Enquanto o dia amanhece

1830 Words
A cidade dormia quando Gui começou a andar. A madrugada escorria pelas ruas molhadas de São Paulo como uma memória cansada, refletindo luzes trêmulas de postes e vitrines fechadas. O vento trazia cheiro de terra úmida e gasolina, o som de pneus cortando poças, e o eco de passos que não sabiam aonde ir. Ele caminhava sem direção, como quem tenta despistar o próprio destino. O capuz encharcado, os tênis pesados, o coração ainda mais. A cada esquina, o corpo o traía. A cada esquina, o nome dela voltava, 1 mmLia. Tão breve, tão simples, tão inteiro. Como se o nome fosse feito para caber dentro da respiração dele. E por mais que tentasse, o corpo não esquecia o cheiro da pele dela misturado ao suor da dança, o olhar que parou o tempo durante a apresentação, o modo como ela respirava antes do primeiro passo. Ele tinha tentado seguir em frente. Mas havia coisas que não se superam, apenas se aprende a carregar. E Lia era uma delas. Quando o relógio marcava quase três da manhã, Gui parou diante do hotel. O prédio parecia adormecido, mergulhado numa penumbra silenciosa. A recepção estava vazia, o relógio da parede marcava um tempo que não interessava mais. Subiu as escadas devagar, contando os degraus como quem adia uma dor. O corredor era estreito, iluminado por lâmpadas amareladas que piscavam, cansadas. O tapete abafava o som dos passos. E cada porta numerada parecia um limite uma chance de voltar atrás. Parou diante da dela. Sentiu o coração bater forte, irregular, como se o corpo pressentisse o que viria. Por um instante, pensou em ir embora. Pensou em deixar a saudade como estava inteira, mas distante. Mas a lembrança do olhar dela durante a apresentação o empurrou adiante. Aquele olhar era uma cicatriz aberta. Bateu uma vez. Depois outra. E esperou. A porta se abriu devagar. Lia estava ali, envolta em um roupão branco que m*l escondia o desenho do corpo. O cabelo ainda úmido, o rosto corado, o olhar cansado e limpo, um olhar de quem já entendeu tudo, mas ainda sente tudo. Atrás dela, o quarto respirava em meia-luz: lençóis amarrotados, uma caneca de café pela metade, o som distante da chuva, denunciava que ela também não estava conseguindo dormir. — Gui... — ela começou, mas a voz se perdeu, como se tivesse esquecido o idioma do reencontro. Ele não respondeu. Apenas respirou fundo e balançou a cabeça, num gesto que misturava pedido de perdão e rendição. Um passo. Depois outro. E fechou a porta atrás de si. O ar entre os dois se tornou espesso. Podia-se ouvir o som do coração dele batendo o mesmo que ela reconheceria entre mil. — Eu tentei — murmurou. — Deus sabe que eu tentei. Lia fechou os olhos. O corpo respondeu antes do pensamento. Um suspiro. Um passo à frente. E então o espaço entre eles se dissolveu. O beijo veio devagar, como quem volta para casa depois de uma vida inteira exilado. Foi lento no início, tateante, quase tímido. Mas logo o tempo se desfez, e o beijo se tornou confissão, uma urgência antiga, um perdão adiado. As mãos dele encontraram a nuca dela, puxando-a para perto, e o roupão se soltou levemente, revelando o calor da pele. A respiração se misturava, o ar parecia pouco. Não era luxúria. Era necessidade. Era o grito contido de tudo o que nunca viveram. A chuva do lado de fora marcou o compasso da entrega. O quarto se encheu de silêncio aquele tipo de silêncio que não é ausência, mas plenitude. Ele a puxou, elw se deixou guiar. Entre toques e murmúrios, o tempo suspendeu suas regras. Quando enfim o silêncio chegou, era outro tipo de quietude. Plena, densa, quase sagrada. Lia repousou a cabeça sobre o peito dele. Ouviu o som ritmado do coração que um dia embalaram sentados num banco de praça. Gui passou os dedos pelos cabelos dela, sem dizer nada. Não havia mais o que dizer. Ambos sabiam aquilo não era um começo. Era um adeus disfarçado de recomeço. A madrugada foi longa. Lá fora, o vento batia nos vidros, a chuva cessava e voltava, como se o céu também não soubesse parar. O perfume dela misturava-se ao dele: cheiro de pele, suor e lembrança. O lençol colado na pele guardava o desenho do que foram por uma primeira e última noite. Por um tempo, apenas ficaram deitados. Nenhum deles dormia, mas também não se mexiam. Havia um medo mútuo de que qualquer movimento quebrasse o feitiço. Gui olhava o teto, os pensamentos vagando. Pensava em quantas vezes a vida os colocou em direções opostas. Pensava que talvez o amor fosse isso, a arte de perder sem deixar de sentir. Lia, ao lado dele, pensava no mesmo. Pensava no quanto o tempo havia sido c***l e sábio, e como, apesar de tudo, nada nela se arrependia. O relógio marcava cinco da manhã quando ela finalmente adormeceu por alguns minutos. Ele ficou acordado, observando o rosto dela na penumbra. Tão sereno, tão intocável. Gui quis memorizar cada traço, cada curva, cada suspiro. Sabia que, depois daquela noite, não haveria outra. O destino não deixaria. Quando o dia começou a nascer, Lia abriu os olhos devagar. O quarto estava mergulhado em uma luz cinzenta. Por um instante, ela não se moveu. Apenas olhou para o teto, sentindo o peso doce da noite que havia acabado. Virou-se, e o viu. Gui dormia ao seu lado, o