A cidade dormia quando Gui começou a andar.
A madrugada escorria pelas ruas molhadas de São Paulo como uma memória cansada, refletindo luzes trêmulas de postes e vitrines fechadas.
O vento trazia cheiro de terra úmida e gasolina, o som de pneus cortando poças, e o eco de passos que não sabiam aonde ir.
Ele caminhava sem direção, como quem tenta despistar o próprio destino.
O capuz encharcado, os tênis pesados, o coração ainda mais.
A cada esquina, o corpo o traía.
A cada esquina, o nome dela voltava, 1 mmLia.
Tão breve, tão simples, tão inteiro.
Como se o nome fosse feito para caber dentro da respiração dele.
E por mais que tentasse, o corpo não esquecia o cheiro da pele dela misturado ao suor da dança, o olhar que parou o tempo durante a apresentação, o modo como ela respirava antes do primeiro passo.
Ele tinha tentado seguir em frente.
Mas havia coisas que não se superam, apenas se aprende a carregar.
E Lia era uma delas.
Quando o relógio marcava quase três da manhã, Gui parou diante do hotel.
O prédio parecia adormecido, mergulhado numa penumbra silenciosa.
A recepção estava vazia, o relógio da parede marcava um tempo que não interessava mais.
Subiu as escadas devagar, contando os degraus como quem adia uma dor.
O corredor era estreito, iluminado por lâmpadas amareladas que piscavam, cansadas.
O tapete abafava o som dos passos.
E cada porta numerada parecia um limite uma chance de voltar atrás.
Parou diante da dela.
Sentiu o coração bater forte, irregular, como se o corpo pressentisse o que viria.
Por um instante, pensou em ir embora.
Pensou em deixar a saudade como estava inteira, mas distante.
Mas a lembrança do olhar dela durante a apresentação o empurrou adiante.
Aquele olhar era uma cicatriz aberta.
Bateu uma vez.
Depois outra.
E esperou.
A porta se abriu devagar.
Lia estava ali, envolta em um roupão branco que m*l escondia o desenho do corpo.
O cabelo ainda úmido, o rosto corado, o olhar cansado e limpo, um olhar de quem já entendeu tudo, mas ainda sente tudo.
Atrás dela, o quarto respirava em meia-luz: lençóis amarrotados, uma caneca de café pela metade, o som distante da chuva, denunciava que ela também não estava conseguindo dormir.
— Gui... — ela começou, mas a voz se perdeu, como se tivesse esquecido o idioma do reencontro.
Ele não respondeu.
Apenas respirou fundo e balançou a cabeça, num gesto que misturava pedido de perdão e rendição.
Um passo.
Depois outro.
E fechou a porta atrás de si.
O ar entre os dois se tornou espesso.
Podia-se ouvir o som do coração dele batendo o mesmo que ela reconheceria entre mil.
— Eu tentei — murmurou. — Deus sabe que eu tentei.
Lia fechou os olhos.
O corpo respondeu antes do pensamento.
Um suspiro.
Um passo à frente.
E então o espaço entre eles se dissolveu.
O beijo veio devagar, como quem volta para casa depois de uma vida inteira exilado.
Foi lento no início, tateante, quase tímido.
Mas logo o tempo se desfez, e o beijo se tornou confissão, uma urgência antiga, um perdão adiado.
As mãos dele encontraram a nuca dela, puxando-a para perto, e o roupão se soltou levemente, revelando o calor da pele.
A respiração se misturava, o ar parecia pouco.
Não era luxúria.
Era necessidade.
Era o grito contido de tudo o que nunca viveram.
A chuva do lado de fora marcou o compasso da entrega.
O quarto se encheu de silêncio aquele tipo de silêncio que não é ausência, mas plenitude.
Ele a puxou, elw se deixou guiar.
Entre toques e murmúrios, o tempo suspendeu suas regras.
Quando enfim o silêncio chegou, era outro tipo de quietude.
Plena, densa, quase sagrada.
