Safira Lins,21 anos
A vida é cheia de surpresas,sejam elas agradáveis ou não. Sortuda como sou,a minha é cheia das desagradáveis. Primeiramente porque nunca conheci o meu pai, ou melhor dizendo,meu progenitor. Minha mãe sempre disse que ele não quis saber de mim quando estava grávida e ela até acabou mudando de cidade na época. Nome? Não sei. Características? Não sei também. Aliás, é mais fácil eu falar o que eu sei.
Trabalho desde os meus tão sonhados dezoito anos para conseguir ou tentar, pelo menos, suprir as necessidades da casa. Atualmente eu estou empregada como recepcionista de um dos andares da empresa Muniz. Trabalho esse que chega a ser insuportável,mas necessário. A chamada necessidade nos coloca em cada lugar, só por Deus
Moro apenas eu e minha mãe,com quem não me pareço praticamente em nada. Enquanto ela é mais clara que eu pouca coisa,seus olhos são escuros e seus cabelos também. Eu no entanto,sou morena, possuo cabelos negros e olhos azuis,características as quais devem ser do meu progenitor. Só pode ser.
Trabalho até a tarde e quando saio de lá vou para a UFRJ,onde faço faculdade de direito que sempre foi meu sonho de vida.
Mamãe sempre trabalhou e se empenhou para me dar o melhor, e assim estudei em escolas particulares desde pequena com bolsas de estudos.
Dou graças a Deus por isso e tantas outras coisas, apesar dos pesares
Moramos num apartamento pequeno e confortável que tem apenas dois quartos,sala e cozinha juntos e um banheiro. Éramos tão felizes, mesmo com o pouco.
Até aí estava tudo ótimo,mas então ocorreu a pior coisa da minha vida:minha mãe foi atropelada quando estava indo trabalhar. E hoje tenho uma luta diária com a depressão que tenta me pegar. Digo um “não” bem dado a ela sempre
Apesar de eu ter apenas vinte e um anos,mamãe ainda é nova e tem apenas quarenta anos. Ela trabalha ou trabalhava num restaurante fino em Ipanema na parte da cozinha. Seu salário fez com que vivemos confortavelmente sem excessos e luxos a parte.
Após ela ser ter sido atropelada, o maldito ou maldita sumiu do mapa e não quis arcar com o prejuízo disso tudo.
Como vivemos no Brasil,o sistema de saúde pública é péssimo e há pessoas que morrem nas filas por não ter atendimento,entre outros imbróglios. Enquanto isso ocorre observamos que os políticos,os quais não se importam com os cidadãos,vivem esbanjando luxos e riquezas provenientes das lavagens de dinheiro e corrupções que praticam,dinheiro esse que devia ser investido em segurança, saúde, educação de qualidade, entre outros.
O fato é que desde esse acidente,que foi bem grave,mamãe entrou em coma e assim ficou por dois meses apenas respirando por aparelhos. Eu tive que continuar pagando porque se ela está ocupando o lugar no hospital e os aparelhos de lá,há a necessidade que pagar por eles. Usei nossas poucas economias nisso. E eu rosinha como sou,não tenho nem com quem desabafar.
Sorte que eu sempre guardei parte que ganho desde que comecei a trabalhar,para quando precisássemos e também porque até então esse dinheiro que guardo seria direcionado em investir num escritório,por exemplo. Claro que necessidades mudam e minha mãe é mais importante que qualquer coisa.
Confesso que quando isso ocorreu,abalou minha fé de uma forma inimaginável. Fiquei questionando o tempo todo o porquê com a gente,coisa que muita gente faz diante dos conflitos que aparecem e que são difíceis demais para serem resolvidos.
Mas então minha mãe acordou do coma que ela estava e os médicos ainda não sabiam o estado dela,pois respondia somente por aparelhos. A tal de surpresa veio e novamente não foi boa,pois descobrimos que ela estava debilitada e que não conseguiria andar direito e muito menos falar.
E imaginem só? Ela só tem a mim.
Nossas economias já se foram e não tenho de onde tirar ou para quem pedir ajuda.
Aqui estou eu no hospital enquanto mamãe está dormindo. Ultimamente ela só dorme,tanto é que que já até me acostumei a ficar mais sozinha ainda.
Sou surpreendida com meu celular tocando,pois eu nem conheço muita gente e as que conheço não me ligam. Eu sou isolada.
-Safira Lins?-Pergunta
-Olá,sou eu. —Falo.
—Aqui é a Joana,secretária do Senhor Muniz,e devido a uma reclamação feita por suas faltas no serviço,você foi demitida. —Joga esse balde de água fria em mim como se isso não fosse nada.
—Não,primeiro porque não pode me demitir via ligação—Tento ser firme- Segundo que eu tenho as justificativas das minhas faltas,portanto essa demissão não é aceitável.
—Ninguém está interessada em saber,querida
—Eu não sou sua querida,e exijo respeito. Além disso,vocês da empresa dizem seguir a moralidade e a ética,logo devem saber sim dos meus direitos e de todo e qualquer funcionário.
—Você se acha muito—Ri da minha cara. Coitadinha—Debocha—DEMITIDA!—Quase grita.
—Olha,cansei de você. -Como estou,não suporto mais nada. —Aliás,não falarei mais com você,visto que é uma funcionária assim como eu e não possui poder dentro do âmbito do trabalho. Assim,peço e sugiro que marque um horário amanhã com o Senhor Muniz que resolverei com ele. Passar bem!—Desligo.
Quis arrumar encrenca comigo? Logo eu,a própria encrenca.
Desliguei na cara dessa sirigaita mesmo. Trabalhar lá é muito r**m. Não dá nem para contar nos dedos das mãos e dos pés o tanto de mulher oferecida que quer se dar bem com homens casados,solteiros ou safados como o maldito Sampaio.
Eu já deveria ter denunciado ele por assédio,mas estava cheia de problemas que nem reparei nesse detalhe.
Tentei ser legal mas ninguém nessa empresa me suporta,e eu não sei por qual motivo. Elas me olham com um olhar de nojo e superioridade e eu não sei o motivo,sinceramente,já que sempre tentei ser legal,só que elas insistiram em me pôr para baixo.
Cansei e quase mandei para aquele lugar lá.
Tenho ciência que não posso ser demitida. O chefão tem que me entender e apesar de que eu nunca vi de perto esse Senhor Muniz,sei que ele e arrogantemente e metido como tantos outros de lá.
Eu só peço que Deus me ajude e que eu consiga falar com esse cara. Pergunto-me que a gente vai viver se eu for demitida?! São tantos problemas que só me cabe rezar e suplicar.