Ponto de Vista de Sofia
Luigi me levou de volta para a mansão dos meus pais. Entramos pelos fundos, por um caminho secreto que apenas nós dois conhecíamos. Era uma passagem antiga, construída para servir como rota de fuga em caso de ataque à família Brazine.
Assim que entrei na mansão, fui direto para o meu quarto. Tranquei a porta e tomei um longo banho, tentando lavar do corpo a sensação de ter acordado ao lado de Lorenzo. Enquanto isso, Luigi saiu para providenciar tudo o que eu havia pedido, principalmente encontrar o médico.
Na minha vida passada, eu conheci aquele homem.
Ele era um charlatão.
Ou melhor, um verdadeiro abutre.
Um médico clandestino especializado em reconstruções íntimas. Fazia cirurgias para enganar qualquer pessoa durante exames, lucrando às custas de garotas pobres que eram leiloadas ou vendidas por famílias criminosas. Sempre senti nojo dele.
Na outra vida, Lorenzo o protegia.
Os dois se conheceriam apenas alguns anos depois.
Mas agora seria diferente.
Lorenzo jamais descobriria que aquele médico existiu.
Continuei minha rotina como se nada tivesse acontecido. Apesar dos vários telefonemas da minha falsa amiga, Juliette, que insistia em falar comigo, ignorei todas as ligações.
Na manhã seguinte, saí bem cedo da mansão e fui até a clínica clandestina.
O médico me recebeu com um sorriso ganancioso.
Prometeu total sigilo.
Mas eu sabia exatamente quem ele era.
Sabia que dinheiro era a única coisa que importava para aquele homem.
Por isso, antes mesmo da cirurgia começar, eu já havia decidido seu destino.
Assim que terminasse o procedimento, Luigi acabaria com ele.
Exatamente como havíamos combinado.
No segundo dia, Juliette apareceu na mansão para me visitar.
Como sempre, meus pais a receberam muito bem.
Meu pai a cumprimentou cordialmente antes de sair para resolver assuntos da família.
Minha mãe também precisava acompanhar algumas reuniões relacionadas aos negócios da máfia.
Assim, nós duas ficamos sozinhas.
Fomos até o jardim, como fazíamos tantas vezes.
Sentamos sob a sombra de uma grande árvore enquanto uma empregada servia chá.
Juliette sorriu.
— Então... me conta. Como foi sua noite com o Lorenzo?
Olhei para ela como se não entendesse a pergunta.
— Do que você está falando?
Ela franziu a testa.
— Como assim?
— Eu não dormi com o Lorenzo.
O sorriso dela desapareceu imediatamente.
— O quê?
— Eu vi você entrando no quarto com ele aos beijos. Você não saiu mais de lá.
Dei de ombros.
— Ele estava completamente bêbado.
Ela continuava me encarando.
— Então...
— Nós nos beijamos, mas ele apagou logo depois. Dormiu na mesma hora.
Juliette piscou várias vezes.
— Mas...
— Eu fui embora.
Ela parecia completamente perdida.
— Eu liguei várias vezes para você.
— Eu já estava em casa dormindo. Por isso não atendi.
Ela permaneceu alguns segundos em silêncio.
Depois perguntou, desconfiada:
— Mas você mesma disse que ia dormir com ele...
Percebi que ela quase falou algo sobre Lorenzo, mas mudou de assunto rapidamente.
Sorri de forma inocente.
— Não aconteceu nada.
— Tem certeza?
— Absoluta. Ele m*l conseguia ficar em pé. Depois do beijo, simplesmente desmaiou.
Era mentira.
Uma mentira muito bem contada.
Juliette ficou inquieta.
Eu conseguia ver o desespero escondido em seu olhar.
Ela precisava que Lorenzo tivesse provas para obrigar meu pai a aceitar o casamento.
Sem isso...
Todo o plano deles estaria comprometido.
Ela respirou fundo e mudou completamente de assunto.
— Vamos fazer compras? Depois podemos sair à noite.
Balancei a cabeça negativamente.
— Não posso.
— Por quê?
— Meu pai anda desconfiado de algumas coisas. Colocou vários seguranças para me acompanhar e só permite que eu saia se o Luigi estiver comigo.
Mais uma mentira.
Mas ela acreditou.
— Ah... entendi.
Poucos minutos depois, Juliette foi embora.
Assim que a porta da mansão se fechou, soltei um longo suspiro.
Meu coração ainda estava acelerado.
Foi difícil fingir naturalidade diante da mulher que destruiu minha vida.
O ódio queimava dentro de mim.
Mas eu precisava continuar atuando.
Ela não podia imaginar que eu sabia de tudo.
Ainda não.
Minha vingança seria servida no momento certo.
Naquela mesma tarde, fui até a clínica clandestina.
A cirurgia ocorreu exatamente como planejado.
Foi rápida.
Um sucesso.
Quando tudo terminou, deixei o local discretamente.
Minutos depois, Luigi entrou na clínica.
