— Sim, estava tudo muito gostoso. — Respondo, a sensação de estar cheia de mais uma boa comida aquecendo minha alma.
— Donatela cozinha muito bem. — Ele diz com um sorriso, claramente satisfeito.
Donatela entra na sala de jantar com um sorriso, provavelmente feliz com o elogio.
— Que bom que gostaram. — Ela diz, os olhos brilhando com a satisfação de um trabalho bem feito.
Raed sorri descontraído para ela, e eu noto que, mesmo após um jantar simples, ele consegue ficar ainda mais bonito. Há algo nele quando sorri sem reservas, uma leveza que contradiz a sua postura controlada de sempre. Esse sorriso, descontraído e genuíno, é como se ele revelasse uma outra faceta de si mesmo, uma que é difícil de ignorar.
— Vem, vamos até a varanda? — Ele me convida, estendendo a mão, e a oferta de continuar a noite fora parece um convite irresistível, uma forma de prolongar aquele momento que ainda parece ter tanto por revelar.
A expressão em seu rosto me demonstra que ele está com receio da minha resposta. Reluto, mas aceito seu convite com um aceno de cabeça.
Ele me ajuda com a cadeira, e eu, nervosamente, o sigo. Ele então abre a porta de vidro, o perfume que ele usa vem com o vento e é maravilhoso. Deparo-me então com a mesma vista do quarto, mas não vou até o parapeito; vou até a espreguiçadeira que ele indica com a mão para eu me sentar.
Me sento, e ele se senta na outra ao meu lado.
— Fale-me de você. — Ele me pede, a voz suave, mas carregada de uma curiosidade que parece genuína.
Olho para frente, suspiro e, por fim, começo a contar a ele sobre minha vida. Mas sem olhar para os seus olhos. Fico dizendo tudo observando o horizonte estrelado à minha frente, sentindo a brisa fresca no rosto. De repente, me dou conta de algo. Zein nunca me pediu isso. Ele nunca quis saber nada sobre mim, nem mesmo o que estava por trás de cada momento.
— Então sua tia era roqueira? — Raed pergunta, sua voz tranquila, mas com uma pitada de humor.
Eu o encaro, rindo.
— Sim, daquelas que vestem preto, usam meias arrastão, e tocam guitarra com paixão. — Respondo, rindo ainda mais, como se essa lembrança fosse uma conexão mais antiga, um resquício de uma vida que não volta mais.
Raed me estuda, mas sem sorrir. Seu olhar permanece fixo, pensativo, como se estivesse tentando entender mais do que apenas a piada.
— Sei que ri disso agora, mas deve ter sido difícil para você perder seus pais. — Ele diz, com uma seriedade que me faz hesitar.
Eu respiro fundo e fico séria.
— Não, não foi fácil. Você também perdeu sua mãe cedo, com dois anos de idade, não é isso? — O questiono, louca para ouvir mais sobre ele, para entender essa vontade de enfrentar todos por causa da criança, como se algo nele tivesse sido moldado por essa dor.
Agora é a vez de Raed olhar para frente. Dá para perceber que isso mexe com ele. O silêncio que se forma entre nós é carregado de uma intensidade incomum, e ele parece distanciar-se ainda mais dos seus próprios sentimentos.
— Sim. — Ele diz de forma concisa, como se não gostasse de tocar no assunto, como se o assunto fosse mais doloroso do que suas palavras deixam transparecer.
Eu insisto, tentando puxar mais daquilo que ele não quer revelar, algo que parece ser a chave para compreendê-lo melhor.
— É por isso que não quer que meu filho tenha o mesmo destino? — Pergunto, com mais firmeza, ansiosa por entender suas motivações mais profundas.
Raed fica em silêncio, e eu posso sentir que algo dentro dele se fecha, como uma porta que se tranca. Ele não responde imediatamente, e a tensão no ar se torna palpável.
Raed
Ah, Isabela, eu te desejo. É duro reprimir tudo o que sinto. Como confessar o que sinto se você se esquiva de mim o tempo todo? Sempre tão tensa, tão retraída...
Eu simplesmente travo. Os pensamentos me perturbam, querem sair, mas não consigo organizar as palavras. Por fim, respondo à sua indagação, tentando retomar o controle da situação:
— Sim. O filho que você espera será muito amado. Terá um pai e uma mãe. — Eu respiro fundo. — Mas não vamos falar disso. Fale-me um pouco de você.
Nesse momento, meu celular toca. Olho para a mesinha ao lado e hesito. Antes que eu possa decidir, Isabela o pega e o atende.
— Só um minuto, por favor.
Isabela segura o celular com firmeza, me entregando o aparelho sem um pingo de hesitação, mas seus olhos estão cheios de uma intensidade que me desconcerta. Ela parece observar cada movimento meu, como se estivesse esperando que eu fizesse algo errado, e o silêncio entre nós pesa mais do que qualquer palavra que eu pudesse dizer naquele momento.
Quando finalmente atendo, sinto a tensão tomar conta de mim. A voz de Camily, com seu tom insistente e familiar, penetra meus ouvidos, e a irritação cresce dentro de mim. Eu respiro fundo para tentar manter a calma, mas a sensação de impotência é quase insuportável.
Se eu desligar, é suspeito, mas se eu atender e ela ouvir, é ainda pior. Por fim, atendo, entrando para dentro da casa. Mas que droga!
— Pensei que estivesse tudo resolvido entre nós. Por favor, não me ligue. Eu não quero mais saber disso. Já te disse, Camily. Não me liga mais, e tudo isso acabou. — Respondo com firmeza, tentando não ceder à tensão que ameaça me engolir.