Ponto de Vista de Sofia
Assim que Lorenzo e o pai deixaram a mansão, o silêncio durou apenas alguns segundos.
Então meu pai explodiu.
— Aquele desgraçado! — rugiu Dom Francesco Brazine, dando um soco tão forte sobre a mesa que um dos copos de cristal caiu no chão e se despedaçou. — Como aquele moleque ousa entrar na minha casa para tentar manchar a honra da minha filha?
Os seguranças permaneceram imóveis, sem coragem de dizer uma única palavra.
Minha mãe observava tudo em silêncio, visivelmente preocupada.
Eu, porém, apenas assistia à cena.
Na minha outra vida, eu estaria desesperada, chorando e com medo do julgamento de toda a máfia.
Mas agora...
Agora eu sabia exatamente como aquela história terminaria.
Meu pai caminhava de um lado para o outro da sala.
— Se aquela garota estivesse mentindo, eu seria obrigado a entregá-la em casamento! — disse, passando a mão pelos cabelos. — Que vergonha...
— Francesco... — minha mãe tentou acalmá-lo.
— Não! Isso é uma afronta contra a família Brazine!
Olhei discretamente para Luigi.
Ele também me observava.
Pela expressão em seu rosto, ainda tentava entender como eu havia previsto exatamente o que Lorenzo faria.
Meu pai continuou reclamando por mais alguns minutos, até que finalmente saiu da sala para conversar com alguns de seus homens de confiança.
Minha mãe o acompanhou.
Assim que ficamos sozinhos, Luigi fez um sinal com a cabeça.
— Vamos.
Assenti.
Saímos da mansão e caminhamos em direção ao jardim de inverno.
Era um dos lugares mais tranquilos da propriedade.
O ambiente era cercado por enormes janelas de vidro, plantas exóticas e uma pequena fonte de mármore no centro.
Quando éramos crianças, passávamos horas brincando ali.
Hoje...
Aquele lugar seria o início de uma nova história.
Assim que tivemos certeza de que ninguém poderia nos ouvir, Luigi cruzou os braços.
— Sofi...
Olhei para ele.
Ele respirou fundo antes de falar.
— Você estava certa.
Sorri de canto.
— Ainda duvida de mim?
Ele balançou a cabeça lentamente.
— Não.
Pela primeira vez desde que contei tudo, não havia qualquer sinal de incredulidade em seus olhos.
— Agora eu acredito em cada palavra.
Aproximei-me da fonte.
Observei a água escorrendo lentamente.
— Então sabe que isso é apenas o começo.
— Sei.
Luigi suspirou.
— Mas e agora?
Ele se aproximou.
— O que pretende fazer?
Olhei para meu reflexo na água.
Por alguns segundos, vi duas pessoas diferentes.
A garota de dezoito anos.
E a mulher que morreu aos vinte e três.
A inocente havia desaparecido.
No lugar dela existia alguém completamente diferente.
Um pequeno sorriso surgiu em meus lábios.
Um sorriso frio.
Cruel.
— Vou mudar a máfia italiana.
Luigi piscou algumas vezes.
— O quê?
Virei-me para encará-lo.
— Pela primeira vez...
Minha voz saiu firme.
— Uma mulher será o Dom da família Brazine.
Ele permaneceu em silêncio.
Continuei.
— E quando isso acontecer...
Meu sorriso aumentou.
— Vou destruir tradições que existem há séculos.
Luigi arqueou uma sobrancelha.
— Você está falando sério?
— Muito.
Comecei a caminhar lentamente pelo jardim.
— Quantas mulheres foram obrigadas a casar contra a própria vontade?
Ele permaneceu calado.
— Quantas perderam a liberdade por causa de regras criadas por homens?
Nenhuma resposta.
— Quantas morreram sem poder escolher o próprio destino?
Fechei os punhos.
— Eu fui uma delas.
Minha voz falhou por um instante.
Respirei fundo.
— Nunca mais.
Luigi abaixou a cabeça.
— Você mudou muito.
Sorri sem alegria.
— A morte muda qualquer pessoa.
Ele permaneceu em silêncio.
Depois perguntou:
— Mas como pretende fazer isso?
Olhei diretamente para ele.
— Meu pai nunca aceitaria uma mulher como sucessora.
— Exatamente.
— E você só tem dezoito anos.
Assenti.
— Eu sei.
