O trânsito de São Paulo avançava devagar naquele entardecer frio. Gui mantinha uma das mãos no volante e a outra apoiada no queixo, perdido nos próprios pensamentos. Havia anos que não voltava à aquela cidade, desde o festival em que encontrou Lia, mas uma proposta de trabalho num projeto social de patins reacendeu algo dentro dele, talvez curiosidade, talvez saudade. A rotina da metrópole, com seu ruído constante e cheiro de asfalto molhado, ainda o incomodava, mas havia uma razão mais profunda para seus passos o levarem até ali uma urgência silenciosa que ele não sabia nomear.
O carro diminuiu a velocidade diante de uma rua tranquila da Vila Madalena. Gui ergueu os olhos e o tempo congelou.
Na fachada de um prédio antigo, com portas de madeira e janelas altas, um nome o atingiu como um golpe no peito:
“Estúdio de Dança Lia Montes.”
O coração disparou.
O passado, que ele acreditava ter deixado para trás, veio em ondas. O sorriso dela, o cabelo solto dançando com o vento, o jeito determinado de caminhar. A lembrança era viva, quase c***l. Ele freou sem perceber o som dos pneus raspando no asfalto ecoou como um aviso do destino.
Gui nunca planejara encontrá-la. Durante todos esses anos, optou pelo silêncio. Convencera-se de que deixar Lia seguir era o mais justo, mas agora, diante da fachada com o seu nome, o silêncio parecia covardia.
Uma urgência queimava dentro dele: precisava vê-la, nem que fosse apenas uma vez, saber que ela estava bem, que seguiu em frete, que estava feliz.
Estacionou. As mãos tremiam.
A luz do entardecer refletia nas janelas , e ele via o próprio reflexo misturados, como se duas versões dele coexistissem: o homem que partiu e o que estava de volta.
Respirou fundo. Cada lembrança pulsava como um compasso antigo: a dança, o patins, o riso dela, o beijo na chuva.
Deu alguns passos até a porta do estúdio, hesitando. Não sabia o que diria, mas algo maior que o medo, maior que o tempo o empurrava adiante.
Quando olhou através do vidro, o choque foi imediato.
Lia estava lá.
O corpo transformado pela maturidade, o olhar atento, sereno.
A luz que entrava pelas janelas dourava seus cabelos, delineando o contorno dos ombros. Ela observava as crianças que dançavam, corrigindo gestos com paciência e ternura. Ela parecia feliz, e ele poderia seguir o seu caminho, sem interferir mais uma vez no caminho dela, mas ele não conseguiu partir, ficou imóvel observando aquela cena.
O tempo pareceu colapsar.
O ar pesou carregado de memórias, de tudo o que não foi dito.
Não era mais apenas saudade; era algo mais antigo, mais profundo.
Ele quis se afastar dela ao mesmo tempo que quiz se aproximar, dizer qualquer coisa, mas ficou parado, respirando o instante como quem teme quebrá-lo.
A cidade desapareceu. Só existia aquele vidro entre os dois mundos.
Quando a porta se abriu, o som das crianças ecoou no estúdio, Gui sem pensar deu um passo para dentro.
Lia não virou de imediato, mas sentiu a presença de alguém ali, talvez um pai de uma aluna.
— Posso ajudar? — perguntou, distraída, a organizando os matérias da aula que estavam espalhados pelo chão.
— Eu espero — respondeu uma voz firme, familiar.
O coração dela parou.
O corpo inteiro congelou antes que a mente alcançasse o óbvio.
Aquela voz.
Ela virou devagar.
Gui estava ali, parado na entrada. O mesmo olhar agora mais cansado, mais humano, o cabelo curto, a barba rala, o casaco ainda úmido da garoa.
Nos olhos, o brilho antigo: saudade, culpa e um amor que o tempo não conseguiu apagar.
— Oi, Lia.
Ela piscou, como se o tempo tropeçasse.
Por um segundo, o mundo girou.
— Gui... — o nome saiu num sussurro.
Ele sorriu.
O mesmo sorriso de quando ela dançava na praça, de quando ele a esperava com os patins pendurado no ombro.
— Vi seu nome na fachada — disse ele. — Achei que fosse coincidência, mas nunca é, né?
Lia largou o cronômetro que segurava e cruzou os braços, tentando conter o tremor.
— Faz seis anos.
— Eu sei. — Ele respirou fundo. — E ainda assim, parece ontem.
O silêncio que se formou era denso.
Não o silêncio urgente de antes, mas o silêncio maduro de quem carrega cicatrizes.
Ainda assim, havia algo pulsando sob a calma, uma chama pequena que o tempo não conseguiu apagar.
— Como você me encontrou? — ela perguntou.
— Eu não procurei. — Ele hesitou. — Só não consegui seguir quando vi seu nome na vitrine.
Lia sorriu, breve, resignada.
— A vida tem dessas ironias.
— É. — Ele assentiu.
Ela desviou o olhar para o espelho.
No reflexo, viu os dois: mais velhos, mais inteiros e ainda ligados por um fio invisível.
— O que você está fazendo aqui Gui?
Ele deu um passo à frente.
— Eu só queria te ver mais uma vez, saber que vice está bem, que está feliz.
Lia sentiu o peito apertar, uma maré de lembranças e paz se misturando.
Deixou o silêncio falar.
Depois, sorriu, um sorriso sereno, bonito, cheio de história.
— Eu estou bem, estou feliz. - Ela voltou ao centro da sala recolhendo alguns matérias, precisava de uma distração para acalmar sru coração.
A melodia que tocava era lenta e Gui se lembrou de como o corpo dela se movia com leveza.
Cada passo era uma lembrança transformada em movimento.
Ele a observou em silêncio, o amor, o arrependimento tomando conta dele.
E quando os olhos deles se cruzaram novamente o mundo pareceu suspenso como há seis anos, mas, dessa vez, ambos estavam machucados por tudo o que poderia ter sido, mas não foi.
O silêncio foi interrompido por uma voz infantil, doce, vinda da porta:
— Mamãe!
Lia se virou.
Clara estava parada na entrada, vestia um tutu rosa, coque torto, segurando pequenos patins coloridos nas mãos.
Os olhos castanhos brilhavam como o reflexo do passado.
— Esses patins estão com defeitos, eles não me deixam ficar de pé. - disse ela meio em burrada - Posso ensaiar minha dança agora? — perguntou, sorrindo, sem perceber o homem ao fundo.
Gui ficou imóvel.
Os patins, o olhar, o jeito de segurar o mundo nas mãos pequenas havia nela um eco dele mesmo, uma lembrança viva.
Lia ajoelhou-se, ajeitando uma mecha rebelde do cabelo da menina.
— Pode, meu amor. Mas devagar, o chão tá frio.
A menina assentiu e correu para o centro da sala, rodopiando.
Gui olhou para Lia.
Lia sustentou o olhar.
A música recomeçou.
E enquanto a menina dançava, girando como um reflexo de luz, o passado e o presente se misturaram.