ELOISE
— Eu não peço ajuda às pessoas. Não é por causa da maneira como fui criado, pelo menos não acho; é a maneira como fui feito...
Releio esse verso inúmeras vezes, voltando a ele, examinando-o e relacionando-o comigo mesma. Tanto que o escrevo no meu diário entre aspas. Fui feita assim, eu sei disso. Isso me deixa amargurada enquanto estou deitada na cama com o livro nas mãos.
Liam saiu para correr com Christian. Não contei a ele sobre minha caminhada na praia com o pai dele ontem à noite. Tenho certeza de que o próprio Christian contou a ele. Talvez ele até tenha contado o que eu disse sobre meus pais. Fico ansiosa só de pensar nisso. Ele certamente me faria perguntas ou me perguntaria por que eu nunca compartilhei essa informação com ele, mas compartilhei com o pai dele. Eu não teria resposta para isso.
Marco o meu lugar, fecho o livro, jogo-o de lado e fecho os olhos. O silêncio aqui pode ser silencioso demais. Como agora. Me dá tempo demais para pensar. Não quero pensar. Preciso me ocupar com outra coisa além de ler. Olho fixamente para o meu cavalete intocado, que está no canto.
Considero minhas opções. Eu deveria pintar. Ou poderia dizer ao Liam que quero ir à cidade, que ainda não vi. Passamos todos os dias aqui, comendo o que a empregada deles cozinha, tomando sol, relaxando. Acho que ele tem se sentido bem confortável aqui. Afinal, este é o longo recesso estudantil dele, então não o culpo. Ele é muito relaxado. Eu queria poder ser assim. Estou sempre ansiosa com alguma coisa, mesmo que eu não saiba o que é.
Pego meu caderno de esboços do criado-mudo e o abro em uma página em branco. Fecho os olhos. Há outro par de olhos ali, na minha mente, escuros e brilhantes. São os de Christian. Abro os olhos rapidamente, vou até a área que preparei perto do meu cavalete com minhas tintas e lápis e pego um lápis carvão.
Esboço seus olhos rapidamente, intensamente concentrada, enquanto vejo outras coisas. Seu sorriso e seu rosto, o jeito como seu cabelo é selvagem e ondulado, o som de sua voz... seu corpo enquanto caminhava em minha direção na praia. Os olhos, imperfeitos e desenhados rapidamente, parecem muito com os dele. Eu poderia fazer uma réplica exata deles se fizesse isso mais devagar. Mas é como se eu estivesse olhando para eles neste papel. Isso me faz sentir estranha, como se eu não devesse ter feito isso, ao mesmo tempo em que me sinto melhor por ter feito.
— Oi.
Olho rapidamente para Liam entrando no quarto, fecho meu caderno rapidamente e o deslizo para o lado. Ele está sem camisa e suado, respirando pesadamente, e me dá um beijo na boca.
— Oi. Como foi sua corrida?
— Ótima. Ótima. Mas preciso de um banho.
Concordo e ele me beija novamente. Observo-o tirar o relógio e a corrente. Ele só tira quando toma banho, já percebi há muito tempo. Quando transamos, sempre fica balançando na minha frente.
Ele entra no banheiro e fecha a porta atrás de si. Consigo ouvi-lo escovando os dentes com a escova elétrica, a descarga do vaso sanitário logo em seguida e o chuveiro ligado. Por um momento, penso em entrar com ele, mas aí ele vai querer tränsar, e eu não estou com nenhuma vontade.
O som de água espirrando chama minha atenção e eu saio da cama, caminho até as portas abertas da varanda e saio. É Christian, nadando na piscina. Observo como ele faz isso com facilidade, mexendo os braços e as pernas, levantando o rosto para respirar a cada poucos segundos. Seus sapatos, meias e uma camisa estão no pátio. Ele deve ter pulado logo depois da corrida. Tento pensar no que ele diria se soubesse que eu tinha acabado de desenhar seus olhos. Ficaria lisonjeado ou desconfortável?
Quando ele para do outro lado da piscina, ele empurra o cabelo para trás, entra na água e, de repente, se vira e olha para mim. Meu coração dispara como se eu tivesse sido pega fazendo algo errado, mas eu apenas sorrio e aceno. Ele retribui os dois.
