7 - Encontro acidental na madrugada

1430 Words
ELOISE Olho fixamente para o sangue na minha coxa. Ele escorre, bem devagar, até eu limpá-lo. Arde e eu suspiro, respiro fundo e vejo mais sangue tomar o lugar do que acabei de limpar. Eu já estava chorando antes de entrar aqui para fazer isso. Digo a mim mesma que sou fraca. Como posso deixar um pesadelo me levar a fazer isso? Um pesadelo do qual nem consigo me lembrar agora. Apenas pedaços da minha mãe. E me pergunto por que é bom fazer isso, como já fiz tantas vezes antes. Libertação. É uma libertação, uma das poucas que tenho. Repito a palavra mentalmente, sem parar, enquanto meu sangue mancha o chão de ladrilhos brancos de vermelho. É aí que me recupero um pouco. Limpo rapidamente para não deixar vestígios, lavo meu ferimento com água oxigenada e faço um curativo. Também limpo uma das lâminas de reposição de Liam que encontrei depois de vasculhar a gaveta da penteadeira, e jogo no lixo. Depois de pensar um pouco, escondo no fundo. A dor é latejante e fraca, repetitiva, mas me faz sentir melhor do que antes. Sento-me no chão e aperto os joelhos contra o peito. Estou exausta. Liam está dormindo não muito longe de mim, mas não tem ideia de que saí da cama e estou aqui. É madrugada. Voltei a vestir a cueca boxer que usei para dormir. Ela é grande o suficiente para cobrir o curativo e minhas outras cicatrizes. Ele nunca as viu e tenho certeza de que ele presume que sejam estrias ou algo do tipo. Eu me forço a levantar e voltar para o quarto. Por um tempo, fico parada perto da porta, observando Liam dormir pacificamente, até que decido que estou com sede. Tomo cuidado para não fazer barulho enquanto desço as escadas e entro na cozinha. Eu poderia me perder nesta casa, com o tamanho dela, mas consigo encontrar a cozinha, mesmo no escuro. . Estou com calor e minha boca está seca, apesar de quão fria esta casa esteja. Tomo goles lentos e isso acalma a secura e a minha garganta. Seguro a garrafa na testa e a movo para frente e para trás, suspirando com o choque do frio. É uma sensação maravilhosa. — Não consegue dormir de novo? Eu ofego e pulo, quase deixo a garrafa d’água cair; e levo a mão ao peito. É Christian, parado em uma das entradas da cozinha, só consigo distinguir a silhueta no escuro. — Jesus Cristo, você me assustou pra caramba. — Ele ri e quando chega onde eu estou, ele para. — Desculpe. Eu não estava tentando te assustar. — Está tudo bem… Por que você acordou? Foi expulso da cama de novo? — Sim. Então pensei em vir tomar uma bebida. Ele abre a geladeira e eu o vejo agora. Ele não está de camisa. Nem de calça. Está apenas com uma cueca boxer preta. Desvio o olhar rapidamente. Tenho certeza de que ele não esperava ver ninguém aqui embaixo, caso contrário, teria vestido uma calça ou um short. Eu também não esperava ninguém, e é por isso que estou usando apenas a cueca e uma das camisas de flanela do Liam. Enquanto pega uma cerveja, ele me oferece. Ele pega uma para si e vai para o outro lado da cozinha, acende uma pequena luz acima do forno e encontra um abridor de garrafas. Abre os dois e vai embora. Ele não diz nada, mas eu o sigo. Saímos para o pátio. A piscina está iluminada, como sempre à noite, e eu paro e o encaro enquanto ele caminha até lá. Eu não deveria estar olhando para ele desse jeito. Examinando seu corpo. Os músculos das costas, cada curva e corte, o bronzeado da pele, a definição das coxas e pernas, as veias dos braços... Crush. Decido que é só isso, aqui e agora. Estou atraída por ele. De verdade. E por que não estaria? Acho o Liam bem atraente, e o Christian é literalmente uma versão mais velha dele. Em vez de cabelos escuros como os do Liam, o dele é quase todo grisalho. Em vez de olhos azuis, o dele é castanho. O resto das diferenças entre eles é mínima, tirando a idade. Até os corpos deles são