Lia repousou a cabeça sobre o peito dele.
Ouviu o som ritmado do coração que um dia embalaram sentados num banco de praça.
Gui passou os dedos pelos cabelos dela, sem dizer nada.
Não havia mais o que dizer.
Ambos sabiam aquilo não era um começo.
Era um adeus disfarçado de recomeço.
A madrugada foi longa.
Lá fora, o vento batia nos vidros, a chuva cessava e voltava, como se o céu também não soubesse parar.
O perfume dela misturava-se ao dele: cheiro de pele, suor e lembrança.
O lençol colado na pele guardava o desenho do que foram por uma primeira e última noite.
Por um tempo, apenas ficaram deitados.
Nenhum deles dormia, mas também não se mexiam.
Havia um medo mútuo de que qualquer movimento quebrasse o feitiço.
Gui olhava o teto, os pensamentos vagando.
Pensava em quantas vezes a vida os colocou em direções opostas.
Pensava que talvez o amor fosse isso, a arte de perder sem deixar de sentir.
Lia, ao lado dele, pensava no mesmo.
Pensava no quanto o tempo havia sido c***l e sábio, e como, apesar de tudo, nada nela se arrependia.
O relógio marcava cinco da manhã quando ela finalmente adormeceu por alguns minutos.
Ele ficou acordado, observando o rosto dela na penumbra.
Tão sereno, tão intocável.
Gui quis memorizar cada traço, cada curva, cada suspiro.
Sabia que, depois daquela noite, não haveria outra.
O destino não deixaria.
Quando o dia começou a nascer, Lia abriu os olhos devagar.
O quarto estava mergulhado em uma luz cinzenta.
Por um instante, ela não se moveu.
Apenas olhou para o teto, sentindo o peso doce da noite que havia acabado.
Virou-se, e o viu.
Gui dormia ao seu lado, o peito subindo e descendo num ritmo calmo.
Uma mecha de cabelo caía sobre a testa, o rosto sereno, quase juvenil.
Lia sorriu sem querer.
E ao mesmo tempo, o coração apertou.
Ela sabia: o amanhecer cobra o que a madrugada concede.
Levantou-se devagar, vestiu o roupão, e foi até a janela.
Lá fora, o dia clareava em tons pálidos.
As ruas ainda úmidas refletiam o céu esbranquiçado.
Um caminhão passava ao longe, e o som dos pássaros misturava-se ao ruído de motores.
A cidade começava a acordar, indiferente ao fim de um amor.
Gui se mexeu na cama, abriu os olhos.
Por alguns segundos, apenas a observou.
Lia de costas, envolta no roupão branco, o cabelo solto, uma imagem que doía e curava ao mesmo tempo.
O sol desenhava contornos dourados em torno dela.
Ele quis guardar aquilo para sempre.
— Já é dia? — perguntou, a voz rouca.
Ela assentiu sem virar o rosto.
O silêncio que se seguiu era quase físico.
Gui sentou-se na cama, passou as mãos pelo rosto.
— Eu preciso ir.
Lia fechou os olhos.
Respirou fundo.
— Eu sei — respondeu. — Mas saber não torna mais fácil.
Ele riu, mas o riso veio cansado, partido.
— O amor nunca torna.
Levantou-se, caminhou até ela.
Parou atrás, tão perto que podia sentir o calor do corpo dela.
Colocou as mãos sobre a cintura dela num gesto lento, hesitante.
O toque era uma despedida e um agradecimento.
Lia inclinou a cabeça para trás, encostando levemente na nele.
Por um instante, ficaram assim, imóveis, respirando juntos, como se o mundo inteiro coubesse entre seus corpos.
— Eu queria que o tempo fosse outro — murmurou ele, quase um sussurro.
— Eu também — respondeu ela. — Mas o tempo nunca erra, Gui. É isso que o torna c***l.
Ele fechou os olhos.
Sabia que ela tinha razão.
O tempo não erra.
Mas também não perdoa.
Um silêncio longo se instalou, e então, sem drama, ele beijou o topo da cabeça dela e a soltou.
Vestiu a camiseta, amarrou os tênis, olhou ao redor o quarto, a cama, o lençol amassado, o perfume dela no ar.
Tudo parecia um retrato emoldurado em lembrança.
Antes de abrir a porta, olhou para ela uma última vez.
Os olhos dos dois se encontraram, e naquele olhar havia tudo: amor, dor, gratidão, rendição.
Ele voltou e a beijou pela última vez, sabia que isso tornaria a despedida ainda mais dolorosa, ma precisava sentir o gosto dos lábios dela pela última vez.
— Cuida de você — ele disse, num tom que quase se perdeu no ar.
Lia não respondeu.
Apenas assentiu, o rosto sereno, os olhos marejados.
Ele sorriu de leve, triste e saiu.
O som da porta se fechando ecoou como uma ruptura.
O silêncio que veio depois era o som do fim.
Lia permaneceu parada por um tempo, olhando a porta fechada, como quem tenta gravar na pele a ausência recém-nascida.
Depois, voltou à janela.
O sol agora rasgava o céu com uma luz dourada e triste.
A cidade seguia seu ritmo.
Nada havia mudado, exceto tudo dentro dela.
No canto do quarto, os patins encostado na parede.
O mesmo que ele deixara ali, calado, como quem deixa um pedaço de si.
Lia se aproximou, ajoelhou-se e passou os dedos sobre as rodinhas frias.
O toque trouxe um arrepio.
Sorriu.
Um sorriso pequeno, cansado, cheio de amor e rendição.
Porque sabia, certos amores não acabam, eles apenas mudam de forma.
Viraram vento, música, lembrança.
E enquanto houver movimento,
enquanto o corpo ainda souber dançar,
ele estará lá.
Em algum lugar do tempo.
Com ela.
Sempre com ela.
Sorriu.
Um sorriso pequeno, cansado, cheio de amor e rendição.
Antes de partir, Lia voltou ao teatro.
O mesmo em que dançara para ele pela última vez.
As portas estavam abertas, e o cheiro do lugar, madeira, ** e eco a envolveu como um abraço antigo.
O palco estava vazio, iluminado por um facho de luz dourada que atravessava as cortinas.
As poltronas em silêncio pareciam guardar segredos.
Lia caminhou até o centro do palco.
Os passos fizeram ecoar o som que sempre amou o ruído seco da madeira sob os pés, o prelúdio do movimento.
Ali, tudo nela se aquietou.
Fechou os olhos.
Respirou fundo.
E começou a dançar.
Sem música.
Sem plateia.
Sem ele.
Cada gesto era uma lembrança.
Cada giro, uma despedida.
Os braços desenhavam no ar o que as palavras não podiam dizer.
O corpo falava o idioma que o coração ainda lembrava.
O sol atravessava as janelas altas, tingindo tudo de ouro e melancolia.
Por um instante, parecia que o tempo se curvava diante dela permitindo que ele estivesse ali, invisível, acompanhando cada movimento.
Ela sentiu.
Sentiu como se o ar respirasse com ela.
Como se o amor ainda ocupasse o espaço entre os passos.
Girou uma última vez.
Parou.
O corpo ofegante, o olhar fixo no vazio da plateia.
Um único feixe de luz caiu sobre seu rosto, iluminando as lágrimas que agora escorriam devagar.
Ela sorriu.
Não de tristeza, mas de paz.
O amor ainda existia, mas agora cabia dentro da arte, dentro do gesto, dentro dela.
Abaixou-se, encostou a palma da mão no chão do palco, e sussurrou:
— Obrigada.
Depois se levantou, caminhou até a coxia, e desapareceu na penumbra.
O teatro permaneceu em silêncio,
mas o ar parecia ainda vibrar.
Como se a dança não tivesse acabado.
Como se, de algum modo invisível,
ele ainda estivesse ali
esperando o próximo passo.