Quando o Passado Respira Perto

1484 Words
O segundo dia do festival amanheceu envolto em uma luz morna, dessas que parecem indecisas entre o sol e a névoa. O ar ainda trazia o cheiro doce de terra úmida e metal das estruturas montadas o festival inteiro vibrava com expectativa, mas Lia sentia como se o mundo estivesse em câmera lenta. Ainda estava presa à noite anterior. Aquela imagem de Gui sorrindo no palco, o som dos patins, a voz dele dizendo seu nome voltava como uma canção impossível de silenciar. O corpo lembrava, mesmo quando a mente tentava esquecer. Durante a manhã, ela ensaiou com o g***o de dançarinos, os pés firmes no chão, o coração em outro tempo. Cada giro saía um pouco atrasado, cada respiração vinha rasa. O suor misturava-se ao perfume leve do spray de cabelo e ao cheiro distante de pipoca e chuva, vindos da área externa. O corpo denunciava o coração: distraído, leve demais ou pesado demais, como se o ritmo verdadeiro estivesse fora dali talvez sentado em algum meio-fio, mexendo num patins. No intervalo, Lia escapou por uma das portas laterais do pavilhão. O ar lá fora era úmido, cortado por uma brisa fresca. O sol filtrava-se entre as copas das árvores, desenhando manchas douradas no chão. Respirou fundo, precisava lembrar como respirava sem dor. E então o viu. Gui estava ali, exatamente como ela imaginara, sentado no meio-fio, com uma chave de boca na mão e o boné jogado ao lado. Mexia nas rodas de um patins com concentração quase meticulosa, os dedos firmes, as veias do antebraço à mostra. Por um instante, Lia achou que o tempo tivesse parado ou talvez voltado, pregando uma peça c***l e doce ao mesmo tempo. Quando ele levantou o olhar, o mundo pareceu se alinhar de novo. Como se o tempo tivesse esperado por aquele instante. — Achei que você tivesse me evitando — disse ele, com um meio sorriso torto, o mesmo que um dia a desarmara. — Eu estava — respondeu ela, com honestidade calma. - Mas eu precisava respirar. Ele bateu na calçada, num convite silencioso. Lia se sentou ao lado, e o calor da proximidade os envolveu. O silêncio entre eles não era vazio era denso, cheio de coisas que nunca foram ditas. — Então você ainda anda de patins? — perguntou Lia, tentando soar leve, mas a voz saiu rouca, como se tivesse atravessado anos. Gui riu baixo. — Um pouco. O corpo reclama mais agora, mas a v*****e continua a mesma. Ele a olhou. Longo demais. O olhar dele tinha o mesmo brilho inquieto de antes, mas agora havia algo novo a calma de quem sobreviveu ao que doeu. — Eu sempre soube que você ia longe, Lia. Ela desviou o olhar, o coração acelerando. — E eu sempre achei que você fosse voltar. Ele suspirou, passando o polegar nas rodas as fazendo girar. — Eu tentei. Escrevi tantas vezes, mas nunca enviei. — O tempo respondeu por nós — disse ela, com um meio sorriso cansado. O vento soprou, trazendo o cheiro de chuva, o mesmo de tantos anos atrás. Ambos sorriram, lembrando ao mesmo tempo. — A chuva. — disse ela. — Você lembra? — Como esquecer? — Gui riu. — A gente, encharcado em toda oportunidade, rindo sem parar. Você dançando no meio da rua e eu achando que nada podia ser mais bonito. Lia corou levemente, mas manteve o olhar firme. — E você me dizendo que um dia ia me ensinar a andar de patins. Gui ergueu o rosto, os olhos brilhando. — Eu ainda posso — respondeu, num tom que era quase um convite. — Eu pensei em você muitas vezes, sabia? Ela respirou fundo. — Eu também. Mas às vezes lembrar do que foi dói mais do que esquecer. O silêncio voltou. Denso, quase palpável. O vento brincava com os fios soltos do cabelo dela, que tocaram o braço dele. Ele não se moveu. Lia também não. Por um instante, o mundo pareceu se resumir àquele pequeno contato. Então, passos ecoaram pelo corredor de entrada. Camila vinha caminhando devagar pela lateral do pavilhão, equilibrando o copo de café quente nas mãos, vestido claro balançando ao vento. O cheiro de canela e o som distante da música a envolviam, e por um instante ela acreditou que o dia seria leve. Até ver os dois. Lia e Gui. Sentados próximos demais, os rostos voltados um para o outro, como se o mundo tivesse esquecido de existir. Havia algo na