Yasmin 🌝
Flashback
Yasmin: Eu ainda sou virgem. — Senti meu rosto queimar de vergonha. Ele me encarou sem reação, parando o beijo. Ficamos alguns segundos nos encarando.
X: De boa, só relaxa. — Ele voltou a me beijar e foi, aos poucos, me tranquilizando.
E foi assim que eu perdi minha virgindade, com um cara que não sei o nome e nem lembro o rosto, porque eu tava mega bêbada e ele ainda mais.
Flashback Off
Um mês se passou e hoje estou indo pra Paris. Meus pais estão me obrigando a terminar meus estudos lá. Estou me formando em medicina, mas meu real sonho é ser modelo e abrir uma loja de roupas. Mas, infelizmente, quem me banca são eles. Eu já tentei trabalhar pra conseguir minhas próprias coisas, mas eles não deixam. Falam que eu tenho que focar nos meus estudos. Eu não posso fazer nada. Sabe o que é nada? É nada mesmo.
Minha família é toda de médicos. Quando eu falei que não queria fazer medicina, minha mãe me bateu demais e eu tive que aceitar, né.
Tenho 24 anos e nenhuma amiga. Meus pais não deixam eu chegar perto de ninguém “normal”, como eles falam. Eles querem que eu me aproxime de “gente igual a nós”, mas infelizmente eu não gosto desse tipo de pessoa. Eu tenho raiva. É só gente metida, preconceituosa e sem assunto. Aff.
Eu só não entendo minha mãe. Ela veio de gente normal, mas odeia quando tocam nesse assunto. Eu não conheço ninguém da família dela. Ela fala que eles estão longe e que não gosta deles porque não aceitaram o casamento dela com meu pai. Mas enfim.
Agora tô aqui arrumando minhas coisas pra ir pro aeroporto. Já são duas da madrugada e meu voo sai às três e meia.
Eduarda: Ainda tá arrumando isso, Yasmin? — disse minha mãe, entrando no meu quarto já estressada. — Falei pra tu arrumar essas coisas ontem. Revirei os olhos.
Yasmin: Eu só tô colocando meus cadernos na mala. — Menti. Ontem eu não arrumei nada. Fechei a mala. — Já tô pronta.
Minha convivência com meus pais não é das melhores. Eu sou muito na minha, já eles são exagerados. Eles só conhecem gente de patente alta, na nossa língua “gente rica”, e eu odeio gente assim.
“Ah, mas você é rica?”
Sim, sou rica. Mas sou uma rica que odeia gastar, odeia comprar coisas caras. Me diz: por que tu vai pagar cinco mil numa bolsa? Isso não tem cabimento.
“Ah, mas tu não compra nada pra ti?”
Compro. Eu compro livros. Sou apaixonada por livros românticos. E maquiagem é minha segunda paixão. Mas meus queridos pais não deixam eu usar. A desculpa? Eu sou bonita naturalmente.
Eu não posso nada. Mas pra essa viagem eu comprei um monte de maquiagem e vou usar mesmo. Eles não vão estar lá, né?
Eu pego dinheiro todo mês com eles. Gasto a metade e a outra eu guardo em uma conta secreta. Meus pais não podem nem sonhar com essa conta. Fiz ela pra conseguir, lá em Paris, abrir minha loja de roupas. É impossível? Talvez. Mas eu quero tentar.
Saí do meu quarto e minha babá já veio na minha direção.
“Ah, babá nessa idade?” Sim. Ela é tipo uma mãe. Cuidou mais de mim do que minha própria mãe.
Nina: Oh, minha princesa. — Me abraçou e eu já quis chorar. Eu tô muito sensível. — Não fica assim. Três anos passam rápido e logo você vai estar de volta, meu amor.
Yasmin: Eu vou sentir muita sua falta, Nina. — E comecei a chorar.
Nina: Quem sabe antes desses três anos eu não vou lá dar uma voltinha pra te ver? — Meu coração quase saiu pela boca.
Yasmin: Promete, Nina? — Ela concordou com um beijo no meu rosto. — Então a gente conversa melhor sobre isso. Eu te ajudo com a passagem. — Falei no ouvido dela.
Eduarda: Bora, Yasmin! Que coisa, menina! — gritou minha mãe da sala.
Nina: Vai, meu amor. Boa viagem. Assim que chegar lá, me avisa. Vou ficar preocupada, não esquece, viu?
Yasmin: Pode deixar, Nina. Beijo, meu amor. Vou sentir muita sua falta. — Dei mais um abraço apertado nela e fui até a sala.
Nina me ajudou com as malas. Meu pai estava calado, como sempre. Saímos de casa. Nina foi junto até o carro, triste, assim como eu. Como eu queria ter mais coragem pra enfrentar eles.
[...]
O aeroporto não era tão longe de casa. Chegamos em trinta minutos. Tirei minhas malas do carro com ajuda do motorista. Meus pais entraram no aeroporto e nem me esperaram.
Antônio: Menina, boa viagem. — Seu Antônio falou todo cabisbaixo. Ele me viu crescer. Ficou mais comigo do que meu próprio pai. Pra vocês terem ideia, ele já foi comigo na apresentação do Dia dos Pais. Meu pai biológico não.
Yasmin: Vou sentir muita sua falta. Cuida da Nina pra mim, viu? E se cuida também. — Abracei ele escondido dos meus pais. — Logo sua menina tá de volta. — Ele sorriu. Dei um tchauzinho e fui até meus pais.
Eduarda: Aqui, seu passaporte. E o endereço da casa onde você vai ficar.
Yasmin: Casa? — Eu achei que ia morar no alojamento da faculdade.
Eduarda: Sim, Yasmin. Casa. Você não vai ficar em alojamento com várias meninas. Aff. — Não falei nada. Não adiantava.
Fiz meu check-in, despachei as malas e fiquei esperando chamarem meu voo. Meus pais estavam no celular, como sempre. Eu também peguei o meu, mas parei quando vi, do outro lado do aeroporto, uma menina com cinco meninos e uma senhora. Eles estavam se despedindo dela. A senhora chorava. Os meninos abraçavam ela. A menina ria, tentando confortar todo mundo. Achei aquilo tão bonito.
Eduarda: Bora, Yasmin. Teu voo — Parei de olhar pra menina e encarei minha mãe.
Yasmin: Desculpa. — Peguei minha bolsa. — Já vou.
Eduarda: Quando chegar, manda mensagem. Agora vai. — Meu pai nem tirou os olhos do celular. — O que foi, menina?
Yasmin: Sério mesmo isso? — Falei mais alto. Meu pai finalmente me olhou. — Eu tô indo embora. Vou passar três anos longe. Sou a única filha de vocês e vocês nem vão se despedir de mim?
Marcelo: Yasmin, para. Você só vai viajar, não vai morrer.
Aquilo doeu.
Yasmin: Se é assim...
Peguei meu passaporte da cadeira e olhei pra eles pela última vez. Passei pela menina e pela família dela, todos chorando. Senti uma lágrima cair também.
Ouvi minha mãe me chamando e ignorei.
Entreguei o documento no portão, olhei pra trás esperando, pelo menos, ver meus pais ali. Mas não estavam.
Ela me devolveu o passaporte e eu entrei.
Agora é só daqui a três anos.
E só se eu quiser voltar.