— Você devia descer para dar um mergulho. A água está ótima.
Eu sorrio novamente.
— Ah, estou bem.
— Bem... então fique à vontade para continuar me observando.
Eu rio e ele nada até a borda da piscina mais próxima de onde estou e então me encara. Olho para mim mesma. Estou usando uma cueca boxer do Liam e um top esportivo. Acho que é a menor quantidade de roupa que já usei desde que chegamos aqui, tirando dormir nua de vez em quando.
— Você já entrou na piscina?
— Não.
— No mar? — Eu balanço a cabeça. — Hum... Você não sabe nadar?
Fiquei surpresa quando ele perguntou isso.
— Não, não sei. É tão fácil assim perceber?
Ele levanta as sobrancelhas e sorri para mim novamente.
— Não, foi só um palpite de sorte. Mas eu posso te ensinar, se você quiser.
— Eu... eu não sei.
— Ensinei todos os meus filhos a nadar. Sou muito bom nisso.
— Eu percebi. Mas o Liam não sabe que eu não sei nadar, então não conte a ele.
— Por quê?
— É constrangedor.
Seu sorriso cresce.
— Não é constrangedor. Mas eu ficaria mais do que feliz em te mostrar como fazer. Sério. Só me avise se você quiser. Ou você pode até pedir para o Liam. Tenho certeza de que ele adoraria te ajudar a aprender também.
— É... Talvez.
Com isso, ele se afasta pela lateral. Eu fico ali por um instante, observando-o subir as escadas e sair. Ele se enxuga e volta para dentro, no momento em que Liam está saindo do banheiro.
— O que você quer fazer hoje?
Dou de ombros enquanto subo de volta na cama.
— Não sei. O que você quer fazer?
Ele coloca o relógio e a corrente de volta no lugar e vai até a cômoda.
— Meus pais querem almoçar fora. Você se importa?
— Por mim tudo bem. Para onde vamos?
— Não tenho certeza... Ah, meu pai disse que te viu na praia ontem à noite. Você estava bem?
— Hum... é. Eu só queria dar uma volta.
Ele está tirando roupas e escolhendo o que vestir. Está entre shorts de corrida e camiseta lisa ou jeans e gola V. Olho para a pilha de conchas pretas no criado-mudo e me lembro da conversa que tivemos ontem à noite. Mesmo agora, pensar nele dizendo que está orgulhoso de mim me faz sorrir.
— Você deveria ter me acordado. Eu teria ido com você.
— Eu não queria incomodar você.
Eu também só queria ficar sozinha, mas não vou dizer isso. Ele sorri, vem até mim, me beija no rosto e se senta ao meu lado.
— Você nunca é um incômodo para mim. Espero que saiba disso.
Aceno e o beijo de volta, primeiro na bochecha, depois na boca. Ele tem gosto de pasta de dente de menta e está sorrindo quando se afasta de mim.
— Você é tão linda, Elô. Espero que esteja se divertindo aqui comigo.
Eu coro e sorrio de volta.
— Estou sim.
Nós nos encaramos por um momento e eu observo seu rosto. Ele parece feliz por estar comigo. Ele é simplesmente uma pessoa feliz no geral. Toco sua bochecha e me maravilho com o quão azuis são seus olhos.
— Você é muito bonito, sabia? Poderia ter qualquer garota que quisesse.
Ele revira os olhos e ri.
— Não sei por que você não se acha tão bonita quanto é. E eu só quero você.
— Por quê?
— Não sei. Há vários motivos.
Reviro os olhos e ele sai da cama e começa a se vestir. Ele escolhe jeans e blusa preta de gola V com tênis preto, e fica ótimo neles. Decido usar apenas um vestido, prender o cabelo num r**o de cavalo e fazer uma maquiagem bem leve. Só os olhos, rímel e delineador, o que os destaca de um jeito que eu gosto.
Enquanto calço um par de sandálias, ouço um motor acelerando ruidosamente ao longe. Não há outras casas por quilômetros, e lanço um olhar interrogativo para Liam.
— O que é aquilo?
— Provavelmente meu pai. Ele disse que vai sair de moto hoje.
Claro que alguém como o Cristian tem uma moto.
— Minha mãe odeia isso, então prepare-se para ouvi-la reclamar sem parar.