peito subindo e descendo num ritmo calmo. Uma mecha de cabelo caía sobre a testa, o rosto sereno, quase juvenil. Lia sorriu sem querer. E ao mesmo tempo, o coração apertou. Ela sabia: o amanhecer cobra o que a madrugada concede. Levantou-se devagar, vestiu o roupão, e foi até a janela. Lá fora, o dia clareava em tons pálidos. As ruas ainda úmidas refletiam o céu esbranquiçado. Um caminhão passava ao longe, e o som dos pássaros misturava-se ao ruído de motores. A cidade começava a acordar, indiferente ao fim de um amor. Gui se mexeu na cama, abriu os olhos. Por alguns segundos, apenas a observou. Lia de costas, envolta no roupão branco, o cabelo solto, uma imagem que doía e curava ao mesmo tempo. O sol desenhava contornos dourados em torno dela. Ele quis guardar aquilo para sempre. — Já é dia? — perguntou, a voz rouca. Ela assentiu sem virar o rosto. O silêncio que se seguiu era quase físico. Gui sentou-se na cama, passou as mãos pelo rosto. — Eu preciso ir. Lia fechou os olhos. Respirou fundo. — Eu sei — respondeu. — Mas saber não torna mais fácil. Ele riu, mas o riso veio cansado, partido. — O amor nunca torna. Levantou-se, caminhou até ela. Parou atrás, tão perto que podia sentir o calor do corpo dela. Colocou as mãos sobre a cintura dela num gesto lento, hesitante. O toque era uma despedida e um agradecimento. Lia inclinou a cabeça para trás, encostando levemente na nele. Por um instante, ficaram assim, imóveis, respirando juntos, como se o mundo inteiro coubesse entre seus corpos. — Eu queria que o tempo fosse outro — murmurou ele, quase um sussurro. — Eu também — respondeu ela. — Mas o tempo nunca erra, Gui. É isso que o torna c***l. Ele fechou os olhos. Sabia que ela tinha razão. O tempo não erra. Mas também não perdoa. Um silêncio longo se instalou, e então, sem drama, ele beijou o topo da cabeça dela e a soltou. Vestiu a camiseta, amarrou os tênis, olhou ao redor o quarto, a cama, o lençol amassado, o perfume dela no ar. Tudo parecia um retrato emoldurado em lembrança. Antes de abrir a porta, olhou para ela uma última vez. Os olhos dos dois se encontraram, e naquele olhar havia tudo: amor, dor, gratidão, rendição. Ele voltou e a beijou pela última vez, sabia que isso tornaria a despedida ainda mais dolorosa, ma precisava sentir o gosto dos lábios dela pela última vez. — Cuida de você — ele disse, num tom que quase se perdeu no ar. Lia não respondeu. Apenas assentiu, o rosto sereno, os olhos marejados. Ele sorriu de leve, triste e saiu. O som da porta se fechando ecoou como uma ruptura. O silêncio que veio depois era o som do fim. Lia permaneceu parada por um tempo, olhando a porta fechada, como quem tenta gravar na pele a ausência recém-nascida. Depois, voltou à janela. O sol agora rasgava o céu com uma luz dourada e triste. A cidade seguia seu ritmo. Nada havia mudado, exceto tudo dentro dela. No canto do quarto, os patins encostado na parede. O mesmo que ele deixara ali, calado, como quem deixa um pedaço de si. Lia se aproximou, ajoelhou-se e passou os dedos sobre as rodinhas frias. O toque trouxe um arrepio. Sorriu. Um sorriso pequeno, cansado, cheio de amor e rendição. Porque sabia, certos amores não acabam, eles apenas mudam de forma. Viraram vento, música, lembrança. E enquanto houver movimento, enquanto o corpo ainda souber dançar, ele estará lá. Em algum lugar do tempo. Com ela. Sempre com ela. Sorriu. Um sorriso pequeno, cansado, cheio de amor e rendição. Antes de partir, Lia voltou ao teatro. O mesmo em que dançara para ele pela última vez. As portas estavam abertas, e o cheiro do lugar, madeira, ** e eco a envolveu como um abraço antigo. O palco estava vazio, iluminado por um facho de luz dourada que atravessava as cortinas. As poltronas em silêncio pareciam guardar segredos. Lia caminhou até o centro do palco. Os passos fizeram ecoar o som que sempre amou o ruído seco da madeira sob os pés, o prelúdio do movimento. Ali, tudo nela se aquietou. Fechou os olhos. Respirou fundo. E começou a dançar. Sem música. Sem plateia. Sem ele. Cada gesto era uma lembrança. Cada giro, uma despedida. Os braços desenhavam no ar o que as palavras não podiam dizer. O corpo falava o idioma que o coração ainda lembrava. O sol atravessava as janelas altas, tingindo tudo de ouro e melancolia. Por um instante, parecia que o tempo se curvava diante dela permitindo que ele estivesse ali, invisível, acompanhando cada movimento. Ela sentiu. Sentiu como se o ar respirasse com ela. Como se o amor ainda ocupasse o espaço entre os passos. Girou uma última vez. Parou. O corpo ofegante, o olhar fixo no vazio da plateia. Um único feixe de luz caiu sobre seu rosto, iluminando as lágrimas que agora escorriam devagar. Ela sorriu. Não de tristeza, mas de paz. O amor ainda existia, mas agora cabia dentro da arte, dentro do gesto, dentro dela. Abaixou-se, encostou a palma da mão no chão do palco, e sussurrou: — Obrigada. Depois se levantou, caminhou até a coxia, e desapareceu na penumbra. O teatro permaneceu em silêncio, mas o ar parecia ainda vibrar. Como se a dança não tivesse acabado. Como se, de algum modo invisível, ele ainda estivesse ali esperando o próximo passo.
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