O segundo dia do festival amanheceu envolto em uma luz morna, dessas que parecem indecisas entre o sol e a névoa.
O ar ainda trazia o cheiro doce de terra úmida e metal das estruturas montadas o festival inteiro vibrava com expectativa, mas Lia sentia como se o mundo estivesse em câmera lenta.
Ainda estava presa à noite anterior.
Aquela imagem de Gui sorrindo no palco, o som dos patins, a voz dele dizendo seu nome voltava como uma canção impossível de silenciar.
O corpo lembrava, mesmo quando a mente tentava esquecer.
Durante a manhã, ela ensaiou com o g***o de dançarinos, os pés firmes no chão, o coração em outro tempo.
Cada giro saía um pouco atrasado, cada respiração vinha rasa. O suor misturava-se ao perfume leve do spray de cabelo e ao cheiro distante de pipoca e chuva, vindos da área externa.
O corpo denunciava o coração: distraído, leve demais ou pesado demais, como se o ritmo verdadeiro estivesse fora dali talvez sentado em algum meio-fio, mexendo num patins.
No intervalo, Lia escapou por uma das portas laterais do pavilhão.
O ar lá fora era úmido, cortado por uma brisa fresca. O sol filtrava-se entre as copas das árvores, desenhando manchas douradas no chão.
Respirou fundo, precisava lembrar como respirava sem dor.
E então o viu.
Gui estava ali, exatamente como ela imaginara, sentado no meio-fio, com uma chave de boca na mão e o boné jogado ao lado.
Mexia nas rodas de um patins com concentração quase meticulosa, os dedos firmes, as veias do antebraço à mostra.
Por um instante, Lia achou que o tempo tivesse parado ou talvez voltado, pregando uma peça c***l e doce ao mesmo tempo.
Quando ele levantou o olhar, o mundo pareceu se alinhar de novo.
Como se o tempo tivesse esperado por aquele instante.
— Achei que você tivesse me evitando — disse ele, com um meio sorriso torto, o mesmo que um dia a desarmara.
— Eu estava — respondeu ela, com honestidade calma. - Mas eu precisava respirar.
Ele bateu na calçada, num convite silencioso.
Lia se sentou ao lado, e o calor da proximidade os envolveu. O silêncio entre eles não era vazio era denso, cheio de coisas que nunca foram ditas.
— Então você ainda anda de patins? — perguntou Lia, tentando soar leve, mas a voz saiu rouca, como se tivesse atravessado anos.
Gui riu baixo.
— Um pouco. O corpo reclama mais agora, mas a v*****e continua a mesma.
Ele a olhou. Longo demais.
O olhar dele tinha o mesmo brilho inquieto de antes, mas agora havia algo novo a calma de quem sobreviveu ao que doeu.
— Eu sempre soube que você ia longe, Lia.
Ela desviou o olhar, o coração acelerando.
— E eu sempre achei que você fosse voltar.
Ele suspirou, passando o polegar nas rodas as fazendo girar.
— Eu tentei. Escrevi tantas vezes, mas nunca enviei.
— O tempo respondeu por nós — disse ela, com um meio sorriso cansado.
O vento soprou, trazendo o cheiro de chuva, o mesmo de tantos anos atrás.
Ambos sorriram, lembrando ao mesmo tempo.
— A chuva. — disse ela. — Você lembra?
— Como esquecer? — Gui riu. — A gente, encharcado em toda oportunidade, rindo sem parar. Você dançando no meio da rua e eu achando que nada podia ser mais bonito.
Lia corou levemente, mas manteve o olhar firme.
— E você me dizendo que um dia ia me ensinar a andar de patins.
Gui ergueu o rosto, os olhos brilhando.
— Eu ainda posso — respondeu, num tom que era quase um convite. — Eu pensei em você muitas vezes, sabia?
Ela respirou fundo.
— Eu também. Mas às vezes lembrar do que foi dói mais do que esquecer.
O silêncio voltou. Denso, quase palpável.
O vento brincava com os fios soltos do cabelo dela, que tocaram o braço dele. Ele não se moveu. Lia também não.
Por um instante, o mundo pareceu se resumir àquele pequeno contato.
Então, passos ecoaram pelo corredor de entrada.
Camila vinha caminhando devagar pela lateral do pavilhão, equilibrando o copo de café quente nas mãos, vestido claro balançando ao vento.
O cheiro de canela e o som distante da música a envolviam, e por um instante ela acreditou que o dia seria leve. Até ver os dois.
Lia e Gui.
Sentados próximos demais, os rostos voltados um para o outro, como se o mundo tivesse esquecido de existir.
