdade. Paris me deixou leve, me deixou viva, me deixou… eu mesma. Andar pelas ruas com cheiro de padaria, estudar e curtir um pouco a vida, sentir que o mundo é maior do que tudo que ficou no Brasil. E ainda tem a Bia… Meu Deus, a Bia virou minha irmã. Conhecer ela naquele voo foi a melhor coisa. Dividimos o fone, bala de menta e trauma de turbulência… e pronto. Virou minha melhor amiga em horas. Quem diria? A vida às vezes surpreende bonito. Mas aí veio o enjoo. De novo. E forte. Me curvei sobre o vaso, sem nem ter tempo de pensar direito. Quando levantei, Bia já estava parada na porta, com cara de quem viu esse filme pela oitava vez. Beatriz: Yasmin… isso não é normal — falou com aquela voz baixa e firme que sempre usava quando estava preocupada. Tentei rir, mas até o riso doeu. Yasmin: Deve ser a rotina, Bia… faculdade, acordar cedo… o corpo estranha um pouquinho, né? Beatriz arqueou uma sobrancelha. Beatriz: Amiga… rotina não deixa ninguém assim. — Ela deu um passo à frente. — Tem alguma chance de você estar grávida? A palavra bateu como um tapa. “Grávida.” O coração deu um salto tão forte que pareceu rasgar o peito. Minha mente correu… foi direto para o Brasil, três meses atrás. A boate cheia. Música alta. Eu bêbada o suficiente para esquecer até meu próprio RG. Nem perguntei o nome dele. Só lembro do cheiro do perfume forte e de uma risada grave… e nada mais. Nenhum rosto. Nenhuma pista. Beatriz: Yas… você tomou a pílula? Ou algum remédio por causa de infecção? Engoli seco. A garganta travou. A vergonha queimou no rosto. Eu esqueci de tomar. Yasmin: Não, amiga — admiti, quase num sussurro. Beatriz arregalou os olhos. Beatriz: Amiga… pelo amor de Deus… Fechei os olhos. Minha mente virou um caos silencioso. Respirei fundo, sentindo o peso cair no peito. Como eu deixei isso acontecer? E agora nem sei quem é o pai. Nem sei o rosto dele. Nem lembro de nada. Três meses… Eu achei que tinha sido só uma noite, um erro que ficou no passado. Mas talvez o passado não tenha ficado lá. Beatriz: Yas, olha pra mim. Se for isso… não importa. A gente resolve. Você não está sozinha. Ela tocou no meu ombro. Abri os olhos, sentindo o medo, a culpa e a realidade começarem a se encaixar como peças de um quebra-cabeça que eu nunca pedi para montar. Yasmin: Amiga, meus pais vão me matar. Eles não vão aceitar isso, ainda mais eu não sabendo quem é o pai. Saí do banheiro e fui até minha cama. Beatriz: Eu vou estar aqui. Yasmin: O que eu vou fazer, amiga? — falei chorando. Beatriz: Primeiro, a gente precisa ver se você está mesmo grávida. Fiquei imóvel, olhando para o chão. Beatriz: Vou na farmácia comprar um teste e já volto. Só concordei com a cabeça, e ela saiu correndo. Fiquei sentada na beira da cama, mãos suadas, joelhos tremendo, o coração martelando como se quisesse fugir do peito. Yasmin: Meu Deus… e se for? Não, não pode ser. Três meses… mas eu estava normal, né? Quer dizer… estava? Eu estou vomitando todo dia, Yasmin, pelo amor de Deus, acorda. Mas não pode ser. Não agora. Não aqui. Eu tenho minha faculdade, tenho tudo pra viver. Eu não posso estar grávida. Eu não. Meus pais vão me matar. A porta abriu com um estralo. Beatriz entrou com a sacola da farmácia na mão, séria, determinada. Beatriz: Trouxe. Senti o ar sumir. Minhas mãos tremiam enquanto eu abria a caixinha. Parecia que tinha chumbo nos dedos. O plástico fez um barulho alto demais, irritante demais. Eu não queria olhar. Não queria pensar. Beatriz: Vai, amiga… eu estou aqui. Ela sentou na cama e apertou minha mão. Respirei fundo, como quem mergulha num mar gelado, e fui até o banheiro. O barulho da porta se fechando pareceu um adeus à vida que eu conhecia. Minutos depois — que pareceram horas — voltei para o quarto com o teste na mão, virado para baixo. Beatriz engoliu seco. Yasmin: Não tenho coragem de ver, Bia — falei chorando. Beatriz: Vira, Yas… Fechei os olhos, rezando mentalmente. Por favor, negativo. Pelo amor de tudo que existe. Eu prometo que vou me cuidar. Juro. Só… um negativo. Virei o teste para a Bia ver. Ela arregalou os olhos. Então virei para mim. Duas linhas. Duas malditas linhas. Positivo. Meu mundo caiu. Yasmin: Bia… — minha voz saiu fraca, quebrada, quase inexistente. — Deu positivo. Beatriz me segurou antes que eu desabasse. Yasmin: Acabou, Bia. Tudo que eu planejei, tudo que eu sonhei. Como é que eu vou fazer isso? Eu não sei quem é o pai dessa criança. Eu não sei nada. Eu estou sozinha. Eu estou perdida. Eu estou… grávida. Me sentei no chão junto com ela, sem força para ficar em pé, sentindo o futuro escapar pelos dedos. Beatriz me puxou para um abraço firme, presente — a única coisa estável naquele caos. Beatriz: Eu estou com você. Yasmin: Eu não estou pronta, Bia. Eu não estou pronta… Beatriz: Eu vou estar aqui com você, amiga. Vou te ajudar em tudo. Yasmin: Eu vou tirar, Bia. Não posso ter esse bebê. Beatriz se levantou de uma vez. Beatriz: Tu tem noção da merda que está falando agora, Yasmin? A criança não tem culpa. Yasmin: Meus pais vão me matar, e eu não vou saber cuidar de uma criança, Bia. Beatriz: Eles não estão aqui. Vamos passar três anos longe do Brasil. Esse bebê nasce e a gente cuida dele. Yasmin: Não é tão fácil assim. Como vou esconder uma criança? E quando a gente voltar para o Brasil? O que eu vou fazer? Beatriz: Até lá, a gente dá um jeito. São três anos longe de tudo, Yasmin. — Ela se abaixou na minha frente. — Não faz isso, por favor. Agora você não está raciocinando direito. Lá na frente pode se arrepender. Yasmin: Bia, eu não sei o que fazer. Beatriz: Confia em mim. Eu vou estar aqui. Vamos criar esse bebê e ser felizes. Até você voltar para o Brasil, já vai ser médica. Seus pais não vão poder mandar em você para sempre. E, além do mais, eu vou estar com você em todos os momentos. Yasmin: Obrigada… obrigada. Abracei ela e chorei ainda mais. Beatriz: Não precisa agradecer. Eu falei que vou estar com você sempre. Você é minha irmã maluca. E agora tem um motivo para ser diferente dos seus pais. Por esse bebê lindo que está vindo. Não falei nada. Só fiquei ali, em silêncio. Ela estava certa. Essa criança não tem culpa de nada. E talvez… talvez eu tenha um novo motivo para sonhar. Para ser diferente. Para provar que o amor existe, sim.
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