maneira como o ar vibrava entre eles. Não era só amizade. Era lembrança, viva, inquieta, quase perigosa. Camila parou a poucos metros, observando em silêncio antes de falar. Viu o jeito como ele a olhava: o corpo relaxado, o sorriso meio torto, o olhar entregue. E viu também o que Lia tentava esconder, aquele brilho rápido nos olhos, o pequeno movimento das mãos, o tipo de respiração que denuncia quando o coração está fora do controle. Um nó se formou no estômago de Camila. Era uma mistura de ciúme e medo. Medo de estar presenciando o retorno de algo que já tinha começado antes mesmo de ela existir na história dele. — Gui? — ela chamou baixo e odiou o som do próprio nome na voz dele quando ele respondeu. Era o mesmo tom que usava quando queria ser gentil com alguém importante. — Camila, oi amor - respondeu ele se afastando de Lia instintivamente e levantando rápido demais. Camila sorriu, sem realmente sorrir. Por um segundo, Lia teve v*****e de desaparecer e ao mesmo tempo, algo dentro dela se rebelou contra a própria culpa. — Eu já estava indo — disse Lia, se levantando também — Tenho ensaio agora. Enquanto Lia se levantava, Camila notou o breve toque de seus dedos nos braços de Gui, pequeno, mas suficiente para acender a chama do desconforto. E então aquele olhar final, rápido, tenso, cheio de algo que ela não soube nomear, mas que reconheceu de imediato: saudade Gui a observou, como se quisesse dizer algo, mas as palavras ficaram presas. Camila o observava, atenta, e o ar entre os três parecia elétrico, carregado de tudo que ninguém ousava dizer. — Vai dançar? — perguntou Gui, num tom mais suave, quase sussurrado. — Sempre. — respondeu ela, olhando-o por um instante a mais do que devia. — É o que me mantém viva. Gui a acompanhou com o olhar até ela desaparecer pelos corredores. Camila continuou ali, em silêncio, os braços cruzados o cheiro do perfume dela contrastando com o cheiro da grama molhada. Ele sentiu o peso da escolha, antigo e novo, tudo ao mesmo tempo. Enquanto Lia sumia, o vento soprou novamente. O cheiro de chuva voltou e Gui pensou que talvez o destino não os tivesse separado. Talvez só os tivesse colocado em ritmos diferentes. Mas o mesmo som, a mesma melodia, ainda vibrava, silenciosa, insistente dentro dos dois. Quando Lia se afastou, Camila permaneceu em silêncio, observando Gui acompanhá-la com os olhos até o último passo. Ele nem percebeu que ela ainda estava ali. E isso doeu mais do que qualquer palavra. — Ela é bonita. — disse, quebrando o silêncio, tentando soar casual. Gui piscou, como se voltasse à realidade. — É… sempre foi. O coração dela apertou. Ele respondeu sem pensar, sem mentir e talvez fosse justamente isso que mais doía. — A bailarina, né? — perguntou, mesmo já sabendo a resposta. — É. — Gui respondeu, olhando o chão. — A bailarina Por um instante, o vento soprou forte, e o perfume doce de Lia pareceu voltar, misturado ao cheiro de chuva e asfalto. Camila se encolheu. Tinha v*****e de perguntar o que exatamente havia entre eles, mas sabia que não era hora. Gui era um homem simples, mas seus silêncios sempre diziam mais do que queria. E o que aquele silêncio dizia agora, ela não queria ouvir. — Acho que vou te esperar lá dentro — disse ela, com um tom que tentava esconder a pontada de dor. — Já vou, tá? — respondeu ele, ainda distraído, os olhos perdidos no corredor por onde Lia havia sumido. Camila assentiu, mas no fundo soube: ele não voltaria logo. Caminhou devagar até o pavilhão, o som do festival ficando mais alto a cada passo, tentando afogar o que crescia dentro dela, uma inquietação silenciosa, um medo antigo: o de não ser o passado de ninguém, mas também não ser o futuro. Quando chegou perto do espelho do camarim, viu o próprio reflexo e forçou um sorriso. Mas no fundo, sentia o gosto amargo da verdade começando a se formar. Porque às vezes, o amor não acaba. Só espera uma brecha e ela acabara de ver a brecha abrir diante dos seus olhos Porque o amor, às vezes, é como o giro de uma roda, pode rodar quilômetros, atravessar anos, mudar de forma, mas sempre encontra o caminho de volta ao ponto de partida.
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