Harry Vodmont
__Esse é o portal?- pergunta Alex encarando o grande espelho.
__Onde estavas nas aulas dos portais?- pergunto e ele da de ombros__Chegaste de decorar o mapa?
Nós seres sobrenaturais, temos nossas próprias escolas onde nos ensinam tudo sobre o mundo sobrenatural.
Claro que tem aquelas famílias que preferem viver e estudar entre humanos.
Mais em nossas escolas nos ensinam sobre os Reinos, os diferentes tipos de seres, raças, povos e muito mais. Também ensinam onde fica cada portal e para onde cada um deles nos leva.
Somos obrigados a decorar o mapa dos portais para que não nos percamos ou para não entrarmos em lugares indesejados.
Parece que Alex saltou essas aulas.
__Tinha coisas mais importantes para me preocupar- responde e me arrependo de ter perguntado.
Alex não teve a melhor infância, para não dizer que ele teve a pior infância de toda a família.
__Vamos terminar isso logo- digo e juntos atravessamos o portal.
Saímos no sótão do museu da pequena cidade, o bom é que fica perto do lugar onde está a garota.
Saímos do museu pela entrada lateral e logo estamos nas ruas, vou segundo Alex que tem uma memória fotográfica, com certeza já conhece toda a cidade só pelo mapa.
__A última ligação foi feita aqui- diz parando em uma rua escura.
__Aqui não tem esgotos- digo analisando ao redor e vejo algo quebrado no chão.
Me aproximo e baixo, vejo os estilhaços do telefone perto tem algumas gotas de sangue.
Toco o sangue com dois dos meus dedos levando até meu nariz e inspiro o cheiro.
Sinto o cheiro mais forte perto daqui.
__Ela está por aqui- digo a Alex me levantando__Parece que ela conseguiu se esconder.
Caminho seguindo o cheiro de sangue e depois sinto o seu medo, ouço seu coração batendo rápido demais.
Paro em frente aos sacos de lixo certo de que ela se encontra ali.
__Viemos ajudar- digo e ela não responde.
Retiro os sacos de lixo um por um sentindo seu medo aumentar, quando retiro o último ela salta para cima de mim tentando me atingir com algo.
Caio no chão com ela em cima de mim, seguro sua mão antes que ela me acerte com o garfo.
Garfo?
Olho para a garota que está assustada demais, suja, mas corajosa. Pelo menos a garota tem coragem.
Alex se aproxima e retira a garota de cima de mim. Ela tenta lutar mas Alex a segura forte.
Me levanto olhando para a garota arrisca, parece uma leoa.
__Eu sou o homem que falou contigo ao telefone- digo e isso parece a acalmar__O que aconteceu?
Alex solta a mulher que já está mais calma, a observo bem e vejo que ela é jovem, deve ter uns dezoito anos.
__Antes de explicar qualquer coisa, eu preciso ir para casa- diz me encarando__Preciso ver se realmente levaram minha mãe e preciso cuidar dos meus ferimentos.
Vejo seu ombro sangrando e sua perna machucada.
__Não temos muito tempo- digo chamando sua atenção.
__Vocês precisam me ajudar- diz se aproximando de mim__Se mamãe me deu seu número deve ser por uma razão, por favor.
Eu quero dizer que a chamada foi engano.
Mas ver seus olhos marejados e sua súplica por ajuda acabou comigo, não tenho como negar isso.
O olhar de Alex também me pede para a ajudar.
__Tudo bem- digo e ela abre um pequeno sorriso__Consegues andar?
__Não sou fraca, consigo sim- responde convencida.
__Se dizes- resmunga Alex escondendo um sorriso.
__Vamos, minha casa não é tão longe- diz começando a andar com dificuldade.
Alex caminha ao meu lado se divertindo com a menina que se faz de forte.
__Ela está cheia de dor e se esforçando para conseguir caminhar- comenta a observando__Essa teimosia me lembra alguém.
Dou de ombros fazendo pouco caso e a seguimos por quarteirões.
__Aquela é minha casa- aponta para a casa Branca que está do outro lado da rua de dois andares.
Atravessamos a rua e a porta da casa está aberta, fico atento por isso mas não noto nada de estranho.