Havia algo na maneira como o ar vibrava entre eles.
Não era só amizade.
Era lembrança, viva, inquieta, quase perigosa.
Camila parou a poucos metros, observando em silêncio antes de falar.
Viu o jeito como ele a olhava: o corpo relaxado, o sorriso meio torto, o olhar entregue.
E viu também o que Lia tentava esconder, aquele brilho rápido nos olhos, o pequeno movimento das mãos, o tipo de respiração que denuncia quando o coração está fora do controle.
Um nó se formou no estômago de Camila.
Era uma mistura de ciúme e medo.
Medo de estar presenciando o retorno de algo que já tinha começado antes mesmo de ela existir na história dele.
— Gui? — ela chamou baixo e odiou o som do próprio nome na voz dele quando ele respondeu. Era o mesmo tom que usava quando queria ser gentil com alguém importante.
— Camila, oi amor - respondeu ele se afastando de Lia instintivamente e levantando rápido demais.
Camila sorriu, sem realmente sorrir.
Por um segundo, Lia teve v*****e de desaparecer e ao mesmo tempo, algo dentro dela se rebelou contra a própria culpa.
— Eu já estava indo — disse Lia, se levantando também — Tenho ensaio agora.
Enquanto Lia se levantava, Camila notou o breve toque de seus dedos nos braços de Gui, pequeno, mas suficiente para acender a chama do desconforto.
E então aquele olhar final, rápido, tenso, cheio de algo que ela não soube nomear, mas que reconheceu de imediato: saudade
Gui a observou, como se quisesse dizer algo, mas as palavras ficaram presas.
Camila o observava, atenta, e o ar entre os três parecia elétrico, carregado de tudo que ninguém ousava dizer.
— Vai dançar? — perguntou Gui, num tom mais suave, quase sussurrado.
— Sempre. — respondeu ela, olhando-o por um instante a mais do que devia. — É o que me mantém viva.
Gui a acompanhou com o olhar até ela desaparecer pelos corredores.
Camila continuou ali, em silêncio, os braços cruzados o cheiro do perfume dela contrastando com o cheiro da grama molhada.
Ele sentiu o peso da escolha, antigo e novo, tudo ao mesmo tempo.
Enquanto Lia sumia, o vento soprou novamente.
O cheiro de chuva voltou e Gui pensou que talvez o destino não os tivesse separado.
Talvez só os tivesse colocado em ritmos diferentes.
Mas o mesmo som, a mesma melodia, ainda vibrava, silenciosa, insistente dentro dos dois.
Quando Lia se afastou, Camila permaneceu em silêncio, observando Gui acompanhá-la com os olhos até o último passo.
Ele nem percebeu que ela ainda estava ali.
E isso doeu mais do que qualquer palavra.
— Ela é bonita. — disse, quebrando o silêncio, tentando soar casual.
Gui piscou, como se voltasse à realidade.
— É… sempre foi.
O coração dela apertou.
Ele respondeu sem pensar, sem mentir e talvez fosse justamente isso que mais doía.
— A bailarina, né? — perguntou, mesmo já sabendo a resposta.
— É. — Gui respondeu, olhando o chão. — A bailarina
Por um instante, o vento soprou forte, e o perfume doce de Lia pareceu voltar, misturado ao cheiro de chuva e asfalto.
Camila se encolheu.
Tinha v*****e de perguntar o que exatamente havia entre eles, mas sabia que não era hora.
Gui era um homem simples, mas seus silêncios sempre diziam mais do que queria. E o que aquele silêncio dizia agora, ela não queria ouvir.
— Acho que vou te esperar lá dentro — disse ela, com um tom que tentava esconder a pontada de dor.
— Já vou, tá? — respondeu ele, ainda distraído, os olhos perdidos no corredor por onde Lia havia sumido.
Camila assentiu, mas no fundo soube: ele não voltaria logo.
Caminhou devagar até o pavilhão, o som do festival ficando mais alto a cada passo, tentando afogar o que crescia dentro dela, uma inquietação silenciosa, um medo antigo: o de não ser o passado de ninguém, mas também não ser o futuro.
Quando chegou perto do espelho do camarim, viu o próprio reflexo e forçou um sorriso.
Mas no fundo, sentia o gosto amargo da verdade começando a se formar.
Porque às vezes, o amor não acaba.
Só espera uma brecha e ela acabara de ver a brecha abrir diante dos seus olhos
Porque o amor, às vezes, é como o giro de uma roda, pode rodar quilômetros, atravessar anos, mudar de forma, mas sempre encontra o caminho de volta ao ponto de partida.