Luigi passou a mão pelos cabelos.
— Então?
Sorri novamente.
— Depois da vergonha que Lorenzo vai passar diante de toda a máfia...
Fiz uma pequena pausa.
— Vou começar meus treinamentos.
Ele franziu a testa.
— Treinamentos?
— Sim.
— Armas.
— Estratégia.
— Administração.
— Liderança.
— Combate.
— Negociação.
— Tudo.
Ele ficou surpreso.
— Você nunca gostou dessas coisas.
— A Sofia daquela vida não gostava.
Olhei para minhas próprias mãos.
— Mas ela morreu.
O silêncio voltou a tomar conta do jardim.
Luigi respirou profundamente.
— Você realmente pretende assumir o lugar do seu pai?
— Pretendo.
— Isso vai provocar uma guerra.
— Eu sei.
— Muitos chefes jamais aceitarão obedecer uma mulher.
Dei um pequeno sorriso.
— Então eles terão duas opções.
Ele esperou.
— Me obedecer...
Meu olhar endureceu.
— Ou serem eliminados.
Luigi arregalou os olhos.
— Sofi...
— Estou cansada de viver em um mundo onde apenas homens decidem o destino de todos.
Caminhei até uma roseira.
Passei delicadamente os dedos sobre uma das flores.
Os espinhos arranharam minha pele.
Observei uma pequena gota de sangue surgir.
— Esta rosa me lembra a máfia.
Luigi aproximou-se.
— Bonita por fora...
Olhei para o espinho.
— Mortal para quem se aproxima.
Ele sorriu discretamente.
— Ainda assim... seu pai nunca permitirá.
Balancei a cabeça.
— Permitirá.
— Tem tanta certeza assim?
Olhei para ele.
— Meu pai me ama.
— Ama.
— E também ama o nome Brazine.
Assenti.
— Depois que Lorenzo for desmascarado...
Respirei fundo.
— Meu pai vai perceber que quase perdeu a própria filha por causa de tradições antigas.
Meu olhar ficou distante.
— Vou usar isso ao meu favor.
Luigi parecia impressionado.
— Você pensou em tudo.
— Tive cinco anos para pensar.
Ele abaixou a cabeça novamente.
Durante alguns segundos apenas ouvimos o som da água da fonte.
Então Luigi voltou a falar.
— Existe outra coisa.
— O quê?
— Lorenzo.
Meu sorriso desapareceu.
— Ele não vai desistir.
— Eu sei.
— Pelo contrário.
— Ele vai ficar ainda mais obcecado.
Fechei os olhos.
Na outra vida...
Quanto mais eu o rejeitava, mais ele fazia questão de me controlar.
Lorenzo não suportava perder.
— Então vou usar isso contra ele.
— Como?
Sorri.
— Homens como Lorenzo acreditam que são os mais inteligentes da sala.
Olhei diretamente para Luigi.
— Esse será o maior erro dele.
Meu primo riu.
— Você está muito diferente.
— Estou.
— Confesso que gosto dessa Sofia.
Sorri pela primeira vez de forma sincera.
— Eu também.
Ele colocou a mão sobre meu ombro.
— Seja qual for o seu plano...
Sua voz tornou-se firme.
— Eu vou estar ao seu lado.
Senti um nó na garganta.
Na outra vida...
Ele morreu tentando me salvar.
Agora...
Eu faria qualquer coisa para impedir aquele destino.
Segurei sua mão.
— Obrigada.
Ele sorriu.
— Somos família.
Olhei novamente para o céu.
O sol começava a se pôr.
Os últimos raios de luz atravessavam o vidro do jardim de inverno, iluminando as flores ao nosso redor.
Na minha vida passada, aquele pôr do sol teria sido apenas mais um.
Agora...
Representava um recomeço.
Respirei profundamente.
Dentro de uma semana, Lorenzo seria humilhado diante de toda a máfia italiana.
Depois disso...
Eu começaria a mudar cada regra daquele mundo.
Não seria fácil.
Haveria resistência.
Traições.
Sangue.
Mortes.
Mas eu estava pronta.
Porque a garota ingênua que acreditava no amor havia morrido naquele hospital.
Quem permanecia viva agora era uma mulher disposta a enfrentar qualquer inimigo para proteger sua família e mudar o destino da máfia italiana.
E, desta vez, ninguém pisaria sobre Sofia Brazine novamente.