__MÃE- grita por sua mãe entrando em casa__MÃE.
__Não tem ninguém aqui- digo e ela corre escada acima gritando pela mãe agitada demais.
A garota volta a descer chorando, suas pernas falham nos últimos degraus. Sou rápido e a seguro antes que ela caia.
__Eles a levaram- sussura entre soluços__Eles levaram minha mãe.
__Fica calma- digo a pegando no colo__Primeiro vamos cuidar dos seus ferimentos.
__Eu devia ter obedecido- diz enquanto caminho com ela até o sofá__Ela me disse para não sair mas eu precisava me vingar antes de irmos embora.
__Agora que aprendeste na próxima ouve sua mãe. Mães sempre tem razão- digo a colocando no sofá e ela resmunga.
Me sento ao seu lado e corto meu pulso guiando até sua boca.
__Tome- digo e ela me encara assustada__Se quiseres curar rápido.
__Não sou uma vampira- diz irritada negando e solto um suspiro frustrado.
__Eu também não sou teu amigo, mais vim aqui te ajudar- digo grosso e ela me encara magoada.
__Não precisava ser tão grosso- rebate puxando meu pulso e chupando o sangue soltando logo em seguida__Feliz?
__Não- digo e ela bufa.
Criança!
__Vou tomar um banho e depois vou atrás da minha mãe- diz e concordo.
__Estaremos te esperando- digo e ela levanta e analisa seu ombro e sua perna já curada.
__Nossa, curou rápido mesmo- diz deslumbrada__c*****o, até parece magia.
__És pequena demais para falar palavrão- digo e ela me encara irritada.
__E você jovem demais para fazer papel do meu pai- responde e sobe as escadas.
__Garota atrevida- resmungo e ouço o riso de Alex.
__A garota tem uma personalidade forte- comenta olhando uma foto__E a mãe é gata demais.
Me aproximo dele e ele me entrega a foto.
Cambaleio ao ser atacado pelos olhos castanhos selvagens que sempre me atormentaram, o sorriso é o mesmo. Seus cachos emoldurando seu rosto e ao seu lado está a garota com os mesmos olhos selvagens e o resto diferente.
__Harry, o que está acontecendo?- pergunta Alex e eu não consigo desprender meu foco do retrato em minhas mãos__conheces a mulher?
Se eu conheço?
Sento no sofá analisando a mulher na foto, minha mulher.
Me perco em memórias distantes que vivi com ela, seu olhar bravo, seu sorriso arrisca, suas ideias malucas. Ela foi tudo para mim, ela é tudo para mim.
Não sei fico quanto tempo perdido em memórias, mas volto em mim ao ouvir a voz da garota.
Me levanto indo até ela que se assusta pela minha aproximação bruta.
__Como se chama sua mãe?- pergunto e ela encara o retrato em minhas mãos.
__Nevim Dovin- diz voltando seus olhos até os meus__Vais me ajudar a procurar?
__Como te chamas?- pergunto e ela me encara confusa.
__Vénus- diz e ouço Alex engasgar atrás de mim e sou transportado para uma lembrança.
__Eu quero ter uma menina e dar todo amor que não me deram- diz deitada na grama e se vira para me encarar__E você?
__Eu o que?- pergunto a encarando.
__Queres ter filhos?- pergunta e sorriu.
__Não sei- digo e seus olhos brilham altivos.
__Se eu quero, também queres. E vamos dar o nome de Vénus porque ela foi a primeira pessoa que nos uniu e foi um anjo na minha vida.
__Nunca vou entender essa tua veneração pela Vénus- digo e ela revira os olhos.
__Não é para entender, é para aceitar. Vénus me salvou e serei eternamente grata.
__Vénus?- pergunto ainda sem acreditar.
__Sim, Vénus Dovin.
__Quantos anos?- pergunto sentindo meus olhos marejarem, meu coração doendo e meu corpo fraco.
__Não acho que isso seja importante- diz desconfiada
__Quantos anos tens?- pergunto mais calmo.
__Vinte e um- responde e começo a fazer as contas.
__A gravidez foi de cinco meses?- pergunto e ela se afasta assustada.
__Como você sabe disso?- pergunta se afastando um pouco assustada__Eu agradeço muito a ajuda de vocês, mais acho que podem ir. Eu resolvo tudo sozinha.
Olho para a garota que acaba de mudar minha vida por completo e ela nem sabe disso.