O Tempo que ficou

1117 Words
O trânsito de São Paulo avançava devagar naquele entardecer frio. Gui mantinha uma das mãos no volante e a outra apoiada no queixo, perdido nos próprios pensamentos. Havia anos que não voltava à aquela cidade, desde o festival em que encontrou Lia, mas uma proposta de trabalho num projeto social de patins reacendeu algo dentro dele, talvez curiosidade, talvez saudade. A rotina da metrópole, com seu ruído constante e cheiro de asfalto molhado, ainda o incomodava, mas havia uma razão mais profunda para seus passos o levarem até ali uma urgência silenciosa que ele não sabia nomear. O carro diminuiu a velocidade diante de uma rua tranquila da Vila Madalena. Gui ergueu os olhos e o tempo congelou. Na fachada de um prédio antigo, com portas de madeira e janelas altas, um nome o atingiu como um golpe no peito: “Estúdio de Dança Lia Montes.” O coração disparou. O passado, que ele acreditava ter deixado para trás, veio em ondas. O sorriso dela, o cabelo solto dançando com o vento, o jeito determinado de caminhar. A lembrança era viva, quase c***l. Ele freou sem perceber o som dos pneus raspando no asfalto ecoou como um aviso do destino. Gui nunca planejara encontrá-la. Durante todos esses anos, optou pelo silêncio. Convencera-se de que deixar Lia seguir era o mais justo, mas agora, diante da fachada com o seu nome, o silêncio parecia covardia. Uma urgência queimava dentro dele: precisava vê-la, nem que fosse apenas uma vez, saber que ela estava bem, que seguiu em frete, que estava feliz. Estacionou. As mãos tremiam. A luz do entardecer refletia nas janelas , e ele via o próprio reflexo misturados, como se duas versões dele coexistissem: o homem que partiu e o que estava de volta. Respirou fundo. Cada lembrança pulsava como um compasso antigo: a dança, o patins, o riso dela, o beijo na chuva. Deu alguns passos até a porta do estúdio, hesitando. Não sabia o que diria, mas algo maior que o medo, maior que o tempo o empurrava adiante. Quando olhou através do vidro, o choque foi imediato. Lia estava lá. O corpo transformado pela maturidade, o olhar atento, sereno. A luz que entrava pelas janelas dourava seus cabelos, delineando o contorno dos ombros. Ela observava as crianças que dançavam, corrigindo gestos com paciência e ternura. Ela parecia feliz, e ele poderia seguir o seu caminho, sem interferir mais uma vez no caminho dela, mas ele não conseguiu partir, ficou imóvel observando aquela cena. O tempo pareceu colapsar. O ar pesou carregado de memórias, de tudo o que não foi dito. Não era mais apenas saudade; era algo mais antigo, mais profundo. Ele quis se afastar dela ao mesmo tempo que quiz se aproximar, dizer qualquer coisa, mas ficou parado, respirando o instante como quem teme quebrá-lo. A cidade desapareceu. Só existia aquele vidro entre os dois mundos. Quando a porta se abriu, o som das crianças ecoou no estúdio, Gui sem pensar deu um passo para dentro. Lia não virou de imediato, mas sentiu a presença de alguém ali, talvez um pai de uma aluna. — Posso ajudar? — perguntou, distraída, a organizando os matérias da aula que estavam espalhados pelo chão. — Eu espero — respondeu uma voz firme, familiar. O coração dela parou. O corpo inteiro congelou antes que a mente alcançasse o óbvio. Aquela voz. Ela virou devagar. Gui estava ali, parado na entrada. O mesmo olhar agora mais cansado, mais humano, o cabelo curto, a barba rala, o casaco ainda úmido da garoa. Nos olhos, o brilho antigo: saudade, culpa e um amor que o tempo não conseguiu apagar. — Oi, Lia. Ela piscou, como se o tempo tropeçasse. Por um segundo, o mundo girou. — Gui... — o nome saiu num sussurro. Ele sorriu. O mesmo sorriso de quando ela dançava na praça, de quando ele a esperava com os patins pendurado no ombro. — Vi seu nome na fachada — disse ele. — Achei que fosse coincidência, mas nunca é, né? Lia largou o cronômetro que segurava e cruzou os braços, tentando conter o tremor. — Faz seis anos. — Eu sei. — Ele respirou fundo. — E ainda assim, parece ontem. O silêncio que se formou era denso. Não o silêncio urgente de antes, mas o silêncio maduro de quem carrega cicatrizes. Ainda assim, havia algo pulsando sob a calma, uma chama pequena que o tempo não conseguiu apagar. — Como você me encontrou? — ela perguntou. — Eu não procurei. — Ele hesitou. — Só não consegui seguir quando vi seu nome na vitrine. Lia sorriu, breve, resignada. — A vida tem dessas ironias. — É. — Ele assentiu. Ela desviou o olhar para o espelho. No reflexo, viu os dois: mais velhos, mais inteiros e ainda ligados por um fio invisível. — O que você está fazendo aqui Gui? Ele deu um passo à frente. — Eu só queria te ver mais uma vez, saber que vice está bem, que está feliz. Lia sentiu o peito apertar, uma maré de lembranças e paz se misturando. Deixou o silêncio falar. Depois, sorriu, um sorriso sereno, bonito, cheio de história. — Eu estou bem, estou feliz. - Ela voltou ao centro da sala recolhendo alguns matérias, precisava de uma distração para acalmar sru coração. A melodia que tocava era lenta e Gui se lembrou de como o corpo dela se movia com leveza. Cada passo era uma lembrança transformada em movimento. Ele a observou em silêncio, o amor, o arrependimento tomando conta dele. E quando os olhos deles se cruzaram novamente o mundo pareceu suspenso como há seis anos, mas, dessa vez, ambos estavam machucados por tudo o que poderia ter sido, mas não foi. O silêncio foi interrompido por uma voz infantil, doce, vinda da porta: — Mamãe! Lia se virou. Clara estava parada na entrada, vestia um tutu rosa, coque torto, segurando pequenos patins coloridos nas mãos. Os olhos castanhos brilhavam como o reflexo do passado. — Esses patins estão com defeitos, eles não me deixam ficar de pé. - disse ela meio em burrada - Posso ensaiar minha dança agora? — perguntou, sorrindo, sem perceber o homem ao fundo. Gui ficou imóvel. Os patins, o olhar, o jeito de segurar o mundo nas mãos pequenas havia nela um eco dele mesmo, uma lembrança viva. Lia ajoelhou-se, ajeitando uma mecha rebelde do cabelo da menina. — Pode, meu amor. Mas devagar, o chão tá frio. A menina assentiu e correu para o centro da sala, rodopiando. Gui olhou para Lia. Lia sustentou o olhar. A música recomeçou. E enquanto a menina dançava, girando como um reflexo de luz, o passado e o presente se misturaram.
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