A luz do quarto me desperta aos poucos, forçando meus olhos a se abrirem. O cheiro suave do perfume de Raed paira no ar, denso e perturbador, como se ele tivesse deixado sua marca ali. Isso é suficiente para me tirar de qualquer estado de letargia.
Levanto-me e o procuro com o olhar. Ele está na sacada, de costas para mim, encarando o horizonte. Seu terno cinza chumbo, impecavelmente ajustado, parece uma extensão de sua personalidade controladora.
Limpo a garganta, quebrando o silêncio. Ele se vira lentamente, e minha atenção é atraída para seus cabelos penteados para trás com perfeição. A camisa cinza clara combina com o terno e a gravata preta que carrega tons sutis de cinza. Tudo nele é um exemplo de ordem e controle, uma contradição ao caos dentro de mim.
— Sabah alkhayr. — Minha voz soa mais firme do que me sinto.
— Sabah alkhayr.
Ele dá um passo em minha direção, e sinto meu corpo se preparar para o impacto de sua presença. Não consigo evitar o instinto de quase me encolher, mas ele percebe e para.
— Não precisa me olhar assim, eu só vou conversar com você.
Minha tensão diminui um pouco, e solto o ar que nem percebi que segurava.
— Tudo bem.
Raed se senta na borda da cama, e o perfume dele se intensifica. A proximidade dele é desconcertante, e eu me esforço para manter a compostura enquanto o encaro com seriedade.
— Podemos esquecer por alguns minutos que você nos odeia?
Eu não o odeio. Não consigo responder, mas assinto, deixando que ele continue.
— Ficarei fora por quinze dias. Preciso viajar a trabalho.
— Entendo.
Ele esboça um sorriso, mas é vazio, sem humor algum.
— Vai se ver livre da minha presença.
Não respondo de imediato, deixando um silêncio desconfortável crescer entre nós antes de finalmente murmurar:
— Boa viagem.
Ele não se move, e algo no olhar dele muda.
— Há outra questão, mais delicada. — Sua voz é cuidadosa, mas as palavras me deixam tensa.
— Mais? — Minha resposta vem carregada de ironia.
— Quando eu voltar, logo nos casaremos.
As palavras dele soam como um golpe inesperado, mas estranhamente, sinto uma calma inquietante. Talvez seja o efeito de tantas surpresas que minha mente já não consegue reagir.
Percebo que fico em silêncio por tempo demais, e ele me observa como se esperasse algo.
— Não vai me perguntar por que resolvi antecipar nosso casamento?
— Por quê? — pergunto, quase num sussurro.
— Você, hospedada na minha casa, tem causado comentários entre os empregados. Toda hora ouço uma coisa aqui e outra ali. Hoje mesmo fiz uma reunião com todos e já repreendi essas fofocas. Mas sei que isso não dura. Precisamos resolver sua situação logo. Afinal, você será minha esposa, e não quero que saia daqui nenhum comentário m*****o sobre você.
Suas palavras me deixam sem ar. Minha mente tenta processar a frieza com que ele trata algo tão sério. Sou alguém que sempre ponderou suas decisões, que nunca agiu por impulso. Ter me envolvido com Zein foi uma exceção, algo que parecia tão certo na época.
Agora, tudo se mostra como uma sequência de erros: acreditar nele, engravidar, e descobrir que ele nunca teria me assumido.
— Tudo bem. Vocês já puxaram mesmo as cordinhas da manipulação. Estão no controle... O que posso dizer?
Raed contrai os lábios, mas não responde à provocação. Em vez disso, tira um celular do bolso e o entrega para mim.
— Para nos falarmos. Meu número está aí. Qualquer coisa, me liga, não importa o dia ou a hora.
— Está certo.
Ele hesita, como se quisesse dizer algo, e então, com um tom mais suave, murmura:
— Perdoe-me por ontem. Eu não sei o que deu em mim. Sei que ainda sofre pelo meu irmão.
Engulo em seco, incapaz de encará-lo. Se ao menos ele soubesse... não sofro por Zein. A culpa me consome por não sofrer. E, ao mesmo tempo, me sinto justificada depois de tudo o que descobri sobre ele.
— Tudo bem.
— “Está certo, tudo bem”. É só isso que sabe dizer?
Eu passo a mão nos olhos, cansada de toda essa conversa.
— É tudo. Você está acostumado com casos descompromissados. Sai com mulheres e depois as esquece. Então, para você, este casamento é algo do tipo. Mas para mim não. Casamento é algo sério, e o sentimento “amor” deveria prevalecer.
Raed suspira e, com um tom seco, retruca:
— Na nossa cultura, casamos por muito menos, e os casamentos duram. Aqui, os casos de divórcio são baixíssimos.
Respiro fundo, frustrada. Como fazê-lo entender? Como explicar algo que ele nem parece disposto a ouvir?
— Tudo bem, Vossa Excelência. Vou encarar o inevitável com otimismo.
Raed se levanta, sem responder, e sai do quarto sem olhar para trás.
Fico ali, sozinha, sentindo o peso de suas palavras e das decisões que não sou mais livre para tomar. A opulência ao meu redor se torna mais sufocante, como se as paredes do quarto estivessem se fechando lentamente. Tudo que posso fazer é respirar fundo e tentar me convencer de que o otimismo forçado será suficiente para me manter de pé.