A morte

1436 Words
Capítulo 3 Ponto de Vista de Sofia ​A primeira coisa que senti foi a claridade. Não a claridade do sol, mas a luz branca, estéril e impiedosa de um hospital, uma luz que parecia querer dissecar minha alma ali mesmo. O zumbido constante dos monitores cardíacos era o único som que preenchia o ambiente, um ruído monótono que, em vez de me acalmar, martelava minhas têmporas como um lembrete c***l de que eu ainda estava presa àquela existência. Eu estava em uma cama de hospital, o corpo conectado a fios, tubos e máquinas. Havia agulhas cravadas em minhas veias, entregando um líquido frio que corria pelo meu sangue, uma sedação que tentava entorpecer uma dor que ia muito além dos músculos ou dos ossos. ​Estranhamente, meu corpo não sentia a agonia física das horas de tortura no porão, apenas uma dormência profunda, um entorpecimento quase sobrenatural. Com os dedos trêmulos, movendo-me com a lentidão de quem desperta de um pesadelo prolongado, levei a mão até o meu ventre. A resposta que recebi foi o silêncio. A planície do meu estômago, agora desprovida da vida que eu carregava, era um testemunho da minha derrota. O vazio era absoluto, um abismo escuro onde outrora existiu a esperança de um futuro. A lágrima que escorreu pelo meu rosto não era de dor física; era de um luto infinito, um luto por tudo o que foi roubado de mim antes mesmo de poder nascer. ​O médico, um homem de rosto pálido e movimentos mecânicos, aproximou-se, checando meus sinais vitais com um profissionalismo que me dava náuseas. Ele era apenas mais uma peça no mecanismo daquele inferno. Tentei falar, implorar por notícias, perguntar por que eu ainda estava respirando, mas minha voz morreu na garganta. Não houve som. Apenas um engasgo seco e desesperado. Algo estava terrivelmente errado. Senti uma rigidez estranha, uma ausência, uma cicatriz latejante onde deveria estar a minha língua. ​A porta abriu-se com um estrondo, e a silhueta que surgiu não me surpreendeu, mas me paralisou. Lourenço entrou no quarto com a postura de um monarca que acabou de conquistar um reino devastado. Seus olhos, de um castanho que um dia achei ser caloroso, agora tinham o brilho c***l de um predador satisfeito. Ele fez um sinal seco para que o médico se retirasse, e assim que ficamos a sós, um sorriso distorcido surgiu em seu rosto — um sorriso que não era de amor, nem de piedade, mas de triunfo absoluto. ​— Agora, você não vai contar segredos a ninguém — ele disse, a voz sussurrada como uma sentença de morte proferida com calma. ​Arregalei os olhos, o pânico subindo como uma maré n***a. Levei a mão à boca, tocando as ataduras, e o horror me atingiu como um soco. Minha língua. Ela tinha sido arrancada. O sacrifício final para silenciar a verdade. ​— Isso mesmo, bonequinha — ele continuou, caminhando lentamente ao redor da cama como um tubarão circulando sua presa. — Você teve sorte. Foi feito aqui no hospital, sob sedação pesada. Eu realmente pretendia fazer isso com uma faca cega no meu porão, queria ouvir o som da sua resistência enquanto a lâmina trabalhava, mas como você começou a sangrar antes da hora, o médico interveio. Agradeça-me por essa pequena misericórdia. ​Lágrimas ardentes inundavam meu rosto, transformando o mundo ao meu redor em um borrão cinzento. Como pude amar um monstro como ele por todos esses anos? Como fui tão cega, tão ingênua, a ponto de entregar minha vida, minha dignidade e meu legado nas mãos de alguém cujo coração era feito de cinzas? Cada memória que tínhamos juntos, cada carícia, cada juramento de amor agora parecia uma mentira nojenta, uma peça teatral montada apenas para me manter em cativeiro enquanto eles conspiravam nas sombras. ​Antes de sair, ele parou na porta e virou-se, o desdém emanando de cada poro, uma aura de poder que me fazia sentir infinitesimalmente pequena. ​— Sobre aquele erro... — ele começou, gesticulando para minha barriga com um desprezo que quase me fez vomitar. — Eu deixei claro que não queria um filho seu. Ele está morto, Sofia. Não temos mais com que nos preocupar. De agora em diante, você será apenas um fantoche: quieta, calma e obediente. Faça o que eu mando, finja que está tudo bem, ou