ASSASSINA

1041 Words
Londres, janeiro de 2010. — Então, o senhor tem uma conexão com o orfanato? — Sim, eu tenho. Não foi o acaso que nos trouxe até esse escritório — Dizia Dr. Feen, com um semblante sério, fixo a mim. Ele estava de pé, enquanto eu, sentada. O céu de Londres fora manchado por uma negritude bordada de estrelas, que há muito não se via. Já era tarde da noite. Dr. Feen era meu psicólogo e ao mesmo tempo, documentarista da minha peculiar jornada ao Insanity Asylum. O que eu não imaginava é que aquela consulta estava indo um pouco além do esperado. — Se você é filho de um dos donos de lá, por que não me contou isso desde o início? — Porque tem coisas que devem ser ditas no momento certo, para não gerar conflitos. Passei muito tempo te procurando, Pandora. A única que encontrei, sobrevivente do orfanato. Insanity Asylum foi um lugar muito pouco explorado pela mídia. Desde que a mansão se tornou o que conhecemos como orfanato, nunca mais se ouviu falar sobre. Eu, como m****o da família que fundou as instalações, me sinto na obrigação de registrar tudo o que se passou por lá — Observei atentamente. O rapaz parecia apreensivo. — Você... também já foi internado lá? — Perguntei. — Sim, eu já fui. ... Ploc Ploc. Faziam as goteiras ali perto. Perto de um lugar que nunca jamais tinha visto. A verdade é que temo abrir os olhos todas as vezes que acordo. Ou estarei em uma velha cama, em um lugar subterrâneo, onde o vento e sol não nos visitam, ou estarei em um lugar muito triste, onde teria que presenciar perdas horríveis, sem nexo, e na melhor das hipóteses, eu poderia estar em um desafio, pegando lebres, passando por labirintos e quem sabe, lutando comigo mesma. Mas não. Desta vez. Desta única vez, eu não estava nem em um e nem em outro. Me encontrava em um ambiente depravado, gelado. À minha frente, um portão de ferro, com grades grossas e uma pequena janela quadrada do lado oposto da porta. As paredes eram feitas de enormes pedras acinzentadas. Já a iluminação, vinha diretamente da lua lá fora. Me levantei, tremendo de frio, só com a roupa do corpo: Uma camiseta listrada e um short jeans, velho. Eu daria de tudo por um cobertor naquele momento. Ou melhor, daria de tudo para entender o que estava acontecendo. Uma pontada de leve pulsou no meu pescoço. Não haviam drenadores ali. Somente eu, uma cama velha com colchão bege cheio de buracos, e uma privada com um odor terrível. Levantei devagar e caminhei para a janela. Parecia ser bem alto daqui de cima. Longe de ser o primeiro andar, ou o segundo. Aquele, só podia ser o temido terceiro! Onde as regras deixaram claras o quão proibido ele é, ao menos até o termino das férias. Uma neblina ofuscava a paisagem além. Mas pude ver grandes arvores ali embaixo. O orfanato inteiro parecia ser rodeado por elas. Ironicamente, pois de verde, não vemos nada a não ser a sopa gosmenta da merendeira. Agora, presa duplamente, uma no orfanato, e outra, em uma prisão dentro do orfanato. Quando as lagrimas voltaram a escorrer, e o coração pulsar forte, percebi a catástrofe que havia ocorrido, bloqueando qualquer outro pensamento. Eu ainda conseguia ver a maldade cintilar nos olhos daquela mulher, entre outras cenas horríveis. Jamais esqueceria disto. Não esqueceria daquele cadáver inocente, que me protegeu inúmeras vezes, e me proporcionou momentos felizes mesmo em dias tristes. Ela vai estar sempre comigo, nos meus pensamentos. E seja lá aonde ela estiver, espero que esteja bem. — Descanse em paz, meu anjinho de quatro patas — Disse aos ventos, enquanto com o dedo indicador, desenhava no chão, seu nome, aproveitando a camada de poeira. A letra "L" se desmanchou quando minhas lagrimas caíram apressadas. O que pensariam meus pais, se soubessem o destino que tive? Estariam me olhando de algum lugar, se lamentando? m*l sabiam que nem mesmo Luna se salvaria. Claro, alguém da família teria que ficar para carregar tanta desgraça. A filha única, agora órfã, castigada pelos Deuses por algum motivo, posta à prova. Eu tinha uma casa linda, com uma família presente. Mesmo em um bairro não muito atraente, mas acolhedor. Tinha pouquíssimo amigos, porém incríveis, e estudava em uma escola mediana, que fazia parte do pacote da vida de uma jovem comum. Quanto mais eu sofria, mais memorias apareciam. Elas iam voltando com o tempo. Olhei além da porta com grades e notei um corredor escuro. Apesar de ter acordado de um pesadelo que de fato aconteceu, meu corpo implorava por mais um cochilo. Eu ainda estava meia dopada. Aproximei da porta e apertei a vista para ver se encontrava algo além do breu. E encontrei. No final dele, havia uma sombra de quase dois metros. Algo grande se aproximava devagar. Emitia um grunhido baixo, mas assustador. Me afastei aos tropeços, aliviada por estar protegida pelas grades. Ou não. Talvez a criatura poderia destruir esta cela facilmente. Quando chegou mais perto, vi um animal de pelos negros, e olhos esbranquiçados, cego, cuja as patas afiadas podiam me m***r em um só golpe. Era um lobo. O lobo que protegia as instalações. Bicho de estimação do Rumpel, o zelador. Fiquei ofegante e meus olhos se arregalaram de medo. Ou ele me trucidaria, ou ficaria ali, parado, me vendo por tempo indeterminado. A luz da lua refletia seus pelos negros. Ele ficou um metro de distância da porta e deitou no meio do corredor. Não fez mais barulho, e nem nada do tipo. Metade de seu corpo fora engolido pelas sombras, onde a luz não conseguia alcançar, e a outra metade, exposta, menos ameaçadora. O lugar entrara em um profundo silencio, a não ser pelos roncos grotescos que minha barriga produzia. Eu estava morrendo de fome. Sentei em um canto, longe do alcance da luz. Abaixei a cabeça em meus joelhos abraçando-os forte. Pensando melhor, eu preferia comer a sopa gosmenta da Dalva, a merendeira, do que permanecer aqui, neste estado. As goteiras ali perto continuavam a fazer ploc, quando o sono finalmente me alcançou, fazendo tudo de r**m desaparecer por um tempo.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD