Nós vamos viajar!

740 Words
Pouco tempo depois, entro na sala e me deparo com Isabela. Ela está sentada no sofá, distraída com um livro nas mãos. Seus dedos delicados percorrem a borda das páginas enquanto os cabelos de fogo, que sempre me fascinaram, caem suavemente sobre seus ombros. Estão mais compridos agora, e eu me pergunto se foi intencional ou apenas o tempo passando sem que eu percebesse. Isabela Saladino é a mais pura perfeição. Uma combinação estonteante de inteligência, ousadia, força e uma vulnerabilidade que aparece nos momentos mais inesperados. Foi essa mistura que me enfeitiçou e continua me prendendo, como uma corrente invisível que não quero quebrar. Meus olhos percorrem sua figura delicada. Ela veste uma saia preta justa e uma blusa branca simples, mas nela até a simplicidade parece sofisticada. Um leve movimento de suas pernas, ao descruzá-las, faz meu coração disparar de um jeito quase doloroso. O vislumbre de sua pele pálida e macia faz minha respiração vacilar. Tento manter o controle, suavizar meu olhar quando seus olhos verdes encontram os meus. Ela respira fundo e ergue o queixo, uma expressão firme e determinada substituindo qualquer traço de vulnerabilidade. — Tudo bem? Sua voz é calma, mas seu tom denuncia algo além do normal. Embora um pouco pálida, ela está ereta, o queixo levantado em um gesto de orgulho inabalável. — Seu pai esteve aqui. — Sua afirmação é direta, sem rodeios, e sinto meu peito arfar enquanto a informação me atinge como um golpe. Um nó desconfortável se forma na minha garganta, e eu tento camuflar o nervosismo. — Aqui? — Minha voz soa firme, mas por dentro estou um caos. Isabela mantém os olhos fixos em mim, desafiadores, como se estivesse esperando por algo mais do que uma reação superficial. Seu silêncio é quase sufocante. Allah! Claro que ele a procuraria. Eu deveria ter imaginado. Caminho até ela, sentindo minhas pernas hesitarem a cada passo. Sento-me ao seu lado, mas o nervosismo dela é quase palpável, tornando o ambiente ainda mais carregado. Tento parecer calmo, mas a preocupação me consome. — Ele... disse algo a você? Te ofendeu? — Minha voz sai mais baixa do que eu pretendia. Ela balança a cabeça devagar. — Não. Ele até foi muito educado, considerando o tamanho do ódio que sente por mim. Educado? Essa palavra, vinda dela, me deixa ainda mais desconfiado. — E...? — Pergunto, a voz carregada de tensão. Ela suspira. — E nada. Eu passei m*l. Acho que fiquei tão nervosa com a presença dele que desfaleci aqui mesmo, nesse sofá. Meu coração afunda ao ouvir isso. Uma mistura de alívio e culpa me invade. Alívio porque ele não a ofendeu. Culpa porque, de alguma forma, é minha responsabilidade protegê-la de situações como essa. Preciso tirá-la daqui. Ficar sozinho com ela, longe de tudo e todos, sem interferências. — Nós vamos viajar! — A decisão sai num ímpeto, sem reflexão. Isabela me olha surpresa, seus olhos verdes se arregalando. — Viajar? — Sim. Será bom para você. Você precisa mudar de ares. Espairecer. Ela estreita os olhos, como se estivesse analisando cada palavra minha. — Eu ou você? Passo a mão pelo rosto, tentando organizar meus pensamentos. — Nós dois. Eu também preciso. Ando estressado. Ela inclina a cabeça levemente, confusa. — Você resolveu isso agora? A encaro com firmeza, decidindo que uma mentira inofensiva é o melhor caminho para convencê-la. — Tenho pensado nisso. Você disse que não me conhece, certo? Pronto. Vamos resolver isso. Vamos nos conhecer melhor. Isabela passa a mão pelos cabelos, um gesto nervoso que só aumenta meu desejo de protegê-la. — Co...nhe...cer como? — Ela gagueja, claramente desconfortável. Minha expressão se torna séria, mas minha voz é suave. — Conversar, trocar ideias... — Digo, tentando transmitir calma e confiança. Ela aperta os lábios, como se tentasse processar minhas intenções. — Você está com medo de fraquejar e voltar para a sua ex, que deve estar rondando você? Suas palavras são como uma faca cravada no meu peito. Aperto os lábios, contrariado, lutando contra a irritação que ameaça emergir. — Não. Eu nem pensei nela. Estou pensando em nós. — Minha voz endurece levemente, mas rapidamente suavizo o tom. — Vamos nos casar, não vamos? Só me dei conta de que estou agindo errado, colocando o casamento na frente do companheirismo, da amizade. Ela ergue as sobrancelhas, como se não esperasse essa resposta. — Você sabe o que seu pai queria falar comigo?
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