o próximo a morrer será você. E acredite, a morte será um alívio comparado ao que posso fazer. ​Ele saiu, deixando o vácuo de sua maldade para trás. Mas, no fundo da minha alma, algo havia se quebrado e, ao mesmo tempo, se fundido em algo mais duro, mais frio, mais mortal. O medo fora substituído por um ódio primitivo, uma vontade de destruir que transcendia a minha própria sobrevivência. Se eu ia morrer, eu não morreria em silêncio. ​Com um puxão violento, arranquei o acesso venoso do meu braço. O sangue começou a brotar em gotas vermelhas sobre os lençóis brancos, mas eu não senti nada. A dor física era um consolo, uma prova de que eu ainda estava presente naquele corpo. Levantei-me da cama, as pernas vacilando como as de um cervo recém-nascido, mas minha determinação era uma coluna de ferro. Caminhei até a porta, o corredor do hospital parecendo um túnel interminável de sombras. ​No corredor, vi a cena final: Lourenço caminhava ao lado de Juliette. Eles sussurravam, rindo baixinho, trocando olhares de cumplicidade que provavam que eles acreditavam que o jogo estava vencido. A visão deles dois, juntos, caminhando livremente enquanto eu sangrava por dentro, foi a última fagulha que eu precisava. ​Aproximei-me deles como uma sombra vingativa. Lourenço virou-se, arqueando as sobrancelhas com aquele cinismo insuportável. ​— Já de pé? Você é realmente durona, Sofia. Quase me faz admirar sua teimosia. ​Eu não respondi. Não havia palavras, apenas a ação fria e calculada. Com uma rapidez que surpreendeu a ambos — a rapidez de quem não tem mais nada a perder — avancei. Minhas mãos, embora fracas, foram precisas. Agarrei a arma fria que ele carregava no cós da calça. Em um movimento fluido, antes que ele pudesse reagir, apontei diretamente para o ventre de Juliette. ​— Se eu perdi o meu, você também perde! — meu pensamento foi um grito silencioso que reverberou pelo meu ser. ​Puxei o gatilho. O estampido da arma foi ensurdecedor, um trovão em meio à calmaria daquele hospital. Juliette caiu aos gritos, o sangue tingindo o chão de branco imaculado em um contraste grotesco. O choque foi imediato, um curto-circuito na realidade deles. Um dos seguranças de Lourenço, reagindo por puro reflexo, sacou a própria arma e disparou duas vezes contra o meu peito. ​O impacto foi um golpe de marreta. O ar fugiu dos meus pulmões como se eu tivesse sido esvaziada. Caí no chão, a visão escurecendo enquanto o sangue quente se espalhava sob o meu corpo, formando uma aura carmesim ao meu redor. Lourenço gritava, desesperado, correndo para amparar sua amada Juliette, seus olhos fixos apenas nela enquanto eu, a mulher que ele um dia jurou proteger, morria ali, sozinha, abandonada no frio daquele corredor. ​A vida esvaía-se rapidamente. O mundo parecia recuar, distanciando-se como uma página sendo virada. Com meu último suspiro mental, fiz uma promessa ao vazio que me aguardava: ​— Se existir outra vida... eu vou me vingar. Vou fazer vocês dois pagarem por cada gota de sangue, por cada traição. Vocês não vão escapar de mim. Nem na morte. ​Fechei os olhos. A escuridão da morte me acolheu não como um medo, mas como um abraço gelado e familiar. O silêncio da eternidade envolveu-me. O fim daquela jornada. ​Porém, o destino, em sua infinita e c***l ironia, tinha outros planos. ​Quando abri os olhos novamente, não havia mais o branco do hospital, nem o cheiro de antisséptico, nem o sangue quente sujando o chão. O ar que eu respirava tinha um cheiro diferente: uma mistura de papel velho, madeira encerada, lavanda e algo mais... algo como esperança estagnada. Eu estava deitada em uma cama macia, envolta em lençóis de seda pesada que roçavam minha pele como penas. ​Ao meu redor, as paredes não eram de concreto, mas cobertas por um papel de parede antigo, ornamentado com padrões vitorianos. Eu estava em um quarto que parecia ter sido arrancado de outro século, um lugar esquecido pelo tempo. Minha respiração era estável. Minha língua... movi-a dentro da boca, sentindo-a presente, completa. Minha barriga, embora dolorida por uma sensação de vazio, não tinha as cicatrizes da violência recente. ​
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