— Você questiona demais! Deveria ter se questionado assim antes de abrir suas pernas para o meu irmão.
As palavras caem como uma bomba, uma explosão que destrói qualquer vestígio de confiança que ela pudesse ter em mim. Ela fica vermelha, o rosto se tornando um reflexo de sua ira. Eu vejo a frustração em seus olhos, e de repente me dou conta de que só piorei as coisas. Eu sou incapaz de ver o que ela realmente precisa, de perceber os limites entre nós.
Ela se vira para sair, mas algo dentro de mim a puxa de volta. Eu avanço em sua direção, meu corpo tenso, e a seguro pelo braço. Ela tenta se livrar da minha mão, mas meus dedos se fecham como garras, incapazes de soltá-la.
— Isabela.
— Me solta! — ela grita, sua voz agora cheia de desespero. Eu vejo o medo, a raiva e a frustração se misturando, mas não consigo deixar de segui-la, de manter essa proximidade que me consome.
Eu respiro de forma irregular, a tensão em meu corpo quase me quebrando. Mas não posso permitir que ela me fuja. Ela deve entender.
— Isabela, não foi a minha intenção te ofender. Mas você me tira do sério. Você deveria se sentir honrada em estar ao meu lado.
Ela começa a rir de forma amarga, um som que me corta como uma lâmina.
— Sim, honrada. Devo ficar mesmo, afinal, não sou boa o suficiente para sua família.
A raiva explode dentro de mim, mas eu me contenho, me forçando a encará-la com um olhar de fogo. Meus olhos fixam-se nos dela, e depois descem para os seus lábios, vermelhos e macios. Eu não posso mais controlar. Com um movimento rápido, a puxo para mim, fazendo com que ela fique presa nos meus braços, de costas para mim.
Aspiro o cheiro de seus cabelos, inalando profundamente, e então digo, quase em um sussurro, no seu ouvido:
— Não se deprecie, habibi, pois eu a quero. Sim, você é boa o suficiente para mim.
Ela permanece imóvel, congelada em meus braços, e eu a viro para me encarar. Suavemente, passo minhas mãos pelos seus cabelos, tocando-a de forma delicada, como se esse toque pudesse dissolver a tensão entre nós.
— Estou sentindo agora uma ânsia irresistível de beijá-la.
Eu a observo com atenção, esperando que seus olhos se abram, que ela ceda à minha proximidade. Mas ela apenas me olha, impassível, uma máscara de indiferença que me frustra ainda mais. Coloco meu braço em volta de seus ombros rígidos, e então inclino minha cabeça, sentindo sua respiração ofegante, seu coração pulsando rapidamente sob o meu toque.
Medo? Desejo? Não sei.
— Podemos nos dar muito bem — eu digo, e, impulsivo, mordisco seus lábios.
Ela me olha com firmeza, seus olhos fixos nos meus, e as palavras dela caem como uma chuva de pedras.
— O que foi, Raed? Você era o tipo de criança que queria os brinquedos de seu irmão? Por isso me quer também?
Eu fico paralisado. O impacto de suas palavras é mais forte do que qualquer coisa que eu tenha enfrentado até agora. Eu não estava preparado para isso. Mas ela aproveita meu estado catatônico e escapa de mim, se afastando com rapidez, deixando-me ali, perdido, uma mistura de angústia, raiva e desejo.
Isabela
Encontro meu quarto e fecho a porta com um suspiro pesado, como se o simples ato de bloquear o mundo lá fora fosse capaz de acalmar o turbilhão dentro de mim. Me encosto à porta, e as lágrimas começam a escorrer silenciosamente pelo meu rosto. Eu as deixo cair, mas m*l consigo controlá-las. Detesto confrontos, e esse, em particular, me rasga por dentro. O Raed de hoje é um homem distante, consumido por suas próprias convicções e traumas. Mas o homem que ele foi… Eu ainda me lembro dele, sempre pronto a me ajudar, tão hospitaleiro, tão cuidadoso. Ele era a personificação da gentileza, alguém que me fazia sentir segura. Eu queria tanto que ele voltasse a ser aquele homem, o homem que me dava apoio, que olhava para mim com carinho.
Eu tentei, com todas as forças, apelar para esse Raed do passado, mas, por mais que eu o busque, ele está perdido em uma ideia fixa — a de que devemos nos casar por causa da criança.
Que futuro pode existir em um casamento como esse? Eu sei que ele pode durar, pode até se prolongar, mas será que eu serei feliz? Será que ele será feliz? O medo se instala no fundo do meu peito, uma angústia que aperta, me faz questionar cada passo que dei até aqui. Tenho medo de sofrer. De me perder nesse relacionamento e de, ao final, descobrir que ele nunca me enxergou completamente, que ele permanece preso à superfície, a esse Raed fechado que ele sempre foi. E eu… eu não sei se consigo continuar assim.
Com um suspiro profundo, me afasto dos pensamentos que me consomem. Sento-me na cama, a angústia misturando-se com o cansaço emocional. Tento afastar tudo o que me atormenta, mas é difícil, como se algo dentro de mim estivesse preso. Respiro fundo e, sem saber por que, visto minha camisola. Não tenho sono. Não consigo fechar os olhos para a tempestade que está dentro de mim. Me levanto e abro a porta de vidro, saindo em direção à varanda. O ar fresco da noite me envolve, mas não alivia o peso que carrego. Caminho até o parapeito, e lá fico, observando o mar prateado pela luz do luar. As ondas se quebram suavemente, mas o som que elas fazem parece ecoar em meu peito, como se o mar estivesse tentando me falar, tentando me consolar de alguma forma.
Respiro fundo, deixando o cheiro da maresia invadir meus pulmões, mas nada parece acalmar o turbilhão dentro de mim. Allah! Nunca imaginei que me casaria assim, com um homem que carrega tanto peso em sua alma. Um mártir. Isso é o que ele é, e eu sou incapaz de negar que sinto uma profunda tristeza por tudo o que ele passou. Mas isso não torna a situação mais fácil de lidar.
Estou lidando com um homem traumatizado, um homem que foi marcado pela infância, e que parece não saber como lidar com isso. Essa dor que ele carrega, esse peso que o define, faz com que ele se agarre à ideia de casamento como uma solução para suas inseguranças. Eu entendo isso. Eu entendo a dor dele. Mas, ao mesmo tempo, não posso deixar de me perguntar até que ponto isso será o suficiente. Eu sei que nada do que eu diga ou faça será capaz de mudar sua visão. Eu sou apenas uma peça em um jogo maior que ele criou em sua mente. E talvez, no fundo, eu seja apenas uma forma de redenção para ele, uma tentativa de preencher os vazios que ele carrega dentro de si.
Mas e eu? O que será de mim nesse jogo?