capítulo 1

424 Words
O som dos saltos dela ecoava pelo corredor vazio. Rápido. Irregular. Desesperado. Ela não olhou para trás. Não podia. O passado não era algo que se deixava para trás — ele vinha atrás dela. Sempre vinha. O vento frio da noite cortava sua pele quando ela finalmente saiu pela porta dos fundos do prédio. O coração batia tão forte que parecia querer escapar do peito. As mãos tremiam, o ar parecia pesado demais para entrar nos pulmões. Ela tinha conseguido. Ou pelo menos… era o que queria acreditar. Mas o silêncio… era errado. Silêncio demais. Antes de dar mais um passo, ela parou. Algo estava ali. Ela sentiu antes de ver. A sensação de estar sendo observada percorreu sua espinha como uma lâmina fria. Lentamente, ela virou o rosto. E então… viu. Um carro preto, parado a poucos metros. Motor desligado. Vidros escuros. Impossível ver quem estava dentro. Mas não precisava ver. Ela já sabia. O ar ao redor pareceu se tornar mais denso. — Você realmente achou que ia embora assim? A voz veio da escuridão. Baixa. Controlada. Perigosa. Ela congelou. A respiração falhou por um segundo. E então, como se o mundo estivesse se fechando ao redor dela… A porta do carro se abriu. Ele saiu devagar. Passos firmes. Calmos demais. Como alguém que não estava com pressa — porque sabia que não precisava. O sobretudo escuro acompanhava o movimento do corpo alto e imponente. O rosto dele ainda parcialmente oculto pela sombra, mas os olhos… esses eram impossíveis de ignorar. Frios. Fixos. Como se já a possuíssem. — Você nos fez perder tempo — ele disse, dando mais um passo à frente. Ela deu um passo para trás. Instintivamente. — Eu… eu não— — Não. A palavra foi curta. Cortante. Final. Ele inclinou levemente a cabeça, como se estivesse analisando cada detalhe dela. Cada tremor. Cada erro. — Você não fala quando eu estou falando. O silêncio voltou a pesar. E então… outro som. Um segundo carro. Desta vez, o farol piscou ao se aproximar. Ela virou o rosto na direção do som. E foi quando percebeu… Não era só ele. Nunca foi. A porta do segundo carro se abriu. Outro homem saiu. Depois outro. Agora três. Três silhuetas. Três presenças. Três formas de perigo. O primeiro homem sorriu — mas não havia nada de gentil naquele sorriso. — Agora… vamos conversar direito. Ela engoliu em seco. O mundo parecia ter diminuído. Restava apenas ela… E eles. E, pela primeira vez… Ela entendeu o que realmente significava estar sem saída.
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