Conforme havíamos combinado, eliminou o médico.
Em seguida, incendiou todo o lugar.
Nenhum documento.
Nenhum prontuário.
Nenhuma testemunha.
Nenhuma pista.
Era como se aquele homem jamais tivesse existido.
Mesmo assim, eu precisava de alguns dias para me recuperar completamente.
A cicatrização levaria um pouco de tempo.
Até lá, eu teria que improvisar.
No terceiro dia, exatamente como eu lembrava da minha outra vida...
Lorenzo apareceu na mansão.
Veio acompanhado do pai.
Os dois exigiram uma audiência com o Dom Francesco Brazine.
Meu pai aceitou imediatamente.
Poucos minutos depois, fui chamada para a sala principal.
Luigi caminhava ao meu lado.
Ao entrar, encontrei Lorenzo exatamente como me lembrava.
Elegante.
Arrogante.
Confiante de que venceria.
Seu pai mantinha um sorriso discreto.
Meu pai permanecia sentado em sua poltrona, sério.
Lorenzo deu um passo à frente.
— Dom Francesco, eu vim agir como homem.
Meu pai arqueou uma sobrancelha.
— Explique.
Lorenzo olhou diretamente para mim.
— Dormi com sua filha.
Meu pai endureceu a expressão.
— Tirei a inocência dela.
Meu sangue ferveu.
— Agora quero fazer a coisa certa e me casar com Sofia.
Durante alguns segundos, a sala ficou completamente silenciosa.
Meu pai fechou os olhos por um instante.
Quando voltou a falar, sua voz era firme.
— Se isso for verdade...
Ele olhou para mim.
— Então, pelas leis da máfia, vocês deverão se casar.
O pai de Lorenzo sorriu discretamente.
Era exatamente o que eles queriam.
Foi então que dei um passo à frente.
— Isso é mentira, pai.
Todos olharam para mim.
— Eu nunca dormi com Lorenzo.
Meu pai arregalou os olhos.
— Filha... você está dizendo que ele está mentindo?
— Sim.
Olhei diretamente para Lorenzo.
— Ele está tentando manchar minha reputação.
Respirei fundo.
— Eu jamais dormiria com o filho do maior inimigo da nossa família.
Lorenzo perdeu completamente a calma.
— Pare de mentir!
Ele deu um passo em minha direção.
— Você dormiu comigo!
Mantive a postura.
— Nunca.
— Aceite logo esse casamento!
Balancei a cabeça.
— Eu jamais me casarei com você.
Minha voz saiu firme.
— Eu sou a filha do Dom. A herdeira da máfia italiana. Nunca pisaria em um altar ao lado de você.
Os olhos dele ficaram cheios de ódio.
Então sorriu.
Um sorriso perverso.
— Muito bem.
Ele cruzou os braços.
— Vou contar para toda a máfia que a filha do Dom perdeu a virgindade, dorme com qualquer homem e agora não quer assumir as consequências.
Na minha vida passada, aquela ameaça teria me destruído.
Mas não desta vez.
Olhei para meu pai.
— Pai...
Ele me encarou, ainda nervoso.
— Eu continuo virgem.
Todos ficaram em silêncio.
Respirei fundo.
— E posso provar.
Meu pai franziu a testa.
— Como?
— Quero que o senhor convoque todos os chefes da máfia para uma reunião daqui a uma semana.
Lorenzo sorriu com deboche.
Continuei:
— Quero ser examinada por um médico da própria organização, diante de todos.
O silêncio tomou conta da sala.
Meu pai ficou completamente horrorizado.
Era uma humilhação.
Uma mulher jamais desejaria passar por um exame daqueles diante de tantos homens.
Mas minha honra valia mais do que meu orgulho.
Depois de alguns segundos, meu pai respirou fundo.
— Como Dom da máfia...
Sua voz ecoou pela sala.
— Eu aceito.
Lorenzo continuava sorrindo.
— O senhor só vai passar vergonha, Dom.
— Sua filha está mentindo.
Meu pai levantou-se lentamente.
Olhou para Lorenzo.
Depois para o pai dele.
— Eu confio na minha filha.
Sua voz carregava autoridade.
— Agora saiam da minha casa.
Antes de ir embora, o pai de Lorenzo sorriu.
— Espero que sua filha realmente esteja dizendo a verdade.
— Porque, caso contrário, será uma grande decepção.
Meu pai respondeu imediatamente.
— Espero que seu filho esteja preparado para as consequências de tentar manchar a honra da minha filha.
— Isso é um crime gravíssimo dentro da nossa organização.
O pai de Lorenzo deu uma pequena risada.
— Veremos o que acontecerá.
Os dois deixaram a mansão.
Assim que a porta se fechou, permiti que um pequeno sorriso surgisse em meu rosto.
Uma semana.
Era exatamente o tempo de que eu precisava para me recuperar completamente.
E, quando aquele exame acontecesse...
Eu destruiria o plano de Lorenzo Rossi.
Pela primeira vez, o destino estava em minhas mãos.