parecidos, pelo que vejo. Os dois estão em ótima forma. Acho que isso já era esperado. E aconteceu de repente. Eu o conheço há anos, desde os meus quatorze anos, e só agora estou percebendo isso. Sinto-me atraída por ele. E isso me faz sentir culpada. Mas é só uma paixonite, uma atração. Posso me sentir assim quando já estou com alguém? Posso me sentir atraída por outras pessoas, desde que seja só isso? Quando ele olha para mim, pisco uma vez, pigarreio e desvio o olhar, e quando olho de volta, ele ainda está me encarando. Ele faz um gesto com a garrafa de cerveja, como se dissesse “venha aqui”, e eu obedeço. Ele se senta na beira da piscina, desliza as pernas na água até a panturrilha e olha para mim novamente. — Senta. Hesito, olhando fixamente para a água, antes de fazer o que ele diz. Encosto os pés na água como ele faz, e nós dois bebemos um gole ao mesmo tempo. A água está mais quente do que eu esperava. De repente, tenho vontade de saber nadar. Provavelmente seria muito bom simplesmente mergulhar naquela água. — Você sabe que eu tenho apenas dezoito anos, certo? — Uhum. O que tem? Faço um gesto em direção à minha cerveja. — Fornecer álcool a menores. Isso não é crime? Ele sorri, depois ri e me cutuca com o ombro. Parece flerte. — Estou lhe fornecendo álcool? Ou simplesmente contribuindo para sua delinquência? — Ah, contribuindo para minha delinquência, com certeza. — Você me deduraria? — Não sei. Talvez. Ele ri de novo, e soa tão genuíno que me faz rir. Ele me faz sentir à vontade e confortável, e sempre me faz sorrir. — Você é muito engraçada, Elô. Quando não está sombria e misteriosa. Isso me surpreende por um momento. — Você acha que sou sombria e misteriosa? Ele concorda. — Bem… em instantes. Agora você não parece tão sombria. Você parece… feliz. Eu apenas o encaro, imaginando o que ele pensaria se soubesse que eu tinha acabado de me cortar no banheiro de hóspedes. Será que ele acharia que eu sou feliz? Será que ele se importaria? Ou faria vista grossa? Nossas pernas se tocam, sinto os pelos grossos e ásperos contra minha pele macia. Ele é muito mais bronzeado do que eu, uma diferença gritante em relação à palidez da minha pele, que me faz encará-lo por um instante antes de voltar a olhar para a água. Não me afasto. Ele também não. — Eu tenho uma ideia. Olho novamente para seu rosto. — O quê? — Vamos dar uma volta na minha moto. Ele já começou a se levantar e eu o sigo rapidamente. Quase tropeço porque o álcool está fazendo efeito e ele agarra meu braço para me manter de pé. Isso me dá um choque que tento ignorar. — Você já está bêbada? — Eu… eu sou um peso leve. Eu rio enquanto digo isso e ele sorri. — Tudo bem. Vá vestir uma calça. Eu vou me vestir. — Você quer andar de moto agora? São duas da manhã. — Eu sei. — ele diz. — Vá se vestir. Vamos. — Você está bêbado? Ele revira os olhos e ri alto, depois aperta meu braço. Isso me dá outro choque no estômago. — Não, claro que não. Uma cerveja não me faz nada. Agora vá se vestir. Seu tom é brincalhão, mas firme, e me tira o fôlego. Não é uma pergunta. É uma ordem. Faço o que ele diz. Ando sorrateiramente pelo quarto, sem querer acordar Liam, embora eu não fosse mentir sobre onde vou. É só um passeio na moto do pai dele. Rapidamente encontro um par de jeans e tênis. Depois que desço correndo, ele está me esperando na garagem. Sinto como se estivesse andando no ar, muito relaxada do álcool, mas não bêbada. Só bebi algumas vezes antes. Gosto da sensação. Olho para ele. Ele está de calça jeans, camiseta larga e botas pretas. Parece que deveria estar pilotando uma moto. Eu caminho ao lado dele enquanto ele empurra a moto para fora da garagem aberta. Ele me ajuda a subir, monta em seguida e puxa meus pulsos para que minhas mãos fiquem apoiadas em sua barriga. — Preparada? — Sim.
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